28 de julho de 2010
O medo e o comodismo – Parte II ou Do inusitado – Parte III
BLOG, bolo de rolo
Por Dandara Palankof
1. INT. TÁXI. NOITE. DANDARA E MOTORISTA.
O táxi está parado em frente à uma loja de conveniências de um posto de gasolina, no começo da Avenida Conde da Boa Vista. Cai uma chuva fina. O posto está um pouco movimentado, mas a avenida está vazia. O MOTORISTA do táxi é um senhor moreno, calvo, de óculos e relativamente franzino. Espera pacientemente que DANDARA, no banco de trás, pegue o dinheiro na carteira para pagar a corrida. Ela usa uma saia na altura do joelho, camisetinha regata e um casaco; entrega a ele uma nota e algumas moedas e vira-se para sair do carro. É quando vê, pela janela, alguns grupos de pessoas subindo a avenida. A maioria dos homens usa bermudões e chinelos; alguns, bonés. As mulheres, calças e shorts jeans nitidamente menores que os números que realmente deveriam usar. A maioria de ambos usa a camisa da Torcida Jovem do Sport. Um grupo passa pelo carro. DANDARA engole em seco. Vira-se para o MOTORISTA.
DANDARA
O senhor poderia esperar só um instantinho, enquanto esse pessoal passa?
MOTORISTA
Claro.
DANDARA (olhando para a câmera, à sua esquerda)
Esse foi um medo adquirido. Geralmente, com certos limites, acho que me viro bem enquanto pedestre na noite recifense. Mas a Jovem é a torcida organizada mais temida da cidade. Desde que me mudei pra cá que meus amigos plantaram em minha mente a imagem de que, se eu saísse desacompanhada pelo centro da cidade em dia de jogo na Ilha do Retiro, eu fatalmente seria atacada por uma horda de seres usando essa indumentária amarela, balançando os braços em forma de asa e gritando “ú-ú, ajoviarrêa!”. Tenebroso. Coisa de remarcar aula por conta do jogo. Já escapei de uns dois arrastões, acho. Vamos torcer para esse ser o terceiro.
DANDARA. Observa o grupo ganhar um pouco de distância. Agradece ao MOTORISTA e sai do carro.
2. EXT. AVENIDA CONDE DA BOA VISTA. NOITE. DANDARA, CAFUÇU 1, CAFUÇU 2, CAFUCÉIA E CAFUÇU 3.
Outros grupos semelhantes continuam a subir a avenida, de ambos os lados. DANDARA respira fundo, engole em seco e atravessa a rua em direção à parada de ônibus quase vazia. Senta-se em um dos bancos, agarrando a bolsa em seu colo. Sua expressão é tensa, mas como se não quisesse deixar transparecê-lo. À sua esquerda (a direção de onde vêm os ônibus) e um pouco distante, o CAFUÇU 1; também de bermuda, camiseta e cabelo espetado de gel, mas descalço. Ele e DANDARA se olham rapidamente e ela volta sua atenção novamente ao fluxo de ônibus. O rapaz se levanta e atravessa a rua. DANDARA relaxa um pouco. Ela então se vira para a direita e vê o CAFUÇU 2; magro, bastante alto, também de bermuda, uma camiseta regata vermelha e boné. Ele faz um movimento com as mãos olhando para um grupo de pessoas do outro lado da rua.
DANDARA (agarrando mais a bolsa, olhando para a câmera, em frente)
Oh Deus, ele tá avisando que a vítima sou eu. Vai me abordar sozinho, mas tem reforços. Como diabos eu fui esquecer que hoje tinha jogo? E agora? Eu nem tenho uma garrafa! Que merda, eu corro agora? Se eu chegar na Select, tô salva. Eles não vão esperar, né? Deve ter mais estúpidos incautos como…
O CAFUÇU 2 passa por DANDARA sem nem ao menos olhá-la. Ela se cala e acompanha-o com o olhar até ele atravessar a rua e se juntar ao grupo, que continua subindo a avenida. DANDARA respira fundo e volta a observar os ônibus que volta e meia passam, acelerados. Uma mulher, então, atravessa a rua e se posiciona na ponta da parada: a CAFUCÉIA veste calça jeans (a sobra da barra está dobrada até quase a metade da perna), jaqueta também jeans e uma sandália de salto alto de gosto duvidoso. Tem uma sacola plástica nas mãos; os cabelos, pretos e lisos, em um rabo de cavalo. Fica o tempo todo de costas para DANDARA. Então, um homem atravessa a rua em direção a ela: o CAFUÇU 3 usa jeans, camiseta preta sem mangas da Adidas, boné e uma sandália de couro; aparenta pouco mais de 40 anos. Diz algo à CAFUCÉIA enquanto caminha.
CAFUÇU 3
Não fique aí não, tá tendo arrastão…
DANDARA (olhando para a câmera, à direita)
Uau. Era tudver=311″ type=”text/javascript”>o o que eu precisava ouvir agora.
CAFUCÉIA.
Eu vou embora! Eu vou pegar o ônibus e vou embora!
CAFUÇU 3
Mas veja… tá tendo arrastão… e… fique aqui, vamo conversar…
CAFUCÉIA
Agora?! Não, depois do que você fez?! Ir no meu trabalho! Meu trabalho não é lugar pra isso! Olha só o que tu me arrumou!
DANDARA repara em dois rapazes caminhando no meio da rua e aperta novamente a bolsa contra si. Ela então avista seu ônibus chegando em meio a um novo comboio e se levanta. O olhar se alterna entre o ônibus e os rapazes, todos se aproximando. O casal ainda discute. DANDARA tem a expressão de quem forçadamente demonstra um falso desinteresse em algo, tensa pela briga e pela aproximação suspeita, mas os casal não a nota. O ônibus se aproxima primeiro, DANDARA estende o braço.
CAFUÇU 3
Mas não, veja só…
CAFUCÉIA
E você bebeu, num foi! Diga, você num bebeu?! Bebeu sim, tá cheirando a bebida!
O ônibus para e DANDARA suspira, aliviada. Sobe os primeiros degraus enquanto ainda ouve o casal.
CAFUÇU 3
Não, olhe, não vá, não…
CAFUCÉIA (levantando a voz)
Eu vou pra onde eu quiser que quem manda na minha vida sou eu!
3. INT. ÔNIBUS. NOITE. DANDARA E RICARDO.
DANDARA passa pela roleta e senta-se em uma cadeira sem par, junto à janela, logo no começo do carro. Começa a procurar algo dentro da bolsa.
DANDARA (olhando para a câmera, a frente)
Apesar de tudo, eu adoro o ritual de pegar ônibus tarde. Tão sempre vazios, não tem bagunça, não tem trânsito… eu sento aqui, meu lugar preferido porque ninguém pode sentar do meu lado, coloco os fones de ouvido, e sou só eu. Eu e mais…
Um HOMEM, sentado nas cadeiras logo atrás, toca levemente no ombro de DANDARA. È branco, olhos ligeiramente apertados (mas não puxados) azuis acinzentados e cabelo aloirado num corte de máquina 3. Parece ter trinta e muitos anos; veste calça marrom e camisa de botões, cáqui com um axadrezado formado por finas linhas vermelhas.
DANDARA (respirando fundo)
Tá de sacanagem… [virando-se para o homem] pois não?
HOMEM
É… desculpe, eu queria saber se você conhece algum bom tatuador por aqui. Tava querendo fazer uma…
DANDARA (ligeiramente desconcertada)
É… bom… você pergunta por causa da minha, né?
Ela aponta para a parte externa de sua perna direita, onde tem tatuada a imagem da capa do disco Mellon Collie and the Infinite Sadness, dos Smashing Pumpkins.
DANDARA
Então, bom… não sei lhe dizer. Fiz a minha em Brasília.
HOMEM
Ah, é mesmo? Morei lá por três anos e meio. Faz um que voltei.
DANDARA (já um pouco mais relaxada e se recostando na cadeira)
Sério? E aí, gostou?
HOMEM
Muito. Quando fui pra lá, eu era bem bairrista, sabe? Ficava dizendo que aqui era o melhor lugar do mundo, coisa e tal… mas é impressionante como as coisas lá são diferentes. A qualidade de vida é outra. A quantidade de árvores, a educação das pessoas… porque recifense é mal-educado, né? Somos boa gente, mas muito sem educação… jogamos lixo no chão, não paramos na faixa… outra história, lá.
DANDARA
[olhando para a câmera, agora a sua esquerda] Olha só. Já gosto dele. [olhando novamente para o HOMEM] E voltou porque?
HOMEM
Ah, várias coisas… questões de família por aqui, um relacionamento que acabou por lá… essas coisas… mas tenho muita saudade. Ainda quero voltar. E meu trabalho até que facilita isso.
DANDARA
Você faz o quê?
HOMEM
Trabalho no Banco do Brasil. Ah, sim, meu nome é RICARDO. E o seu?
DANDARA
Meu nome é Dandara. Muito prazer.
DANDARA e RICARDO continuam a conversar tranquilamente enquanto o ônibus cruza a avenida Agamenon Magalhães, passando pelas pontes Joana Bezerra e do Pina, até começar a cortar a avenida Domingos Ferreira.
RICARDO
Mas não que meu amor por Recife tenha acabado, de jeito nenhum. Essa cidade é linda. Admito até que em Brasília a uniformidade das coisas me incomodava, vez ou outra. Cada prédio aqui meio que tem seu jeito… o centro da cidade… agora tá decadente, mas eu que vivi aquilo no fim dos anos 70 e começo dos 80… era outra história. Um monte de lojas grandes que nem existem mais, as pessoas fazendo suas compras… uma coisa meio “Era do rádio”, do Woddy Allen… você gosta de cinema?
DANDARA
Gosto muito.
RICARDO
Pois é, os cinemas… comecei a gostar de filmes com meus pais me levando praqueles cinemas maravilhosos do centro… o São Luiz, o único que sobrou… o Veneza… até hoje a fachada dele existe, ali na Rua do Hospício… olha só, eu fico até arrepiado…!
DANDARA
Mas e a tatuagem, o que é mesmo que você quer fazer?
RICARDO
Ah, então. Aqui na perna esquerda. Faria no braço, mas o emprego… enfim, queria escrever “Since 1973”. Que nem aqueles bares que tem as plaquinhas, “Since…”, e o ano da fundação. Pois é. Eu gosto do ano que nasci. Gosto da época em que cresci. Tenho orgulho da minha idade.
DANDARA
É saudável não se achar deslocado no tempo.
RICARDO
Pois é.
DANDARA (se levantando)
Bom… a minha é a próxima.
RICARDO (estendendo a mão)
Boa-noite, Dandara. Foi um prazer. Desculpe a perturbação.
DANDARA (apertando a mão de RICARDO)
Perturbação nenhuma, foi realmente um prazer. Até mais.
DANDARA caminha para o fundo do ônibus, que vai reduzindo a velocidade. Chega em frente à porta traseira e espera que ele pare completamente. Respira fundo, faz um meneio de cabeça, dá um leve sorriso e olha para a câmera, a sua direita.
DANDARA
Pra ser sincera, eu tava esperando até o último minuto que ele fosse um psicopata.
4. EXT. RUA ANTÔNIOFALCÃO. NOITE. DANDARA.
DANDARA desce do ônibus e caminha pela rua deserta. À sua esquerda, um supermercado; alguns de seus funcionários esperam pela saída do transporte da empresa. À direita, uma agência bancária.
DANDARA
Earl diria que isso foi “o carma”. São bons, momentos assim, pra lembrar que essas pequenas interações, dessas descompromissadas, são extremamente válidas; e que ainda existem, apesar de todo o medo; seja dum cheira-cola, da Jovem ou de um desconhecido estranhamente simpático. Lembro de uma vez em que desci nesse ponto, umas 4h da manhã, depois de um show, e uma garota também ia descer; ela tava com um amigo, que seguiria no ônibus, e comentava que estava receosa do caminho. Eu disse que também ia descer ali e lembro da expressão desconfiada que ela fez primeiro. Não a culpo, lógico, mas é sempre triste a constatação do clichê de como nos tornamos fechados por conta dessa calamidade toda. Só não sei se é pior constatar nos outros ou em nós mesmos… porque já ouvi que me arrisco, por exemplo, ao voltar de ônibus seja lá que horas forem. Mas todo esse “destemor” vem da combinação de fatores que é a existência desse supermercado, o bar de playboy ali na esquina, a proximidade da parada de ônibus à minha casa… e caminho sempre rápido e olhando pra trás. Não abuso da sorte. E a Jovem é realmente um risco sério, evito sempre que dá. Mas…
DANDARA alcança a portaria de seu prédio, cumprimenta o PORTEIRO e entra.
DANDARA
Tenho medo como todo mundo. Só não quero deixar de viver por conta dele.
FIM
Dandara Palankof nasceu em Recife, mas cresceu em Brasília, aonde se acostumou a cruzar o Plano Piloto, de madrugada, à pé. De volta ao Recife, aprendeu que a confiança termina onde começa a bifurcação entre o bom senso e a paranóia.
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28 de julho de 2010 às 15:08
é interessante a interação que os seres da madrugada fazem nos ônibus, eu particularmente já fui um pra alguém quando ligeiramente ébria soltei que a porta usb é o primeiro passo para o teletransporte e desci do ônibus em seguida, rindo da cara de dois sujeitos que achavam que meu nome era silvia.
uma pena você ter descido antes.