8 de janeiro de 2009
O amor é cego
Por Eduardo Martins
Mais de 200 pessoas circulam no pátio da festa, situada em um local reservado da Zona Sul carioca. Poucos casais dançam e a maioria prefere conversar em grupinhos. Alheio ao movimento, o DJ Billy segue com um repertório meloso que mantém um pé no brega. Ele é moreno, tem 1,83m, usa óculos escuros tipo aviador e guarda no bolso da calça uma bengala de alumínio dobrada. Billy perdeu a visão há apenas três anos, mas já se sente adaptado à nova condição.
Diante da mesa de som, Billy guia-se pelo tato para mudar as músicas. Entre uma pausa e outra, alguém lhe sopra ao ouvido os nomes de quem acabou de chegar. Ele então dobra o corpo para frente, puxa para si o microfone e anuncia com uma empostação radiofônica adquirida nas aulas de locução: “Alô, gente apaixonada! Já chegaram: She-Ra, de Belo Horizonte; Gaúcho, da Pavuna; Boazuda, de São Paulo; Sensual, de Nilópolis; Doce Loira, de São Gonçalo e Sansão, de Belo Horizonte!”. As reações são eufóricas. Como a vasta maioria não enxerga nada além de escuridão, esse é o único modo de saber quem está presente.
No jardim da festa há um vai e vem de bengalas cortando o ar em movimentos pendulares, rentes ao chão. Os esbarrões são freqüentes, e vêem seguidos da expressão “Ôpa, quem vem lá?”. O encontro inusitado foi promovido pelo portal de voz Blind Brasil, que oferece notícias, jogos, etc. para cegos, e cuja principal atração é a sala de bate-papo Azaração. Gastando apenas o pulso da ligação, deficientes visuais solitários de todo o país recorrem ao serviço com o objetivo de encontrar sua alma gêmea. Caso o cupido erre o alvo, ao menos saem com um bom bate-papo.
Cego desde os cinco anos, o criador do portal, Charles Jatobá, optou pelo telefone ao invés da internet por um motivo básico: “Para os deficientes visuais, a voz exerce um papel fundamental no momento da conquista. Uma voz atraente exerce um poderoso elemento de sedução. Pelo menos para os cegos, o telefone ainda leva vantagem”, explica Jatobá.
Em um dos grupos espalhados pelo pátio, está o mineiro Djalma Marques, de 67 anos. Ele atende pelo apelido de Mandrová e chama atenção pelos cabelos tingidos de preto, à altura dos ombros. Seu vozeirão encorpado lhe valeu a carreira de cantor e um invejável número de casos. Foram nada menos que 35 “casamentos” (ele explica: “quem ama com fé, casado é”). O saldo impressiona: 22 filhos, 14 netos e três bisnetos. “Após tantas uniões, agora só quero saber de amizades”, afirma.
Mesmo sem fazer esforço, Juliana Santana se distingue entre os convidados. Ela enxerga bem, tem apenas 1,5 grau de astigmatismo. Juli, como é chamada na sala de bate-papo, está de braços dados com o namorado, Ricardo de Carvalho, cego pela diabetes há um ano. Ao contrário do que sugere seu apelido (Baixinho), ele mede 1,90m. Logo que se conheceram, dez meses atrás, houve uma afinidade quase instantânea. Para Baixinho, esse é o relacionamento mais sincero de sua vida. “Que motivo ela teria para ficar comigo, a não ser o amor?”, indaga. Juli ouve a inesperada declaração de amor visivelmente encantada.
O tempo avança e a festa caminha para o fim. Muitos já se despedem, mas o Pagodeiro de Guadalupe ainda pretende ficar. Seu nome é Célio Gonçalves, tem 48 anos e está solteiro. “Espero que por pouco tempo”, completa. Precavido, ele carrega nas mãos sua arma para a conquista: duas dúzias de rosas plásticas vermelhas e amarelas.
Alguém o avisa que Maçã do Amor está à sua esquerda, a cerca de três passos de distância. Pagodeiro se anima com a descrição “uma morena alta e carnuda, com um decotado vestido vermelho”. “Eu quero um pedaço dessa maçã”, fala para si mesmo. Gentilmente Pagodeiro pergunta se ela não aceitaria uma flor. Após o “claro que sim”, ele então emenda o galanteio: “Passo uma flor para as mãos de outra”. Lisonjeada, a morena aperta-o junto a seu corpo em um abraço quente, ao passo que o magro Don Juan exibe um sorriso vitorioso.
Em meio a despedidas, ouve-se ao fundo a canção Vem me ajudar (Get me some help), antigo hit do grupo The Fevers.
Vem, vem me ajudar / Sem seu carinho eu não posso viver / Vem, vem me ajudar / Por que só tem espinho no meu caminho / Vem, vem me ajudar / Eu necessito de alguém para mim…
O refrão repetitivo insiste nos ouvidos e ressoa minutos a fio nas paredes da cabeça. Ultrapassando a porta de saída, alguns casais saem de mãos dadas, enquanto outros continuam a caminhar sozinhos. Ao cruzar o portão os convidados se despedem e finalmente a música se perde no ar, abafada pelo ruído do tráfego, até que se extingue como os romances passageiros e as paixões vãs.
5 comentários para “O amor é cego”
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9 de janeiro de 2009 às 10:18
Excelente matéria. Nunca imaginei que pudesse existir um baile assim. Obrigado por compartilhar essa… vivência. Parabéns!
9 de janeiro de 2009 às 11:21
Essa matéria me fez me sentir dentro do baile…
Já pensou em usar isso para fazer um roteiro de cinema?! Acho que podia dar em alguma coisa!
Muito Bom!
9 de janeiro de 2009 às 12:19
Maravilhosa descrição e excelentes comentários. Vivi a descrição! Excelente!
28 de outubro de 2009 às 23:34
Escreve mais aí, compadre, não pára não, não atropela, deixa a gente conhecer mais dessa história.
29 de janeiro de 2010 às 10:32
Nossa, que texto bom!