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Não sabia que existia americano preto

texto: ANNA AZEVEDO

O Rio de Janeiro dos anos 40 vivia a época de ouro das estrelas do cinema e do rádio. Deles saíam os ícones que recheavam revistas como “O Cruzeiro” e o imaginário dos rapazes e moças. Frank Sinatra era um desses astros. A conjunção de uma bela voz com o par de olhos azuis que flertava com as fãs virou um dos símbolos de uma era marcada pelos musicais.

Para a menina Doca, que morava com a mãe e os cinco irmãos na Favela do Pau Fincado, atual rabicho do cais do porto, no Caju, Frank Sinatra — cujo retrato adornava o barraco da vizinha e a voz se espalhava a partir do rádio da casa ao lado — era a síntese do gringo: todos falavam o mesmo idioma “embolado” e eram americanos de olhos azuis. Já as mulheres seriam a imagem e semelhança das bonecas que Doca via nas vitrines das lojas e com as quais sonhava. Sobretudo naqueles dias de dezembro, mês de seu oitavo aniversário e de mais um Natal.

Apesar de pequena, Doca sabia que teria de dar muito duro se quisesse ter uma vida mais confortável que aquela, na favela. Miudinha, já ajudava a mãe, Albertina, a vender sopa de entulho para os estivadores do Porto, na troca do turno, de madrugada. Ao cais também voltava de dia. Era costume dos moradores do Pau Fincado aguardar o fim do horário do rancho à espera da sobra da comida dos navios, normalmente jogada ao mar.

Certa tarde daquele dezembro de 1940, Doca esperava os taifeiros quando um marinheiro alto e negro surge ao seu lado e inicia um papo em português desajeitado. A menina não entendeu nada daquela “língua enrolada”. Tampouco compreendeu como um negro igual a ela poderia falar o idioma do ídolo da vizinha, Frank Sinatra.

— Eu nem sabia que tinha americano preto — relembra, 67 anos depois.

Surpresa maior só quando o gringo se fez entender: havia uma boneca esperando por Doca, caso ela aceitasse subir com ele até o navio.

— Fiquei louca quando ouvi falar na boneca. Eu era muito bobinha, então subi com o homem até o camarote. E não é que tinha uma boneca lá? Linda, parecia um sonho. Só percebi que o navio havia partido quando ouvi o apito. O cais estava longe. O camarada tava me roubando.

Doca nasceu Jilçária Cruz Costa, mas a mãe, como fez com os demais filhos, tratou logo de lhe arrumar um apelido — artimanha para defender a prole de algum homônimo mal-intencionado. Cresceu e ficou conhecida como Tia Doca, pastora da Velha Guarda da Portela. A mulher cuja vida renderia um samba de enredo épico, daqueles de outrora. O primeiro verso poderia ser a frase que encerra cada uma das dezenas de histórias que Doca conta: “É, já passei por tudo nessa vida”. No refrão, o bordão que sintetiza o jeito de verdadeira dona de terreiro da tia: “Comigo, não, o que é que há?”.

Era no quintal de Tia Doca, em Oswaldo Cruz, que a fina flor do samba de Madureira esquentava os tamborins e viu brotar sucessores. Despejados do quintal de Dona Neném pela própria, após reclamar ao marido, o compositor Manacéia, que não agüentava mais cozinhar para tanta boca, toda semana, a Velha Guarda passou a se reunir no quintal de terra batida de Doca e do marido Altair. Durante cinco anos, até 1980, a turma da Velha Guarda ensaiou debaixo da mangueira do casal. Lá nasciam os mais belos sambas, versos temperados pelas iguarias que a dona da casa trazia fumegando do fogão à lenha.

Certa domingueira, porém, a Velha Guarda não apareceu. Nem Altair, que abandonara Doca com seis filhos. Os pensamentos da pastora se voltaram para o cais do porto, para as dificuldades que ela, os irmãos e a mãe passaram na vida:

— Ele me largou com as crianças, me deixou a pão e laranja, arranjou outra mulher, limpou o dinheiro do banco, que era pra pagar o aluguel, e foi embora. A mesma história da minha mãe. Estou há 30 anos separada, depois de 29 anos casada. Não sou desse tipo de mulher que se separa e fica bêbada, largada. Comigo, não, o que é que há? Meus filhos não iam passar o que eu passei na infância.

Sem Altair no comando da casa, a Velha Guarda enfiou a viola no saco e partiu para outro quintal. Nessa época, Doca já fazia parte do seleto grupo de guardiões das tradições musicais da Azul e Branco. A pastora ficou magoada, conta que se sentiu abandonada no momento em que mais precisava de companheiros. Mas, com a ajuda de um casal amigo, transformou o que era diversão em trabalho. Logo a notícia do pagode da Tia Doca se espalhou pelo subúrbio. A receita era infalível: uma árvore frondosa, chão de terra, cerveja gelada, comida boa e músicos idem. Beth Carvalho, Marquinhos de Oswaldo Cruz, Dudu Nobre, Arlindo Cruz e os músicos portelenses batiam ponto no terreirão. Tia Doca molhava o chão para não levantar poeira. E o coro comia, conta Zeca Pagodinho, uma das crias deste quintal.

— Ali o bicho pegava. A turma do juvenil esperava o intervalo da Velha Guarda para dar seu recado. Aprendi a compor nesses quintais. A gente se afastava da roda, ia pro cantinho, o samba saía. E a comida rolando... Tia Doca é esperta! — relembra o músico.

— O Zeca era um menininho de boné da Kibon quando apareceu aqui pela primeira vez. Perguntei: “Sua mãe sabe que você está aqui? Tem dinheiro da passagem pra voltar?”. Era arisco que só vendo, mas muito educado. Uma vez chamei o Milton Manhães para ver ele e o Deni versando, dois molequinhos, né?, jogando lera um pro outro. Pronto, estourou! A falecida Jovelina Pérola Negra também surgiu daqui. Era um terror isso aqui. Um terror!

Mulheres como Doca fazem parte de uma geração de “tias” conhecidas e respeitadas no mundo do samba pelo apego à tradição e o respeito que impõem aos mais novos; pelo dom de saber cozinhar em quantidade mantendo a qualidade e por comandar tradicionais rodas de fundo de quintal. Encontros que remontam ao século XIX, quando baianas da Praça Onze, como Tia Ciata, Tia Bebiana e Tia Perciliana — mãe de João da Baiana — abriam seus quintais para batucadas, umbigadas, capoeira e samba — ritmos que, tocados em via pública, rendiam uma prisão por vadiagem. “Pelo telefone”, aquele que é considerado o primeiro samba, foi composto por Donga no quintal de Ciata — ali, nos domínios dessa baiana arretada, freqüentado não só por músicos humildes, como também por políticos e pessoas de classe média, a polícia não se metia.

Enquanto essas rodas revelam a nova geração de sambistas, não vislumbramos uma nova geração de tias. Os quintais são cada vez mais raros e as mulheres procuram seu lugar no mercado de trabalho. Tias como as portelenses Doca, Surica e Eunice são uma peça de resistência cultural. Para não deixar morrer os quintais e continuar tendo como comprar o feijão e os miúdos para as tradicionais farras gastronômicas desses encontros, o jeito foi fazer das rodas e da famosa voz de lavadeira um ganha-pão que paga as contas de casa e preserva a tradição.

Com o pagode e as participações especiais em discos, Doca criou a família. Foi o produtor Rildo Hora quem sugeriu a Beth Carvalho o nome da pastora para compor o coro de um novo disco. Depois os convites vieram de Clara Nunes, Paulinho da Viola, João Nogueira, Elza Soares, Luiz Ayrão e Grupo Fundo de Quintal.

— Ainda esperei por três meses para ver se o meu marido voltava com uma compra, se a consciência doía, mas nada. O pagode da Tia Doca foi uma forma de sobrevivência para mim. Eu só sabia cantar, sambar e cozinhar.

Em 2000, a Paradoxx Music lançou o CD “Pagode de Tia Doca”. A pastora, no entanto, pouco sabe sobre o que aconteceu com o disco. Ela mesma não tem mais nenhuma cópia em casa, tampouco contato com a gravadora. Com uma fraca distribuição, o CD é, hoje, artigo de colecionador, mas — para surpresa geral — ainda restam unidades no site Submarino, a R$ 17,90.

— Não ganhei dinheiro. Recebi uma graninha do produtor, paguei os músicos e sobraram R$ 20,00. Enfiei no bolso e fiquei feliz. O disco deve ter vendido bem, tanto que não se acha mais. Nós da Velha Guarda só conseguimos gravar depois de velhos. Lembra até aquela gente lá de Cuba (do Buena Vista Social Clube). Que gente bacana, né?

O Pagode de Tia Doca mudou de Oswaldo Cruz para um terreno maior, próximo à estação de trem de Madureira, e agora se chama Centro Cultural Tia Doca. Todo domingo, Doca acorda cedo para preparar o caldo de ervilha com azeite e bacon que é servido à noitinha, enquanto o samba, comandado pelo filho Nem, segue a regra das rodas de terreiro. Durante muito tempo, microfone não tinha. Mas o público aumentou e o grupo teve que ceder à novidade.

— Paulinho da Viola me aconselhou a nunca colocar microfone porque pagode assim não existe mais em lugar nenhum. Aqui era sempre na bo-ca! Mas agora fica muito cheio, não tem jeito. Mas é samba de raiz, mesmo!

Doca nasceu no Morro da Serrinha, em Madureira. A mãe foi a primeira porta-bandeira da Escola de Samba Prazer da Serrinha, gênese da Império Serrano, fundada em 1947. Passou os primeiros anos da vida ali, na quadra da escola. Tia Iaiá tomava conta da meninada da vizinhança enquanto os pais trabalhavam. E a ela cabia ensinar o bê-á-bá da batucada.

— A gente comia em cuia de lata de queijo do reino, sentadinhos na quadra. De tarde, tia Iaiá organizava um bloquinho. As latas de goiabada, cobertas com papelão de cimento, eram os pandeiros. Ficava um som bom. Ela ensinou a gente a sambar no pé. Hoje em dia tenho até medo de ir ao lugar onde nasci. Vou lá e vejo os meninos com revólver na cintura.

Com uma criação destas, não deu outra: aos 14 anos, Doca já era a porta-bandeira da Escola de Samba Unidos da Congonha, de Vaz Lobo.

— As porta-bandeiras de hoje em dia não tão com nada, não sabem o que é ser uma porta-bandeira. Ficam com aquela mania de mão, mão pra lá, pra cá. O negócio não é na mão. É no pé. Mas agora tudo é válido, o que se pode fazer?

Doca só foi apresentada à Portela em 1953, após o casamento com Altair, filho do compositor Alvarenga, irmão de Jair do Cavaco, da Velha Guarda, e afilhado de Paulo Benjamin de Oliveira, o Paulo da Portela. Para nunca mais sair. Mesmo após o incidente no Carnaval de 2005, quando a ala da Velha Guarda foi impedida de entrar na Sapucaí para não estourar o tempo limite do desfile. Uma das cenas mais lamentáveis da história do carnaval carioca.

— Foi horrível, muita gente passou mal. Eu fui parar no hospital, só voltei para a casa no dia seguinte. O meu coração não agüenta mais essas tristezas. Esse negócio de escola de samba acabou. Eu só desfilo porque somos um grupo e temos que manter a tradição, dar o exemplo.

Tradição: eis a cartilha pela qual reza essa pastora cheia de lemas e ensinamentos, alguns indecifráveis. Quando moça, adorava ir aos bailes. Mas mulher direita, previne, tem que deixar o salão depois da antepenúltima música. E, na hora de cozinhar, nada de bater com a colher de pau na borda da panela. Queima a comida!

No caso do jongo, é ainda mais radical e misteriosa. Ao ponto de brigar com o primo, Seu Darcy, mestre jongueiro falecido em 2001 e divulgador da dança além das fronteiras do Morro da Serrinha. Certa vez Doca expulsou Darcy do pagode após ele insistir em armar o jongo no terreiro da pastora.

— Jongo não é para se cantar e dançar à toa, não! Só no dia de Nossa Senhora de Santana, 26 de julho, e tem que saber como se abre e se fecha. Minha madrinha era jongueira e me ensinou tudo. Minha cunhada foi atrás do Darcy e se deu mal. Cantava jongo ao meio-dia na Praça da Portela. Morreu assim, da noite para o dia. Um sobrinho meu morreu, o outro sumiu e ninguém sabe onde está. Esse negócio de que jongo é cultura... Jongo é uma seita muito da perigosa! Eu não sou boba, comigo não, o que é que há?

Tia Doca é esperta, já disse Zeca Pagodinho. Ainda abaixo da idade legal para trabalhar em fábricas, insistiu com o dono de uma tecelagem para lhe dar um emprego. Passou dos 14 aos 16 anos tendo que, vez por outra, mergulhar debaixo de pilhas de pano para não ser descoberta pelos fiscais do Ministério do Trabalho. Com o salário, construiu as paredes de alvenaria do barraco onde morava com a mãe e os irmãos, até então protegido por pano e madeira. Hoje, um dos maiores orgulhos dessa pastora é ter sua casa própria, em Madureira, adquirida pela Caixa Econômica. Orgulho que só não é maior que o de pertencer à Velha Guarda da Portela.

Com o grupo, Tia Doca fez turnês pela França e Itália. Amou. Já o seu lado cozinheira desaprovou as proporções da nouvelle cuisine. Mas a massa italiana passou pelo julgamento da pastora que não se faz de rogada e diz que, depois de Tia Vicentina, a melhor feijoada de Madureira é a dela. Surica diz o mesmo em relação ao feijão que rola, de forma bissexta, em seu quintal. Seja lá como for, a especialidade dessas tias é, mesmo, a chamada comida de subúrbio. Ou, como define Zeca Pagodinho, comida de malandro. Lista Tia Doca: feijoada, tripa lombeira, rabada, sopa de ervilha, carne-seca, mocotó... E foi em busca de uma comida de subúrbio que certa vez uma moradora do Leblon contratou Tia Doca para cozinhar.

— A madame queria uma comida de subúrbio. Eu aceitei e fui fazer um angu à baiana, mas não quis dinheiro na mão para comprar os ingredientes, não, levei a madame comigo para o Mercadão de Madureira. Ela ficou louca com o Mercadão! No prédio, o cheiro da comida tava subindo e deixando os vizinhos com água na boca. Sabe o que a madame fez? Convidou o pessoal para comer, mas todo mundo teve que pagar na porta. Depois dizem que gente do Leblon é chique! Mas achei interessante aquele sistema. Ganhei muita gorjeta.

Aos 75 anos, a tia que traz as tradições do samba na voz, nos dotes culinários e na atitude, diz que está cansada. Uma artrite anda aos poucos afastando Doca da cozinha. Mas a sua presença no Pagode é sagrada, além de garantia de um ambiente onde imperam os bons costumes herdados da época do “Seu Paulo” (da Portela).

O médico proibiu a cervejinha, pecado dos pecados para a portelense! É que o músculo cardíaco cresceu. Resultado, segundo ela, de muito aborrecimento ao longo da vida. Doca tem cinco bisnetos e seis netos. Dos seis filhos, dois homens morreram, ambos assassinados por desconhecidos. Um deles, por um bate-bolas, num sábado de carnaval. No mesmo carnaval, faleceu o ex-marido, Altair.

— Minha fantasia já estava prontinha. Estragou o meu carnaval!

Dor da mãe durona. Disfarçada em dor de pierrô que perde a sua colombina. Dor imensa que inunda e afoga o coração, que, inchado, cansa a pastora. E que ela, como filha, sentiu o quão devastadora esta dor poderia ser quando Albertina era só desespero no cais, angustiada com a possibilidade de ter perdido a filha caçula para sempre, no navio que ia longe.

Ao escutar o apito do vapor, Doca gritou. Logo o comandante apareceu e quis saber o que aquela criança fazia a bordo. O marinheiro, na verdade um cabo-verdiano, explicou que queria levar a menina consigo, pois ela lembrava muito a filha que morrera. O navio retornou. Doca seguiu pra casa com a mãe e com a sua primeira boneca debaixo do braço.

Nunca mais voltou ao cais.