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Embarque

O Caminho de Santa Teresa

texto e fotos: MICHAEL ENDE

Santa Teresa Santa Teresa Santa Teresa
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Acordo normalmente com as gargalhadas de Louro, o papagaio, bicho de estimação do meu vizinho, seu José. Acordo muito cedo. Seu José acorda de madrugada para aguar as plantas do belo jardim do casarão dele, com Louro pousado em seu ombro protegido por um pano, porque o papagaio tem uma digestão acelerada. É uma dupla folclórica, um flagrante bucólico da Rua Candido Mendes, ligação íngreme entre Glória e Santa Teresa. Turistas tiram fotos, o gentil senhor de 85 anos, de cabelo e bigode brancos, acena, e Louro ri para os gringos. Se o Louro verde fosse um pombo branco, seria a imagem-símbolo perfeita da paz.

Infelizmente, não sou despertado sempre tão harmoniosamente. Várias vezes já foram gritos, palavrões, xingamentos, até tiros de espingarda que me tiraram da cama.

Numa destas vezes, corri para a varanda da frente e me deparei com a cena do crime: um carro novinho em folha, com proteção de plástico nos assentos, fora fechado por uma moto com dois sujeitos aparentemente hostis. Os dois gesticulavam com revólveres 38, um desceu da moto e tirou do novo veículo o infeliz do dono. “Perdeu, cara, perdeu!”, gritou o sujeito hostil, que assumiu a direção do novo automóvel, agora seu...

Os dois sujeitos se mandam em alta velocidade. O ex-dono ficou um tanto perplexo na calçada, mas ainda teve a presença de espírito de pelo ao menos salvar o saquinho com pão fresquinho que trouxe da Padaria das Famílias de Santa Teresa. Demoraria mais tempo para chegar em casa a pé, mas pelo menos não passaria fome. O meu vizinho gritou “ladrões!”. E da sua espingarda, que guarda desde a Segunda Guerra Mundial, disparou um tiro para o céu matinal de Santa Teresa. Ensinei ao azarado visitante o caminho para a Delegacia de Polícia, mas ele preferiu ir primeiro para casa, alimentar a família e se recompor do susto. “Este bairro não tem mais jeito!”, exclamou meu vizinho, vermelho de raiva. Louro deu gargalhadas.

Para os não moradores de Santa Teresa, algumas informações sobre o local do crime: a Rua Candido Mendes não começa nobre; mais precisamente, ela nasce na Rua da Glória, point dos travestis, tem uma sauna gay e uns hotelzinhos mal-assombrados. Com a subida em direção a Santa Teresa, vai melhorando o nível dos estabelecimentos: passamos pelo Consulado da Suíça, e a partir daí ela vira rua de paralelepípedos com casarões imponentes atrás de muros altos. Em seguida vem o clube de squash, esporte de elite, como indicam os carrões importados no estacionamento. Depois, uma leve decadência de novo — o prédio onde eu resido. Mas na próxima curva, o orgulho da rua: a residência do cônsul da Alemanha, um verdadeiro castelo com uma torre kitsch pseudo-medieval, portão de ferro com a águia-brasão do meu país — sim, eu sou alemão — e guarita blindada particular. Que, infelizmente, não protege ninguém, nem mesmo uma proteção psicológica, conforme descobri dolorosamente no decorrer dos anos. E finalmente desemboca na Almirante Alexandrino, em plena orla gastronômica do bairro.

Por incrível que pareça, a Candido Mendes não tem transporte público. Nem ônibus, nem van, nem metrô. Só tem ponto de moto-táxi na paralela Rua Santo Amaro — e muito assaltante saindo para trabalhar de duas rodas. Não é boato ou preconceito, é informação confirmada pelos próprios pilotos de moto-táxi. Então sou obrigado a andar a pé, pegar a via-sacra da minha humilde residência até o meu escritório, mais humilde ainda, na Rua Paula Matos.

Saio por volta das sete e meia da manhã. Podia até ser uma caminhada gostosa, saudável, um exercício matinal. Mas não é.

No topo da Candido Mendes, na Almirante Alexandrino, passam duas linhas de ônibus, que já substituem em quase 100% as tradicionais linhas de bonde com o mesmo destino: a 206, saindo do Centro da cidade até o Morro dos Prazeres, e a 214, indo para a Paula Matos. Até 1968, circulavam 28 bondes no bairro; hoje são dois. Segundo informa a Associação dos Moradores de Santa Teresa (Amast), o Banco Mundial liberou US$ 1 milhão para a recuperação dos bondes. Cadê este dinheiro? Ninguém sabe. Os dois bondinhos sobreviventes trafegam, digamos, esporadicamente. São usados principalmente por gringos armados com máquinas fotográficas e câmeras de vídeo. Para sentar, custa R$ 1,60; pendurado nos estribos é de graça. Normalmente, tem um PM viajando em pé no fundo do carro, para evitar perda súbita de máquinas e filmadoras. O Estado quer privatizar o sistema de bondes. A Amast receia que vire excursão fretada para turistas, proibida para moradores.