26 de julho de 2009
Nosso purgatório
BLOG, Recanto nerd, Star Trek, TV
Por Luiz Henriques
A primeira temporada de “Jornada nas estrelas” estava acabando e o Verão do Amor começando. Nada mais condizente, então, do que os criadores positivistas da Enterprise mostrarem o que pensavam daquela hippiezada toda, cheia de estupefaciente nas ideias, complacentes e relaxados, sempre com o refrão “paz e amor” pra responder a qualquer cobrança.
Embora a essa altura da temporada o zenpacifista Gene L. Coon já estivesse se tornando mais influente do que o próprio Gene Roddenberry nos rumos do povo da Frota Estelar, a formação autodidata positivista típica do humanismo oitocentista pós-Nietzsche (até mesmo eu me surpreendo como gosto de parecer inteligente resenhando velhas séries de tevê) de Roddenberry ainda transparecia em vários momentos, como neste episódio escrito por sua cria e discípula, D. C. Fontana. Assim, a ideia de que um agente externo psicotrópico pudesse levar à iluminação e à completa realização bate de frente com o capitão Kirk e, como era de se esperar, leva uma trosoba.
Os hippies espaciais são colonizadores de um planeta distante, entre elas uma jovem Jill Ireland, antes do casamento com Charles Bronson. Como ela interpreta outra apaixonada não correspondida pelo Spock (a terceira nesta temporada, depois da enfermeira e da Uhura!), só podemos concluir que ela é chegada a gente inexpressiva. Ela e os outros pioneiros sorriem tão complacentemente quanto os organianos do sublime “Missão de misericórdia”, mas, ao contrário deles, não evoluíram para um estado de completo conhecimento. Apenas foram banhados por esporos de uma planta de feltro e borracha estranhamente parecida com cenário de teatro infantil e que grassa por aquele mundo longínquo, logo contaminando a galera toda da Enterprise – Spock incluído. Mais uma vez o vulcano é levado por um agente biológico a baixar suas defesas e mostrar suas emoções, correspondendo finalmente ao amor da fornida loura que tanto lhe esperou.
Os esporos curam todas as doenças – reconstituem até amídalas extirpadas – e fazem os contaminados se sentirem parte de uma única e grande comunidade, como no interessante porém frustrante “A hora rubra”. Kirk se revolta, eivado de seu positivismo, que o leva a argumentar que a humanidade não atingiria seu potencial num estado de simples complacência benevolente, mas somente se satisfaria se progredisse e evoluísse (traindo as raízes darwinistas-sociais do positivismo). Mas de nada adianta sua resistência: apenas ele sobra na Enterprise depois que toda a galera desce para o que parece ser uma vida de bonança e totalidade. O solitário capitão anota em seu famoso diário que a nave pode permanecer em órbita sozinha por algumas semanas, mas ele não tem como tirá-la de lá ou mesmo contatar a Frota sem outros tripulantes.
A atitude de Kirk também é fruto do individualismo americano e sua resistência contra fazer parte de uma grande, feliz e complacente comunidade eé um tema recorrente na ficção científica. A palavra “científica” explica em parte tal posição: essa “grande comunidade” está bem próximo de uma ideia religiosa. Isaac Asimov, por exemplo, escreveu um conto clássico sobre um planeta em que todos os seres têm tufos de pelos verdes no lugar de olhos e são uma única mente, o que leva uma expedição terráquea a se sacrificar para evitar que a humanidade tenha o mesmo destino. De maneira bastante reveladora, mais de trinta anos depois, quando já velho e próximo da terra desconhecida, ele muda de opinião e em “Fundação II” a Grande Comunidade é o mocinho da história (junto com um astronauta cuja “intuição” vale mais do que qualquer conclusão lógica) e a salvadora da espécie humana.
Kirk descobre por coincidência que emoções fortes e negativas – ódio, hostilidade, frustração – cancelam o efeito dos esporos. Uma solução metafórica e elegante, perfeitamente coerente com a visão da série de que nossos instintos negativos não devem ser negados ou suprimidos, mas aceitos e controlados para que suas energias sejam usadas construtivamente, como já mostrado nos soberbos “Inimigo interior” e “Um gosto de Armaggedon”.
Mesmo assim, apesar de todo o humanismo anti-religioso e positivista de Roddenberry, “Jornada nas estrelas” não ficou famosa por seu maniqueísmo, mas por camuflar numa ópera espacial alimento para a mente. Quando Jill Ireland encontra Spock novamente frio e sem emoções, temos um dos melhores diálogos da série, com o vulcano reconhecendo, ao ver a compungida cientista rejeita, que “se todos nós vivemos num purgatório que nós mesmos construímos, o meu não é pior do que o de ninguém” e a excelente linha final do oficial de ciências da Enterprise, relembrando sua experiência com a paixão e as emoções descontroladas: “Pela primeira vez na minha vida… eu fui feliz”.
Digno de nota:
- Contagem de corpos: não só ninguém morre, como o efeito colateral dos esporos de curar tudo de todo mundo permanece após seu efeito zenpacifista se extinguir. Mais nuances e detalhes na discussão a que o episódio de propõe;
- Avistamentos de Tenente Leslie: Eddie Paskey está na fila do transportador e até fala no episódio que o capitão não irá detê-los!
- Mais uma vez Kirk luta com Spock e, como sempre, apanha, num clichê que o novo longa fez questão de reverenciar. A luta seria bem encenada pra época, não fosse mais uma vez o uso de dublês que não se parecem em nada com os atores. O de Kirk é o mesmo de “Semente do espaço”, um sujeito mais magro, mais alto e longilíneo do que William Shatner, sem contar que, como grande parte da Humanidade, tem mais cabelo – e até um topete!
Um comentário para “Nosso purgatório”
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29 de agosto de 2009 às 2:22
Muito boas todas essas análises de episódios de “Jornada nas Estrelas”.
Episódios como “Este lado do Paraíso” (é este o nome em português?) “A cidade na fronteira da eternidade”, “O equilíbrio do terror” são aqueles tão bons, em termos de idéia e de execução, que sempre alguém vai encontrar alguma coisa sobre a qual refletir, e, possivelmente, sem esgotar as possibilidades - eu certamente não poderia, por mim mesma, identificar a intertextualidade com diversas obras que eu nunca vi, como esse filme “O Planeta Proibido”.
Em contrapartida, existem aqueles episódios tão ruinzinhos, pouco memoráveis, que a gente nem presta atenção. Caso de “O Fator Alternativo”, que nunca me interessou, mas que, por isso mesmo, rendeu uma resenha supreendentemente interessante, já que eu nunca gastei dois minutos de pensamento sobre ele.