Revista Zé Pereira
Compre Aqui
Embarque

Mozael Silveira e suas secas e molhadas

texto: ESTEVÃO GARCIA

Mozael Silveira
Mozael Silveira como o Barão Carlito Canadá em “Secas e molhadas”: tipo incrivelmente feio e brasileiro

Como os cinegrafistas brasileiros das primeiras décadas do século XX, os chamados “cavadores”, Mozael Silveira faz os primeiros planos de seu filme “Secas e molhadas” (1977). A comparação aqui estabelecida entre Mozael e os cavadores é ampla e se origina a partir de diversos elementos em comum. Um desses elementos é a imensa falta de recursos materiais, dado que faz surgir um outro: o elevado grau de improvisação. Sem dinheiro e sem os equipamentos ideais para rodar da maneira desejada, o cineasta brasileiro, desde os tempos da cavação necessita inventar saídas mirabolantes para escapar das armadilhas fabricadas pela ausência de verba. Portanto, se apenas é possível utilizar um número limitado de lentes ou filmar com um tripé defeituoso que treme na hora das panorâmicas, paciência. Ou se filma assim ou não se filma. Mozael incorpora o espírito dos nossos cavadores ao escolher fazer o cinema possível, o cinema que se tem à mão. Não se pretende em “Secas e molhadas” ou nos demais títulos que compõem a filmografia do diretor, disfarçar as marcas da precariedade. Os planos de abertura de “Secas e molhadas” com vistas panorâmicas de conhecidos pontos do Rio de Janeiro: as praias de Botafogo e de Copacabana, o Pão de Açúcar, o Corcovado, o aterro do Flamengo, entre outros, foram filmados com a câmera no meio do mato. Temos aqui menos um planejamento prévio e mais um desejo de fazer cinema da forma que der. Como os pioneiros do cinema brasileiro, Mozael parece ter apenas a posse de uma velha câmera e de um tripé com o manche quebrado. A panorâmica de Mozael parece que vai, mas não vai. O movimento antes de se completar, cambaleia, tropeça, mas não cai.

Entre esses movimentos de câmera trôpegos, duros e limitados pelas defasagens técnicas, Mozael constrói as suas comédias tipicamente cariocas. Encarnando o tipo do malandro carioca, Mozael em “Secas e molhadas” aparece na pele de Barão Carlito Canadá. Clássica figura do homem brasileiro que quer tirar “vantagem em tudo”, que só pensa em se dar bem e que deseja ter dinheiro sem precisar trabalhar, Carlito está sempre matando cachorro a grito. Marta Porreta (Lameri Faria), a mulher que formará o par com o nosso herói, é uma figurante decadente de televisão que mora em um edifício de quitinetes localizado na Barata Ribeiro. Quase tão sem grana e tão “na pior” quanto ele, Marta começa a ter um caso com um executivo careca da renomada fábrica Filé Sem Osso. Essa sua ligação com o careca fará brotar no malandro a idéia de aplicar no ricaço o denominado “golpe da cebola”. Marta pergunta a Carlito no que se constitui esse golpe, seu sócio então ri e responde: “Ah, é o golpe que o otário come e depois chora”. De fato, o plano era tirar fotos do tal otário em um idílio amoroso com Marta e depois pedir uma boa soma de dinheiro em troca da entrega das fotografias. A tramóia então já está elaborada e agora resta só aguardar a presa cair direitinho na arapuca. Antes, no entanto, de partir para Araruama, local onde a execução do golpe acontecerá, Carlito precisa resolver mais um probleminha: o seu trabalho. Ele precisa arranjar um jeito de continuar recebendo o ordenado do banco do qual é funcionário sem ter que trabalhar. Eis que Carlito encontra a solução e diz para a sua parceira: “Maluco não trabalha, minha filha”. Corta, e no plano seguinte o malandro está na agência bancária, em cima do balcão, vestido de mulher e gritando “quem quer bacalhau? quem quer cenoura?”.

O malandro de Mozael, como todo malandro que se preza, foge do trabalho como o diabo foge da cruz, adora um belo rabo de saia e está sempre na iminência de aplicar pequenos golpes. No entanto, vemos no personagem do Barão Carlito Canadá uma espécie de ingenuidade latente no meio de sua suposta esperteza. Esse aspecto bufo, ingênuo e até mesmo bobalhão presente em suas articulações e expressões, de certo modo o afasta do protótipo do malandro convencional. Se o comparamos com o malandro construído por um outro diretor-produtor-ator como Hugo Carvana, percebemos nitidamente a diferença. O personagem do malandro carioca tal como aparece em “Vai trabalhar vagabundo” (1973) e “Se segura malandro” (1978) não é “patético” e “grotesco” como os heróis mozaelenses. Essas características são aqui essenciais. Mais do que a lábia, o poder de sedução e a facilidade de se escapar de encrencas é explorado no personagem de Mozael a porção que todo malandro tem de otário. O seu hedonismo e a sua estratégia mental de sempre achar que está por cima quando na realidade está no fundo do poço, revela no fundo as suas limitações. Se dar mal na execução de um golpe e estar no minuto seguinte pronto para a aplicação do próximo é tão comum e freqüente em seu cotidiano que até já se transformou em um hábito. A sua permanente “alegria” e a sua dificuldade em assimilar uma derrota o faz seguir vivendo sempre do mesmo jeito. Perdendo facilmente os milhões conseguidos pelo golpe da cebola, o que nos indica mais uma vez a sua ingenuidade, Carlito está agora vivendo em uma barraca acampada na praia de Botafogo. Brincando dentro da barraca com mais uma de suas conquistas, o personagem continua no fluxo do seu dia a dia. Na banda sonora, ouvimos a insistente música de ares cômicos que o acompanhou ao longo do filme. A polícia chega para prendê-lo, a música continua, e numa palhaçada geral Carlito tenta escapar de mais uma enrascada.
O humor aqui trabalhado se monta justamente através dessas peripécias vivenciadas pelo protagonista. A comicidade de Carlito reside exatamente na sua representação do malandro-otário sempre em vias de ser dar mal. Além de sua vulnerabilidade transparente, uma outra característica lhe é marcante: os seus traços físicos. Barão Carlito Canadá é acima de tudo um feio. A sua feiúra nítida, clara e sem maquiagens é no filme compreendida, absorvida e explorada. Podemos exemplificar a utilização da feiúra de Carlito como recurso estético e adequação estilística ao todo da obra através de uma cena. No momento em que o personagem está levando bronca da governanta da pensão (Zezé Macedo) que está prestes a expulsá-lo, há um corte para o seu rosto. A angulação e o enquadramento escolhidos ressaltam o perfil de Carlito com o claro objetivo de evidenciar as suas feições. Assim como em “Secas e molhadas” as precariedades técnicas não são camufladas e sim assumidas, a feiúra de seus personagens também não é escondida. O tosco, o capenga, o “mal feito” oriundos das deficiências técnicas são assimilados e convertidos em formas expressivas. Uma estética da “grosseria”, do esculacho e da avacalhação não é aqui apenas o resultado da escassez de recursos e sim formulada e procurada. Se a estética do desleixo e do mal acabado já era um elemento presente desde o inicio do ciclo das pornochanchadas, ele se desenvolveu e se aprimorou a partir da segunda metade da década de 70. Se pegarmos os títulos desse período de outros diretores de pornochanchadas cariocas como Carlo Mossy ou Victor di Mello, por exemplo, notamos que a grosseria é mais um dado para estimular a adesão do espectador. Junto com o sexo e a nudez feminina, a grosseria se constituía como mais um elemento de atração do gênero. Mais vista como um defeito do que como uma procura formal consciente, a grosseria desses filmes se por um lado causavam a repulsa e o rechaço da crítica e dos intelectuais, por outro atraiam o público popular em peso às salas de cinema. Mozael sabia disso e estimulado pela grande adesão que causava no espectador comum, continuava a produzir filmes e a interpretar seus tipos incrivelmente feios e brasileiros.

Filmografia:

“Em ritmo jovem” (1966)
“O sabor do pecado” (1967)
“Meu nome é Lampião” (1969)
“Jesus Cristo, eu estou aqui” (1970)
“Com a cama na cabeça” (1972)
“Mais ou menos virgem” (1973)
“As audaciosas” (1975)
“Sete mulheres para um homem só” (1976)
“Pedro Bó, o caçador de cangaceiros” (1976)
“Secas e molhadas” (1977)
“As eróticas profissionais” (1977)
“Seu Florindo e suas duas mulheres” (1978)
“O erótico virgem” (1978)
“As aventuras de Robson Crusoé” (1978)
“Violência e sedução” (1979)
“Massacre em Caxias” (1979)
“As Intimidades de Duas Mulheres” (1981)
“A Cobiça do Sexo” (1981)