6 de fevereiro de 2010
O maldito mistério
BLOG, ilícito
Por Fernando Barreiros
Com duas garrafas de vinho nas mãos, a cara suada e um sorriso escrachado, esperava a fila do supermercado acabar. Decidi que para comemorar a vida, ou simplesmente beber mais, compraria duas garrafas “decentes”. Saí do mercado e fui tropeçando, esbarrando e xingando até chegar em casa. A sombra virara uma raridade naquelas ruas quentes de verão. Eu me sentia a maior aberração de todas e não sabia porque, sob a influência de psicotrópicos ou não, os malditos “transeuntes” me encaravam. “Você está vendo? Aquele garoto está drogado! Aposto que andou injetando, olha como ri, olha os olhos vermelhos!” Obviamente, ri com meus olhos vermelhos e meio fechados demonstrando que as duas velhas que passavam estavam certas quanto ao meu atual estado.
Minha casa derretia e meus pés descalços queimavam. A voz de garotas rock’n'roll nos anos 60 estourava minhas caixas de som quando o telefone tocou. Atender telefone é uma das piores tarefas de um ser humano sensato. Você nunca sabe quem pode ser, pode tanto ser algum amigo quanto um viciado quanto alguma ex, ou seja, atender telefone nunca foi um prazer.
Por horas e horas o telefone berrou no meu ouvido, tirando a minha calma. Bebi de uma vez o que restava do copo de vinho e fui atender. Andei até o telefone com um certo receio, como se fosse acontecer alguma coisa. Parecia até que o telefone estava me chamando. Atendi, ainda hesitante:
- Alô?
- Boa tarde, você gostaria de conhecer o no… - Cortei-a no meio.
- Foda-se. - E desliguei.
A taça de vinho me encarou com um olhar de desprezo asqueroso. Peguei o maldito e atirei na parede, nenhuma bebida me trata assim. Vinho sempre foi a mesma merda, mas esse quase me fez cuspir tudo na parede, esse seria o cigarro de menta entre os vinhos. Minha cabeça vai aos poucos se desligando, fazendo a sala toda girar. Desliguei-me por dois segundos e minha cabeça caiu no teclado. Uma sequência estúpida de letras apareceu na tela, encarei-a e concluí: “está uma merda!”. Então, como se fosse salvar pessoas, larguei o texto de lado e fui ver televisão. “Isaac, o grande herói da nação!”.
Um comentário para “O maldito mistério”
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7 de fevereiro de 2010 às 14:58
“Atender telefone é uma das piores tarefas de um ser humano sensato.” É… mais um dos motivos para manter telefones off