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D. João e as origens do bacanismo carioca

D. João

texto: TERÊNCIO PORTO*
ilustração: ANDRÉ DAHMER

Aponta no horizonte o Bi-centenário da chegada do Clã Português dos Bragança ao Rio de Janeiro — a Corte Joanina, seu séquito e todo aparato cênico e burocrático que a seguiam —, e com ele uma série de comemorações vêm sendo promovidas pela Prefeitura desta cidade. Uma agenda de eventos e publicações, nas palavras da mesma, que “muito além de reabilitarem (?) a figura de D. João, reafirmam o significado ímpar do gesto político”. Ápice prometido pra 2008.

Essa Família Real, e tudo o que ocorreu a partir de sua fuga de Portugal, parece algo realmente digno de ser rememorado, na medida em que desencadeou nosso paradoxo fundador, fato que muito determina o que somos hoje, essa multidão de contradições. De um lado, uma corte européia de primeira grandeza, misturando os pedigrees Bragança, Bourbon, Habsburgo, tudo classe AA. De outro, um economia escravocrata das mais sórdidas, violentas e estúpidas de todos os tempos. Tudo isso misturado nessa mesma cidade, capital da Belíndia. A Bélgica do trocadilho havia chegado.

Mas rememoremos distantes dessa eterna reafirmação de que a cidade “lucrou indiscutivelmente com os progressos materiais empreendidos por D. João”, porque isso é coisa que não se pode discutir; ou de que o episódio “trouxe ao Rio de Janeiro inquestionáveis benefícios materiais e culturais”, porque isso não se pode questionar. Isso é retórica de quem não quer discutir nada, quer impor comemorações ritualísticas idiotas, naturalmente desprovidas de qualquer senso crítico. Uma ação panegírica.

D. João, sua corte e toda sua máquina administrativa, além dos livros e dos tesouros da coroa, vieram para cá fugidos das Guerras Napoleônicas, como é sabido. Com a proteção inglesa, como é sabido. Abandonou seu povo, que ficou “a ver navios” (daí a expressão). Abandonou sua terra, um dos mais antigos estados da Europa, que ficou quase 15 anos ao Deus dará, como se diz. E a suposta proteção inglesa, como não se diz, foi mais uma tomada de Portugal como refém, em troca de acordos comerciais que muito favoreceram a posição de potência da Inglaterra. Esta já havia bombardeado o porto de Copenhague, não por acaso capital da Dinamarca, país neutro e fraco como Portugal no contexto europeu da época.

D. João chegou e abriu os Portos aos produtos estrangeiros, mas taxou todos, inclusive os brasileiros, com alíquotas de 16%, e o ingleses com alíquotas de apenas 15%. Isto é, a Inglaterra não ajudou Portugal em sua fuga, assim como se ajuda a um amigo em situação periclitante, mas sim como um filho da puta oferece ajuda a um amigo em situação de perigo para depois obter uma vantagem dele! “Mas que vantagem eu levo em te ajudar?”, ele diz àquele a beira do abismo…

Mas D. João trouxe consigo mudanças, melhorias, teatros, óperas, cultura (De primeiro mundo! Foram trazidos castratti italianos, que já caiam em desuso na Europa…). Isso bem é verdade, até certo ponto, mas o que não se fala é que ele trouxe consigo todo um gigantesco arcaísmo que aqui foi recebido como uma benção, meio que condenatória a uma puta herança pérfida de corrupção e burocracia. Criou a Imprensa Régia, pra no dia seguinte criar a censura. Fundou o Banco do Brasil, que ficou insolvente e foi à bancarrota anos depois devido a irresponsabilidade da corte portuguesa no uso do dinheiro público. Como hoje em dia, passou-se a poder freqüentar um bom teatro, uma boa ópera, comprar produtos do mundo inteiro, mas baseado numa economia totalmente escravocrata e corrupta, onde trabalhar é feio, e onde os negros eram tratados como seres sem alma.

Uma nobreza que teve de se impor através da imagem, da etiqueta, visto que chegaram aqui maltrapilhos, aos farrapos, decadentes. Família real, como a loucura da Rainha de Portugal, o desprezo de Carlota Joaquina pelo Brasil, a crônica indecisão de D. João, que não só veio pra cá fugido, como foi embora também. E que só foi Rei porque seus irmãos mais velhos morreram antes dele, i.e., não foi preparado para ser Rei. E que cultivava hábitos antigos, medievais, como o de não tomar banho — dizem que tomou apenas um em toda sua vida — e o de receber visitas em aposentos onde mantinha vasos parcialmente cheios de urina, exalando aquele odor típico.

Seu filho, D. Pedro I, tinha o hábito de defecar diante da tropa, e perpetrou um massacre na Bolsa Comercial do Rio, atirando contra uma porrada de gente desarmada, mas isso a Prefeitura não vai rememorar. Tinha como ídolo Napoleão Bonaparte, o homem que havia posto seu pai pra correr. Um perfeito Édipo sem culpa. Teve a educação negligenciada e tinha uma tara militarista. Promoveu a amante e matou a mulher de desgosto, pra depois casar novamente com a Princesa da Baviera, um broto de uns 15 anos.

Além disso, no presente histórico, dado o atual estado das coisas, não há nada, nem de longe, que justifique esses eventos panegíricos como prioridade para nossa cidade. Tampouco um Pan-Americano, mas é bom pra imagem do Rio, e é isso que importa. Não importa o estado da saúde pública, a educação calamitosa, não importa os miseráveis apodrecendo nas ruas, comendo lixo, não importa os grupos armados controlando áreas da cidade onde vive gente pobre. Qualquer semelhança com o passado, com a demanda por imagem de uma corte européia em terras tropicais, há de ser mera coincidência.

Parece mesmo que pouca coisa mudou. Continuamos baseados numa economia escravocrata, onde uma pequena parcela usufrui do bacanismo carioca. O doce deleite de ser nobre, fidalgo, irreverente, e achar normal pedir um ovo mexido pro mordomo às 11 da noite. Em suma, uma mentalidade frívola, mimada, de quem se acha mais importante que os outros (“Você sabe com quem está falando?”), dá porrada em puta ou empregada, taca ovo no andar de baixo e pronto. Quer privilégios, pois é VIP. Uma sociedade de novos ricos, desajeitados, deselegantes, mal-educados, na vida pública ou privada. Farinha pouca meu pirão primeiro.

*Terêncio Porto é cineasta e atualmente roda o filme “Abertura das portas”, sobre a fuga da Família Real Portuguesa para o Brasil e o legado que deixou aos cariocas