14 de agosto de 2009
O futuro batia ponto no Garota de Bonsucesso
BLOG, grossericatessen
Por João Moraes
No Garota de Bonsucesso, nossa preferência era o bolinho de carne com muita pimenta e o chope tirado pelo Bigode. Ficávamos ali por 12, 14 horas seguidas antes ir pra farra de verdade. Às vezes, uma ou outra mulher acompanhava, mas, em geral, era coisa de homem. Também éramos adeptos de uma vez por mês de tomar uns uísques de marcas menores e de procedência honestamente falsa. Nosso querido amigo, quase um sócio, Antônio, garçon de larga experiência e hoje dono de negócio próprio, dizem, muito exitoso, servia a beberagem em copo longo e completo.
Era muito bom ir lá aos sábados e domingos lá pelas nove da manhã. Nove e quinze exatamente sabíamos que nosso futuro atravessaria a rua em direção ao Garota de Bonsucesso. Jamais falhou. Dava o horário e aparecia na esquina um nonagenário de bermudas e chinelões, desenvolvendo um andar de gueixa velha em slow motion. Primeiro, um pé se adiantava uns cinco centímetros do outro para depois este igualar a dianteira e, assim, caminhar a uns 200 metros por hora, tempo que levava de seu velho apartamento até o bar. Quando chegava ao meio fio para atravessar a rua, os garçons montavam um grande esquema de logística para o velho futuro atravessar o célebre cruzamento da Bruxelas com a Londres. Dois deles paravam o trânsito intenso e outro o acompanhava quase de braços dados. Um quarto garçon esperava dentro do Garota, junto ao chopeiro Bigode os intermináveis 10 minutos que levava toda a operação.
Quando, finalmente, debaixo de muita torcida e admiração ele colocava o pé guardado por meia grossa, dentro do estabelecimento, Bigode tirava, fresquinho, um chope de precisa pressão e colarinho meticoloso, enquanto o garçon preenchia um longo e cristalino copo de vodka, quatro pedras de gelo e duas rodelas de limão. O noventão bebia de duas a três rodadas dessa dupla etílica, sem dar uma palavra, pagava, e retomava a sua épica diáspora libatória de volta ao sono, mantas e cobertas.
No bar, a atmosfera de reverência e admiração adensava a bebericação enquanto o rosto dos garçons estampava a serenidade dos bons cumpridores do dever.
Lembrando hoje desse futuro vislumbrado nos anos 80, lá em Bonsucesso, naquelas pernas inchadas e lábios feridos para quem o tempo freava a carreira todos os sábados e domingos, tenho a morna certeza de que tenho feito as escolhas certas, mas ainda não achei bar que me dê suporte e aconchegue minha tocada desabrida.
É preciso continuar procurando.
2 comentários para “O futuro batia ponto no Garota de Bonsucesso”
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14 de agosto de 2009 às 14:57
Não desista João. Até porque procurar é a melhor parte.
15 de agosto de 2009 às 12:25
Muito bom, João. Nosso futuro.