Revista Zé Pereira
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Crônicas do Rio

Roberto Mafra se apresenta: “Nasci em 25 de agosto de 1940. Filho de Mansueto Mafra e Anna Lannes Mafra. Sou autodidata; tenho um monte de cursos mas nunca me formei em nada. Fiz até o segundo grau (incompleto). 
Trabalho aqui na COPPE/UFRJ (quase me aposentando) mas continuo (artisticamente falando) produzindo muito. Sou anarquista por natureza e principalmente por ver todas essas merdas acontrecendo por culpa exclusiva desse Sistema absurdo que já nasceu caduco”. O autor já publicou dois livros: “Código de barras” (poesia) e “O espelho de cristal” (contos e crônics), de onde saiu “‘Trepadinha’ na Berquel”.

“Trepadinha” na Berquel

No bairro do Grajaú, lá pelos anos 70, tínhamos o costume de, quando surgia por lá, um garoto assim, meio boboca, convidá-lo a dar uma “trepadinha” na Berquel.

Berquel, cuja grafia correta é Berkel (a gente aportu-guesava para dar mais autenticidade à brincadeira) era a marca de uma balança de pé, existentes, normalmente, em farmácias.

Certa vez apareceu na vizinhança um rapaz de nome Tonico, meio simplório, vindo de uma cidadezinha do interior, primo de um de nossos colegas. Logo, logo fizemos amizade com ele, logicamente para sondar o seu modo de ser, suas manias, suas fraquezas...

Passaram-se alguns dias, e quando achamos que já estava na hora, resolvemos fazer o famoso convite de dar uma “trepadinha” na Berquel, não sem antes encher a bola dela: que era muito gostosa, muito maravilhosa, que fazia de tudo.

Ele ficou empolgadíssimo. E quis saber mais: se era loura ou morena ou preta; baixinha, alta, magra, rechonchudinha; onde morava... Com ele não tinha tempo-quente, tava mais era a fim de afogar o ganso! E quando seria? Foi a última pergunta.

Marcamos para um sábado, de tardinha, próximo da praça Malvino Reis. Era numa farmácia, o único lugar, por ali, que tinha uma balança daquela marca.

Os dias iam se passando e a gente já não agüentava mais de curiosidade de ver a cara dele ao ser apresentado à Berquel. Nós ríamos só de imaginá-lo, com aquele seu jeitão de matuto, aquela pronúncia peculiar de gente do interior.

No dia e hora marcada, lá veio ele: de terno e gravata; cabelos emplastados de Glostora, pra não desmanchar o penteado; sapatos muito bem engraxados. Ninguém esperava aquilo. Devia ser um hábito do local onde morava. Tava alinhado, o cara! Ficamos até meio sem jeito de continuar a brincadeira, embora toda aquela nova perspectiva que ele próprio criou tenha tornado o fato em si mais engraçado ainda, e nós, naquela idade sacana que nos encontrávamos, não poderíamos livrar a cara do cara. Então, mordendo a gargalhada que estava prestes a explodir, conduzimos o dito-cujo à farmácia.

Natal, o mais forte e decidido do grupo – capaz inclusive de rechaçar qualquer tipo de violência que pudesse acontecer –, fora incumbido de apresentar Tonico à Berquel. Já, de antemão, nós nos esgueirávamos pelas portas da farmácia rindo, pois não agüentávamos mais a figura do Tonico, todo cheiroso e em trajes de passeio, ser apresentado à balança para dar uma trepadinha.

Esta é a Berquel – falou o nosso amigo Natal, com voz grave e bem empostada, ao Tonico, que ficou por alguns segundos em silêncio e depois caiu na risada:

– Ah! Ah! Ah! – riu gostosamente. E não era um riso forçado, não, era superespontâneo. – Ah! Ah! Ah! – ficamos meio sem jeito, e aos poucos fomos parando de rir dele.

– Ah! Ah! Ah! – prosseguia. Ele estava achando realmente muito engraçada aquela brincadeira – Ah! Ah! Ah! Vocês são mesmo, muito sacanas! Ah! Ah! Ah! Bem que me disseram que carioca é muito fidaputa! Caraio! Vocês são do cacete, mesmo!

Ficamos ali, meio embasbacados, olhando pro Tonico, nosso novo, agora sabíamos com certeza, colega de futuras brincadeiras.


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