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A rádio que toca ofertas

texto: PATRÍCIA ROCHA

Existe uma região no Centro do Rio que mantém ares de Oriente Médio, onde comerciantes judeus e árabes, seguranças cariocas, donas de casa da Zona Sul e popozudas suburbanas coabitam pacificamente em 11 ruas. A região da S.a.a.r.a. (Sociedade dos Amigos e Adjacências da Rua da Alfândega) garante seu clima de feira de rua graças à freqüência de segunda a sábado de 150 mil pessoas a 1.850 estabelecimentos, 1.250 lojas e sobrados e 650 escritórios que vendem toda sorte possível e imaginável de utilidades e bugigangas. Como boa feira que se preze, o convite ao consumidor que passa em frente ao ponto de venda é a arma no sucesso do negócio. No caso deste oásis dos preços populares, o chamamento é feito pela Rádio Saara.

Osom se impõe nas ruas através de caixas alto-falantes de tamanho médio e bom alcance. A cada viela, a cada lado de quarteirão, existem de duas a quatro delas, mais o sistema de som dentro das próprias lojas. Nas ondas da rádio, o texto popular e debochado dos spots desperta a atenção dos ouvintes que passam pelas ruelas — por bem ou por mal. Longe de ser uma rádio comunitária, a programação diária deste sistema de som é composta por uma grade publicitária que anuncia seus próprios estabelecimentos, das 8h às 20h. Os reclames trazem diálogos do povão, imitações cara-de-pau de figuras populares e vozes completamente fora de qualquer padrão radiofônico — às vezes até propositalmente irritantes. Não existe som ambiente: ser for discreto não vende.

O comerciante que for à Avenida Passos, 91 e procurar Elaine, contato publicitário da rádio, vai ser atendido numa saleta de paredes verde-água, cujas janelas têm como vista as ruas antes do Mercado Popular da Uruguaiana e também as que ficam antes da Praça Tiradentes, sentar num sofá antigo coberto por uma manta, ficar sob a guarda de um São Jorge e um símbolo da maçonaria, e receber um copo de água gelada oferecido pela atendente Fátima. Por um mínimo de R$ 1.700 se compra um pacote que inclui a criação do texto, a gravação do spot e a veiculação de dez chamadas de uma peça de quase um minuto. A empresa afirma que produz uma média de 15 por mês. O antigo diretor da rádio, Beto Salóes (morreu em janeiro de 2007) costumava defender o produto da casa: “nunca fica bom quando querem fazer fora daqui e temos sempre que fazer novamente”.
Luis Antônio Bap, que assumiu a diretoria da rádio após a morte de Salóes, define a empresa como “não bem uma rádio, é um nome fantasia”:

— Somos um sistema de alto-falantes direcionados e metidos a besta.

As mensagens, que marcam pelo humor (ou gosto duvidoso), anunciam os pontos citando sempre a rua e o número da loja, que é para o freguês saber como chegar lá.

Do outro lado do alto-falante, está sujeito a ser convocado para a gravação qualquer um dos dez funcionários da empresa: do office-boy à recepcionista da rádio. Para Renato Alves, coordenador de programação da rádio, “o grande segredo é o número de vozes, pois não dá pra imaginar mais de oito horas com o mesmo tom”:

— Bastou trabalhar na rádio para entrar na programação — diz Bap. — Uma vez nós fizemos aqui... cadê o Allan, hein Cíntia?

— (Voz do corredor) O Allan tá aqui! Tá fazendo a “utilidade”!

— Chama o Allan — continua Bap. — Nós uma vez montamos aqui um curso de locução. Aí nós aprovamos todo mundo, só ficou um reprovado. Foi o Allan. Aí a gente falou: é esse que a gente precisa.

Allan Zetune está há seis anos na rádio, é bem magro, tem pouco mais de 1,70m e um timbre que lembra muito o que seria um Silvio Santos aos 10, 12 anos. Ele afirma nunca ter imitado o apresentador-patrão do SBT, mas sim “o Maguila, o Lula...”.

Como os anunciantes formam uma comunidade composta em sua maioria por árabes e judeus que já passaram dos 50 anos de idade, trotes ao vivo interrompendo a programação e dando conta da suposta morte de um ou outro lojista são recorrentes. Diariamente, às 18 horas, Bap entra ao vivo para fazer o “Momento de Fé”, rezando a Ave-Maria para seus ouvintes. A rádio também presta serviço de utilidade pública, anunciando crianças e documentos perdidos, campanhas de vacinação e data para declaração do imposto de renda.

No Orkut, comunidades a favor e contra a inventividade da rádio — que existe desde os anos 70, mas que completa 10 anos com esta programação inovadora — vivem momentos acalorados entre boatos sobre seus funcionários e relatos ressentidos da desafinada locutora que entoa o jingle de Natal de uma casa de cristais. Na vida real, a rádio foi usada como referência para núcleo popular de novela da Globo e angariou mais Ibope com a segunda edição do concurso Garota da Laje — que premiou as gatinhas que exibiram as “melhores belezas comunitárias” com um carro usado, uma piscina de fibra de vidro, uma laje pré-moldada e um destaque no “Sabadaço”, da TV Bandeirantes.

RECLAMES DA SAARA: se for discreto não vende

— (Voz de um cara bem debochado) Oi, Heloísa!, oi Zilda! Vocês estão vestidas iguais, parece um par de jarras!

— (A voz desafinada) O que que eu faço?! O que que eu faço?!
O que que eu faaaaçooo?!

— (A voz do “muy amigo”) Pare de comprar em qualquer loja!

— (Vinheta) Conheça a loja Tural, Senhor dos Passos, 198: roupas belíssimas, do PP ao Extra-G, desenhadas por estilistas e produzidas com tecidos e aviamentos de alta qualidade a preços acessíveis. Parcelamos no cheque e no cartão sem juros!


— (A voz mais desafinada do mundo!) Swarovski, Swarovski, comprei meu Swarovski na Rua dos Andradas, número 29!, sobrelojas 205 e 206!

— (Locutor) A voz não é de boa qualidade, mas os cristais Swarovski da rua dos Andradas, 29, sobrelojas 205 e 206, ah!, esses sim!


— Arlete, Arlete, como você está bonita, Arlete! Parece uma rainha!

— (A voz mais desafinada do mundo, a mesma dos cristais Swarovski) É porque eu estou num palácio, Agnaldo! No Palácio dos Cristais! Senhor dos Passos, 81, aqui na Saara!

— E quem é esse marmanjo que está ao seu lado, Arlete?

— É o diretor Fabinho Swarovski, que mais entende de cristais Swarovski no mundo! Ele é tão atencioso...

— Arlete, Arlete!

— Não fique com ciúme, Agnaldo!


— Estamos nas ruas da Saara fazendo uma reportagem com a seguinte pesquisa: qual é o melhor restaurante do Centro do Rio?

— Ah! dona repórti (sic), é o Macedônia Grill. No Macedônia Grill tem um super ar-condicionado!

— Minha Nossa Senhora, é o Presidente! Vamos dar um furo! O Lula está na Saara! Presidente, presidente: qual é o melhor restaurante do Centro do Rio?

— (Voz imitando o Lula) É o Macedônia Grill! Lá tem uma gastronômica, ou, desculpe, uma nutricionista.

— Lula, e o mensalão?

— O melão de lá é uma delícia, tchau!

— (Locutor) Restaurante Macedônia Grill, agora, sem balança!