16 de junho de 2008
O Homem superando os meus limites
Por Arnaldo Branco
Dizem do Brasil que tem 190 milhões de técnicos de futebol, e subindo. Pena que todo esse pessoal não se atenha à sua especialidade e aproveite ocasiões de júbilo popular como campeonatos panamericanos e desastres aéreos para se exibir em outras áreas de expertise, tais como regras do Badmington e o funcionamento de um transponder. Não existe tema no mundo imune ao ponto de vista de um brasileiro. “Palpite, palpite, nasceu no crânio de quem teve meningite”, cantava Noel Rosa, que entendia de doenças infecciosas e suas conseqüências, já que morreu de tuberculose. É de se especular que o surto da doença que atingiu o país nos anos setenta e teve sua divulgação proibida pelo governo militar haja afetado toda a população, porque não conhecemos limites para nossa capacidade de dar opiniões desabalizadas sobre qualquer assunto. Alguém já disse que contra fatos não há argumentos, mas o brasileiro com sua mundialmente famosa criatividade prescinde destes e usa o que tiver a mão, inclusive objetos sólidos e arremessáveis, como um babuíno no zoológico. Blogs, caixas de comentários, seções de cartas dos leitores, artigos de jornal, onde for possível deixar sua marca o Opinador Médio Nacional lá estará, geralmente usando um pseudônimo ou a imunidade do cargo para evitar que sua intervenção corajosa fique à mercê da ação deletéria de algum processo penal. Se conselho fosse bom ninguém dava de graça, reza a assim chamada sabedoria popular e a lei da oferta e da procura, o que me inspira sugerir que as pessoas deveriam pagar para opinar. Mas ocorre o contrário - em mais um exemplo de superfaturação de serviços desnecessários, um dos negócios que mais prospera por aqui é o das firmas de consultoria. Vai entender. Tenho baixa tolerância à opinião não-solicitada, tanto é que estou proibido por ordens médicas de ler certos colunistas e O Globo de uma forma geral, mas eventualmente um palpite free lance atravessa minha fortaleza de autismo simulado e me atinge bem no saco. Não é a toa que um dos termos que definem afirmações sem conhecimento de causa é “chute”.
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