Revista Zé Pereira
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As Aventuras de um Zé Pereira

CAPÍTULO 2: ANGÚSTIA

texto: HENRIQUE RODRIGUES

Há os que tomam a resignação como medida; os que, desapercebidos, mergulham numa caudalosa derrota quando o inexpugnável acena; há, ainda, os que, para não parecerem vítimas e sim honrosos kamikazes, se destroem antes que outros o façam. No entanto, há o tipo mais raro, de ímpeto forjado com a experiência, “com as porradas da vida”, com a craca do vivido. Zé-Pereira, sujeito-homem.

“Mermão, pra cima de Madureira só Cascadura”, defendia-se ao mesmo tempo em que ameaçava, confirmando o caráter. De certa forma, soava exótico aos moradores que raramente saíam da Zona Sul topar com afirmações assim tão rústicas, de um homem vivido onde, supunham, há muitas carroças na rua, em meio a camelôs, ruas sem calçamento e senhoras desdentadas esbanjando felicidade enquanto preparam feijoada.

Mas Zé Pereira pagava o preço da transição; a essa altura, não se identificava com nenhum dos mundos, dos quais tentava costurar semelhanças e suprimir as diferenças. Nesse desvão de entrelugar, quase se tornou Zep, apelido arrojado que os amigos quiseram imputar-lhe logo que se mudou, evitando ainda outros mais infames e estúpidos, como Zé Pelin. Teve de resguardar a essência e ao mesmo tempo se adequar ao novo ambiente, num exercício ímpar de convivência.

Todo esse esforço encontrou o ponto de equilíbrio em Cláudia, cuja presença agora explodia como uma tormenta. Supôs que tivesse se enganado, que não era a sua Cláudia, mas uma loura qualquer acenando para um homônimo: “tanto Zé que há nesse mundo”, pensou rapidamente. Contudo, dois passos à frente confirmaram.

Quando se conheceram, Cláudia era jornalista. A profissão lhe conferia a praticidade que faltava a Zé Pereira. Outros lhe perguntavam como conseguia viver com uma mulher tão metódica, no que respondia: “ela mantém meus pés no chão, senão fico que nem pipa avoada”.

E cada passo significava a possibilidade de reencontrar essa harmonia, mas com a dor da certeza de se tratar de uma lembrança apenas, especialmente com aquele anel que balançava no ar. Zé Pereira alternava os olhos entre a mão e o rosto de Claudinha. À medida que se aproximava, uma nova gaveta se abria e se confrontava com a nova imagem. Calculou que ela agora estava com 39 anos.

Sujeito-homem, de Cascadura: sobretudo um forte. Um forte que por isso mesmo titubeava com o corpo inteiro enquanto seguia rumo à mesa no canto. Buscou auxílio em Cícero, mas o garçom, que assistia àquela cena de angústia, desviou o olhar e fingiu atender uma mesa próxima, impotente.

Zé Pereira não queria demonstrar o nervosismo, ensaiou um sorriso, que saiu apenas de um lado da boca. Cláudia mudou o movimento da mão; em vez de acenar, abria e fechava: “Zé, vem cá!”

Quis fingir que estava de saída, pensou em dizer que estava com pressa e tinha coisas a resolver, diria que a namorada nova o esperava — inventou uma Clarissa e ao mesmo tempo notou que as letras iniciais eram similares, o que denunciaria a mentira. Poderia simplesmente dar um oi rápido, sair do bar e beber com segurança em outro, encontrar outros amigos com quem desabafar. Cogitou até assumir uma grosseria e fingir que não a viu. Todavia, como que atraído, chegou até perto e fixou os olhos na lâmina branca que forra a mesa.

Zé Pereira, sujeito-homem, sentou-se com Cláudia, cuja mão esquerda agora repousava sob a mesa, enquanto ela estendia para ele a direita, cumprimentando-o.

Continua.


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