20 de setembro de 2008
O cinema brasileiro do Brasil
Por Gustavo Acioli
Dizem que existem várias estratégias para o lançamento de um filme nos cinemas: lançamento em plataforma, lançamento por capital, grande lançamento, pequeno lançamento… Atualmente, a maior parte dos filmes brasileiros tem à sua disposição apenas uma estratégia: o lançamento em abismo. O cineasta se atira no abismo gritando o nome do seu filme: se alguém escutar e se interessar, pode ser que vá assistir.
Canetadas
Em entrevista recente, Fernando Collor admitiu ter sido um erro o confisco das cadernetas de poupança. Depois de abraçar o Sarney e se perfilar entre os apoiadores do Lula, bem que ele poderia, mais adiante, também admitir ter sido um erro nocautear o cinema brasileiro com uma só canetada.
Já por duas vezes estava eu no cinema, quando percebi, atrás de mim, Ipojuca Pontes, o artífice “collorido” do desmantelamento do cinema nacional. Morro de medo de que isto aconteça pela terceira vez! Será que nunca mais filmarei? Terei também a chance de uma retomada?
Muita água rolou e o cinema brasileiro já virou essa página. Mais do que isso. A cinematografia produzida nesses pouco mais de dez anos é interessante, pujante, criativa e de grande qualidade técnica. Tivemos alguns êxitos artísticos, alguns êxitos comerciais, alguns filmes e diretores muito bem-sucedidos internacionalmente e temos uma nova geração muito talentosa chegando. Existe, porém, um grande problema: o povo brasileiro não sabe nada disso.
Traço nas estatísticas
A parcela da população que vai ao cinema é mínima: 80% das cidades do país não têm uma sala de exibição e os ingressos são muito caros para a maioria das pessoas.
O maior fenômeno nacional de público recente, “2 filhos de Francisco”, de Breno Silveira, atraiu cinco milhões de espectadores, enquanto os 50 ou 70 filmes brasileiros lançados todo ano são vistos por cerca de dez milhões de espectadores. Já o maior sucesso brasileiro de todos os tempos, “Dona Flor e seus dois maridos”, de Bruno Barreto, fez 12 milhões de espectadores nos anos 70, quando a população era de 90 milhões em ação, menos da metade da atual.
O cinema brasileiro, em seu conjunto, não está sendo visto por seu povo, não ecoa, não tem repercussão. O que é grave, pois significa que uma manifestação artística está impedida de se transformar num fenômeno social e cultural relevante.
O que se chamaria de público cativo do cinema brasileiro, hoje, representa um traço estatístico. Refiro-me àquele espectador que acompanha a carreira de seus diretores e atores preferidos, que faz comparações estéticas e de abordagem temática entre filmes, que está atento às novidades etc. Sem este tipo de espectador, a arte não se realimenta, os artistas passam a produzir apenas para a própria classe, para os festivais e para a crítica.
Aos leões
A única maneira de um filme ter chances de dar um bom resultado é ser lançado pela associação entre a Globo Filmes e as grandes distribuidoras americanas, as chamadas majors. Valendo-se dos altos índices de audiência da maior caixa de ressonância do país, a TV Globo — que promove os filmes não apenas nos intervalos comerciais, mas também com menções nos mais diversos programas —, e do domínio das empresas americanas sobre a rede de salas de exibição, os filmes pertencentes a este casamento conquistam 90% da bilheteria de todo o cinema brasileiro.
Os filmes não-pertencentes a esse sistema são lançados com poucas cópias e verba publicitária reduzida. É como se nascessem destinados ao fracasso de bilheteria. É como se fossem sistematicamente jogados aos leões e ainda tivessem que ouvir o seguinte comentário: “Os brasileiros, realmente, não se dão bem com os leões!”
Sem fórmula
Nas leis da natureza, os mais fortes prevalecem sem que haja a necessidade de um discurso que os justifique. Com o homem é diferente. Assim como George W. Bush e Tony Blair necessitaram da farsa das armas químicas no Iraque, os tubarões do cinema brasileiro, para preservar seu território, começam a questionar esteticamente e tematicamente os filmes que fazem poucos espectadores, acusando-os de não saber dialogar com o público.
Ora, em primeiro lugar, não há embasamento empírico para este tipo de afirmação, simplesmente porque estes filmes não estão sendo submetidos ao público em escala suficiente para que se tenha medida do seu nível de aceitação. Segundo, os próprios tubarões, com todo o sistema a seu favor, também amargam seus fracassos de bilheteria, porque, se existisse fórmula de sucesso na arte, os donos do dinheiro dispensariam os artistas.
Ademais, cai-se no histórico vício de questionar a legitimidade do cinema brasileiro toda vez que as peças parecem não encaixar perfeitamente.
Não quero dar a entender que esteja responsabilizando a Globo Filmes pela falta de público do restante dos filmes brasileiros. A situação, antes da criação da empresa, era pior, pois o cinema brasileiro ocupava apenas 5% do mercado e hoje oscila entre 15 e 20%. Mantenhamo-nos fiéis à crença de que quanto mais filmes brasileiros, melhor. As Organizações Globo apenas perceberam a oportunidade que o mercado oferecia.
Latifúndios do ar
Como não há regulamentação que reforce o caráter público das emissoras, é natural, dentro da lógica da empresa, que ela faça publicidade apenas dos seus filmes e que apenas estes sejam transmitidos por ela. Sua existência, inclusive, ajuda a derrubar o argumento falacioso de que o brasileiro prefere os filmes americanos. Não só as novelas obtêm altos índices de audiência; os filmes brasileiros, quando exibidos, também os obtêm. Na verdade, este é só mais um exemplo da força da televisão e de como ela é fundamental para a viabilização do país como nação, pois é a grande mediadora do diálogo entre os diversos setores da sociedade.
O Brasil está implodindo. O sistema de desigualdades, de exclusão, de concentração de oportunidades nas mãos de poucos não tem mais como se sustentar. A tarefa que se impõe a todos os brasileiros é a superação de práticas instituídas nessas terras desde os tempos coloniais e que estão nos destruindo: o cunhadismo, a sesmaria, o coronelismo, o patrimonialismo etc. As emissoras de rádio e televisão são as novas capitanias hereditárias, as novas sesmarias, os latifúndios dos ares. São negócios familiares. Sempre ligados a políticos por caminhos mais ou menos tortuosos. As concessões de rádio e TV espalhadas pelo Brasil têm como prioridade apenas duas atividades: fazer política e vender anúncio.
As redes nacionais têm controle sobre a transmissão e a produção de conteúdo. Há pouquíssimo espaço para a produção local, para a produção independente e para o filme brasileiro. As manifestações artísticas e culturais estão estranguladas pelo cartel do sistema de comunicação de massa. O diálogo nacional está interditado pelos latifúndios da comunicação.
Impasse
É preciso olhar com outros olhos para a indústria do entretenimento. Não se trata apenas do circo para o povo, mas também de onde muitos poderiam tirar seu pão. A introdução da TV digital no Brasil poderia ser a oportunidade para a reavaliação de toda a estrutura do sistema de comunicação de massas. No entanto, este debate não está em pauta.
O cinema é a atividade mais nobre do audiovisual. O cinema brasileiro tem uma história de encontros e desencontros com a sociedade brasileira: já conheceu momentos de grande popularidade e já foi muito questionado; já viveu o sonho de ser indústria e conheceu a derrocada econômica. Ao que parece, esta fase foi superada. A sociedade brasileira entende o valor do cinema, quer que o cinema brasileiro exista e seja cada vez mais forte. Mas a combinação de financiamento público e bilheterias baixas pode ser explosiva.
Vivemos um impasse que não encontrará solução na atual estrutura. Não bastam cotas de tela, vale-ingresso, cinema a um real em DVD.
A causa do cinema brasileiro é a causa do Brasil. Assim como a sociedade brasileira não pode mais funcionar para poucos à custa do sofrimento de todos os outros, assim como o Brasil vive aos tropeções, nunca se realizando como o país dos nossos sonhos porque não consegue superar sua estrutura excludente, o cinema brasileiro também não pode funcionar para tão poucos, e nunca se realizará em toda a sua plenitude enquanto não for o cinema de todos os brasileiros, essa é a única e verdadeira solução.












19 de novembro de 2008 às 16:42
[...] a ler aqui o artigo de Gustavo [...]
7 de fevereiro de 2009 às 19:22
Gostei do teu artigo, Gustavo!
Sobre o que você falou, acho que a distribuição do cinema brasileiro está perdendo novas oportunidades para divulgação de seus filmes por não olhar para o que está acontecendo na web. Com o apoio da rede, filmes interessantes tem mais chance de encontrar o seu público.
Me pergunto porque o vimeo e outros não são usados para hospedagem de trailers / cenas de divulgação dos filmes / making of / entrevistas. No youtube é até mais comum ver isso, mas convenhamos: youtube é televisão, vimeo é mais próximo do cinema.
Vejo nos blogs de cinema brasileiros grande vontade de falar sobre os filmes aqui realizados, quem trabalha com divulgação de cinema no Brasil precisa estar atento e parece que não está. A rede é um espaço de referência para o cinema nacional (críticas, opiniões pessoais, estudos) que não havia antes igual, considerando desde a disponibilidade da informação relacionada até os próprios filmes, pois uma boa parte da produção nacional recente e histórica é encontrada nas rede de compartilhamento de arquivo, os torrent e similares.
Ainda sobre divulgação, você mencionou no começo a parte do grande golpe realizado pelo Collor no Brasil. A parte que diz respeito ao cinema nacional. Acho muito importante termos hoje (como temos) uma estrutura de lei e executiva para prover recursos para a realização de filmes brasileiros, mas discordo em parte com a lei de incentivo porque ela não promove melhoria na divulgação destes trabalhos nem contempla com justiça o brasieiro comum na forma com que a distribuição é realizada. Falo isso por enxergar tratamento errado com o principal o patrocinador dessa iniciativa, o consumidor que paga impostos que são direcionados para o programa.
Penso que quem entra na lei de incentivo ao audiovisual deveria ter, no máximo após 2 anos de circuito iniciado no cinema, a divulgação do trabalho livre em canais como a TV Brasil, Cultura e demais, assim como sessões downloads liberados para o público na internet e sessões em praça pública nos interiores do Brasil, coisas assim como projetos da ancine. Se neste prazo de 2 anos o filme tiver devolvido o dinheiro investido aos cofres públicos, o filme poderia até obter alguns direitos de volta. A equipe não deixaria de ter direitos sobre o filme, teria o resto do mundo inteiro para receber integralmente pelo filme, e ainda assim teria alguns direitos no Brasil.
Todo filme brasileiro que se pretenda comercial deveria tentar se financiar no BNDES ou parecido, através de uma linha de crédito, podendo até ser juro zero, e em troca de certas garantias como consideração de metas de bilheteria, etc. Sou totalmente a favor de ter o governo investindo no cinema-identidade, mas acho que este investimento trata o produto final de forma muito privada, ao contrário do esforço coletivo que o orçamento destes filmes requer.
*vimeo: http://www.vimeo.com
6 de março de 2009 às 14:45
[...] dos diretores brasucas busca é uma fatia do circuito internacional de festivais, inclusive pela dificuldade em distribuir seus filmes em território nacional, mas não só. Para mim, a coisa também esbarra em uma [...]