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Crônicas do Rio

Luís Pimentel é jornalista e escritor. Trabalhou em diversas redações de jornais e revistas do Rio de Janeiro e tem duas dezenas de livros publicados, entre obras infanto-juvenis, de contos, de poesia, de textos de humor e sobre fatos e personagens da música brasileira. “A primavera baixou no meu buteco” está presente no livro “Noites de sábado e outras crônicas cariocas”, lançamento recente da Editora Leitura.

A primavera baixou no meu buteco

Foi durante uma das famosas reuniões de amigos no Buteco do Jisus, em Botafogo, um bar que não existe mais e que ficava no Rio Sem Bala Perdida – uma cidade que também já não existe. Lá para as tantas, o papo desandou para o lado das quatro estações. Pedro Garganta, um dos mais falantes e quase nunca convincente, fez a introdução, no bom sentido:

– A mim agrada, por demais (sacaram o estilo?!), o clima outonal. O frescor das folhas, o sol ameno, o dias são mais radiantes.

Rocha, conhecido nas mesas e arredores como “o Cacique da Bambina”, completou:

– A cerveja fica mais gelada. As mulheres são mais cheirosas e mais macias.

Foi solicitada a opinião de uma representante do grupo feminino:

– Prefiro o verão – disse Nina, uma morena que encostou na mesa um dia para pedir fósforos e nunca mais abandonou a turma.

– Aumenta o calor na formosinha, né, preta? – bombardeou o intrépido Yonzinho Cantareira, que todas as noites atravessava a Baía de Guanabara para beber em Botafogo, e arrastava uma asa caída para o lado da amiga.

Gargalhadas. Beijinho de reencontro nos copos. Mordidinhas na moela. Bilau Baixinho, que pecava pelo apelido e hoje seria chamado de “verticalmente prejudicado”, retomou o fio da meada:

– Sou mais o inverno. Ventinho frio, roupinhas quentes, a gente aproveita para dormir abraçadinhos.

– Dorme abraçadinho quem tem mulher em casa, ou na casa dos outros, ou mesmo na zona – completou um que estava meio calado.

– Também encontro vantagens na estação do frio – pontificou Pedro Garganta. O inverno tenciona os músculos e enrijece os doces lábios.

Nina engasgou com uma rodela de salaminho. Yonzinho partiu em socorro:

– Mastiga devagar, boneca. O salame é um tira-gosto roliço e traiçoeiro.

Era assim que a banda tocava. Havia poesia em tudo.

Rocha da Bambina interrompeu a conversa, levantando-se de braços abertos:

– Oi! Chega até aqui! – gritou, na direção de uma linda mulher que se aproximava. Olharam todos, ao mesmo tempo. Aquela emoção:

– Oh!!! – gemeram todos. Nina, inclusive.

– Vem cá, prima. Vem conhecer os meus amigos – disse Rocha, sorridente.

– Prazer, pessoal – falou a moça.

O primo puxou a cadeira para a visitante:

– Pessoal, esta aqui é minha prima Vera.

Primavera! Era a estação que estava faltando.

Garganta deu a volta em torno da mesa e se aproximou, derretido.

– Conheço você, não sei de onde.

– Conhece Juiz de Fora? Sou de lá.

– Claro – disse Pedro, os braços de polvo varrendo copos e os ombros da moça. – Vou a Juiz de Fora pelo menos uma vez por mês. Fico no Plazza. Você mora onde lá?

– Moro na pensão de Dona Fulo.

O clima pesou um pouco. Nina evitou o salaminho. Mas Garganta não perdeu a viagem:

– Sou representante de uma empresa de tubos e conexões, por isto viajo muito. E você, Vera, mexe com o quê?

O humor presente em carne e osso, muito mais carne do que osso. Vera não perdia a timidez nem a inocência primaveril:

– Mexo com os quadris.

Resolveram falar das últimas cachorradas políticas. Bobagem ficar perdendo tempo com as estações do ano.


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