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Excluída é a Zona Sul

texto: EDUARDO SOUZA LIMA

Foto de arquivo pessoal

Marcos Guimarães, o Marco Palito, ou simplesmente Marcão, pode ser ainda um ilustre desconhecido na Zona Sul, mas no subúrbio é o rei do humor. Seus leais súditos estão nas lonas culturais da prefeitura, em especial na Hermeto Pascoal (em Bangu), na Gilberto Gil (na Capelinha) e na Carlos Zéfiro (em Anchieta); no Ponto Cine, em Guadalupe; e no Shopping Madureira, onde atua como uma espécie de consultor artístico e se apresenta há dois anos no talk-show ao vivo “TV no Bar”, no restaurante Blumenau Grill. O Bonequinho Vil, sua mais famosa criação, e o “Conversa Fiada”, seu programa de auditório, têm sete comunidades no Orkut. Cada lona tem 350 lugares, mas em suas apresentações é comum ver até 800 pessoas se espremendo nas arquibancadas e sentadas no chão. Fora as duas mil que ficam do lado de fora tentando entrar.

— Tem um amigo meu, o Adil, que costuma dizer: “Não dá nem pra entrar lá fora” — brinca o humorista.

Certa vez, Marcão e sua trupe foram se apresentar na Praia de Copacabana, num evento patrocinado por uma fábrica de biscoitos. E ele aproveitou para dar o seu recado:

— Cheguei pra rapaziada e disse: “Excluída é a Zona Sul. Nós já somos 4,5 milhões, vocês, só 1,5 milhão. Vocês nem tem trem! Isso é um absurdo! E nem ônibus direto para Madureira! A cidade precisa se integrar e nós vamos ajudar vocês.” O Hans Donner viu e se amarrou. Disse que a gente conseguiu inverter a mão.

Nascido e criado em Pilares, há 41 anos, Marcão preferiu que esta entrevista fosse feita em Madureira e não em seu bairro natal: “É que lá é a capital do subúrbio”, argumentou. Quem é da região, bem o sabe. Mas este não foi o único motivo. Madureira também é o seu quartel-general e a sua musa maior. O humor de Marcão é genuinamente suburbano, e não apenas na certidão de nascimento. Ele anda para lá e para cá nas movimentadas ruas do bairro, conversando com todo mundo, buscando inspiração para novos tipos e esquetes.

— Quando você é do subúrbio, quer olhar para a Zona Sul. Quando olhei pro subúrbio, vi a bananada, o kichute, o sacolé de manga. Comecei a sortear bananada no “Conversa Fiada” e foi o maior sucesso. As pessoas gostam de se sentir retratadas, de ouvir quem fala a língua delas.

No Shopping Madureira, por exemplo, convenceu os donos de grifes locais a trocarem o cenário dos desfiles de moda que promovem no local: saiu a praia com palmeiras, típica da Zona Sul, e entrou um trem sobre trilhos, bem suburbano. As modelos do bairro ficaram orgulhosas com a nova passarela.

Adaílton Medeiros, criador do Ponto Cine, conheceu Marcão quando era diretor da Lona Cultural Carlos Zéfiro e foi um dos primeiros a apostar em seu talento e na originalidade de seu trabalho. Hoje, o comediante se apresenta nas manhãs de sábado no cinema de Guadalupe, antes da sessão “Diálogos com o cinema”, que exibe filmes brasileiros seguidos de debates com seus realizadores.

— O Marcão é o que há de mais novo no mercado do humor, tanto no Rio quanto no Brasil — diz Adaílton. — O seu humor é muito rico e é o da crônica diária. As pessoas se enxergam nos personagens do Marcão porque eles falam em uma linguagem simples e acessível. Esses personagens apresentam as características próprias da cultura do subúrbio, mas vão, além disso. É um humor que se torna universal justamente porque é local.

A carreira de humorista começou há 20 anos, com o “Respondeu Bebeu”, uma gincana de conhecimentos gerais que apresentava em bares das zonas Oeste e Norte. O “Conversa Fiada” foi criado em 1996 e até hoje é um sucesso absoluto no circuito das lonas culturais. Foi em um de seus quadros, “Diário de um magro” — no qual satirizava a obra do escritor Paulo Coelho com trocadilhos do gênero “Nas margens do Rio Piegas eu sentei e gostei” — nasceu o Bonequinho Vil. O boquirroto personagem, visualmente inspirado no Bonequinho das críticas de cinema do jornal “O Globo”, comenta, de modo singular, as principais notícias da semana. Curiosamente, Marcão é coadjuvante no quadro: como o personagem fala de forma incompreensível, ele interpreta o seu tradutor. Quem dá vida ao Bonequinho é Marcus Vinícius de Oliveira, o Marcus Saúva.

— O Saúva era percussionista de uma banda chamada Didi Subiu no Cristo — conta Marcão. — Mas eu rolava de rir vendo o cara tocar. Ele estranhou um pouco quando o convidei para fazer o personagem, mas já estamos juntos há 11 anos.

— Achei estranho até porque nunca havia feito teatro na vida, mas embarquei, e descobri que o Marco tem um olho bom para descobrir novos talentos — diz Saúva. — E descobri que havia encontrado uma razão na vida, adoro fazer as pessoas rirem.

O sucesso do Bonequinho Vil não é brinquedo não: seu esquete acabou virando a última atração do “Conversa Fiada”, porque muita gente ia embora depois que a dupla deixava o palco. Mas criar tipos é a especialidade de Marcão. Tem, por exemplo, a americana Ema Grace, líder da seita do Santo Diet — um chá alucinógeno que faz a pessoa acreditar que emagreceu -— e Dali de Salvador, pintor surrealista baiano que tem entre suas obras o quadro “Clodovil no harém”.

Marcão é o caçula de cinco irmãos, filho de um representante de vendas com uma dona de casa. É o único com pendor artístico na família. Mas foi em casa que começou a ter interesse por arte.

— Meu primeiro encontro com a arte foi uma pintura numa telha que minha irmã fez — conta. — Não sei por que aquilo me impressionou. Acho que por ver que era possível fazer.

Depois vieram o tio piadista — toda família do subúrbio tem pelo menos um — e os discos de humor do Agildo Ribeiro e do Costinha, cujas anedotas o menino decorava para deleite de uns e horror de outros. Quando estava na sétima série da Escola Municipal Souza da Silveira, em Piedade, participou da montagem da peça “Deus lhe pague”, de Joracy Camargo, feita por sua professora Regina Célia. E a partir daí não parou mais: cursou CAL, Martins Pena, fez oficina de palhaçaria com Marcio Libar.

— O universo do palhaço foi a minha última descoberta. Com ele, eu aprendi a perder. Tenho influência de tudo, mas o bar é minha universidade — diz Marcão.

O humorista também tentou cursar Jornalismo, mas teve que abandonar a faculdade ainda no primeiro período, por falta de dinheiro. Ainda assim, deu um jeito de entrar para o meio jornalístico: atualmente ele participa das transmissões de futebol da Rádio Transamérica FM (101,3 MHz) com o personagem Armando Furtado, ex-juiz ladrão e comentarista de arbitragem, além de apresentar a “Agenda do Marco Palito”, resenha esportiva na qual dá os resultados de partidas de esportes populares como sueca, queimado e porrinha. A família nunca entendeu direito esse negócio de viver de inventar histórias, mas sempre o apoiou.

— Quando você passa da metade do caminho, não tem mais volta. Hoje, eu sobrevivo de minha arte. Espero um dia poder viver dela.

Não deu no “RJTV”, mas em 2003 Marcão ganhou o Prêmio Governo do Estado, como empreendedor de cultura popular. Além do seu trabalho como humorista, ele coordena projetos sociais, à frente da ONG Alimento Cultural.

— Eu me considerava um desnutrido cultural. A primeira vez que fui ao cinema foi para ver um filme de Tarzan em sessão dupla com “A vida de Cristo”. No subúrbio você não tem muitas opções. A Barra tem 90 mil habitantes e só num shopping tem 18 cinemas. Bangu tem 500 mil e só uma sala.

Em seus talk-shows e gincanas de humor, Marcão sempre faz questão de falar de cultura e de política — “porque o povo não pode esquecer do Juiz Nicolalau e dos Anõezinhos do Orçamento”, diz. Ultimamente, tem pensando numa nova forma de cobrança de entrada para seus espetáculos.

— O ingresso seria uma frase. Mas não qualquer frase, tem que ser uma frase boa. Sei que isso geraria discussão e acabaria levando as pessoas aos livros. Mas criaríamos também um banco de frases para não deixar ninguém constrangido. Aí é só o cara pegar uma emprestada.

Por meio de projetos como o Cesta Básica Cultural (no site www.marcopalito.com.br tem todos), ele distribui livros para pessoas carentes.

— Estamos criando um conselho de nutrição, formado por professores, jornalistas, sociólogos e artistas, para fazer o cardápio. Não dá para dar um Guimarães Rosa logo de cara. Tem que acostumar o estômago aos poucos. Às vezes você dá uma feijoada para um cara que está cheio de fome e ele morre de indigestão. O sujeito nunca foi ao teatro e pode nunca mais ir dependendo do que ele for ver.

Marcão tem três filhas, Thainá, de 19 anos, Thuanni, de 18, e Anna Luiza, de 11, e duas ex-mulheres — “eu sempre fui bem casado, elas, não”, brinca. E hoje, diz com orgulho que sua carteira de trabalho só tem duas assinaturas:

— A minha e a do funcionário do Ministério que a emitiu.