Revista Zé Pereira
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DD Quebra-Muro

Com aquele sotaque ninguém acredita, mas Denise Garcia nasceu no Rio de Janeiro. Foi para o Grande do Sul ainda pequena e há alguns anos voltou para cá. Como produtora, assinou os premiados curtas de animação “Deus é pai”, “Santa de casa” e “Por onde andará Petrúcio Felker”, todos assinados por Allan Sieber, entre outros trabalhos no cinema. No ano passado fez sua estréia na direção com o documentário “Sou feia mas tô na moda”, um libelo contra o preconceito ao universo do funk carioca. Em junho foi para a Europa, onde exibiu “Santa de casa” no Festival de Huesca (na Espanha) e de lá seguiu para a Inglaterra, onde “Sou feia” causou furor. Em setembro o documentário a levou a Berlim, onde ela atualmente roda seu novo filme “À esquerda de Londres”. De lá ela manda notícias:

“‘Sou feia’ e eu estamos indo bem, muito bem, aqui na Europa. Em junho, exibi o filme duas vezes em Londres. Em Berlim, durante setembro, foram três exibições e mais duas estão programadas até dezembro. É, sem dúvida, mais do que eu esperava quando comecei o projeto em 2004.

Foto de José Marçal

Denise Garcia e o cinegrafista argentino Hernan Vilchez, num squat berlinense. Foto de José Marçal

Todas estas sessões são seguidas de debate e uma pergunta recorrente do público me intriga quando não me irrita: ‘Como você conseguiu acessar estas pessoas nas favelas?’. Minha resposta não pode ser outra: ‘Porque eu sou uma pessoa também, somos todos’. Não entendo direito o que os leva a duvidar disso. Tenho a impressão de que existe um Checkpoint Charlie na cabeça do ser humano. Uma fenda vigiada, num muro invisível, separando pessoas de diferentes classes sociais.

Chega a ser estranho discutir a questão em plena Mitte, distrito berlinense do antigo setor soviético que, entre 1961 e 1989, foi cercado pelo Muro a sul, norte e oeste. Aqui de fato havia O Muro; mas, em se tratando de Brasil, é sempre espantoso perceber que o filme surpreende brasileiros e estrangeiros pelo fato de eu ter cruzado uma incerta fronteira. Por essas e outras, decidi seguir no tema comunidades e comecei a filmar os squats de Berlim e outras formas de resistência locais.

Os squats guardam semelhanças com as favelas. Ambos são ocupações, áreas onde moram pessoas de baixa ou nenhuma renda e têm um forte senso de identidade.

As primeiras ocupações no lado leste de Berlim começaram logo após a queda do Muro, quando muitos prédios ficaram vazios por conta da migração de seus habitantes para o oeste. Estes prédios foram então ocupados e mantidos por grupos de novos moradores que, na maioria dos casos, foram os únicos responsáveis pela conservação destas estruturas abandonadas em pleno perímetro urbano.

Hoje, quase 20 anos depois, o número de squats diminuiu consideravelmente e a pressão da especulação imobiliária para a desativação dos poucos restantes é grande, assim como a resistência de seus moradores.

A resistência às investidas radicais do capitalismo, no entanto, não pára nos squats em se tratando de Berlim Oriental. Uma freeshop chamou muito minha atenção logo que cheguei. Trata-se literalmente de uma loja de graça, onde qualquer um pode ir e pegar o que necessita, de roupas a eletrodomésticos, livros, etc. Não sendo necessário levar algo para trocar. Este espaço, localizado num squat, tem o seguinte lema ‘contra produtos, dinheiro e capitalismo’.

A noção de que a última palavra não é do capital é antiga nesta área, que o diga Marx, e, por mais desastrosa que tenha sido a implementação do comunismo por aqui, muitos berlinenses não parecem dispostos a vender sua recente liberdade por uma caríssima TV de plasma. Televisão, inclusive, e algo que não assisto há mais de mês. Nos três apartamentos que morei até agora não tinha o aparelho. O fato de a televisão não ocupar o espaço e o tempo sagrado das pessoas, como no Brasil, gera outro efeito bastante benéfico: não há celebridades locais! Ou não se sabe delas. Isso e o que eu chamo de um mundo melhor pra mim e você!

Berlim está em obras e hoje, além da torre da Alexanderplatz, grafites, cartazes colados por todos os cantos, andaimes de ferro, cimento e concreto espalhados pelas ruas e calçadas são a definição da estética e da ideologia desta cidade que, segundo o prefeito Klaus Wowereit, ‘é pobre, mas é sexy’, quase como ‘Sou feia mas tô na moda’.

Minha tarefa para esta semana é tentar agendar uma entrevista com o prefeito para o filme e ver se ele colabora me dizendo como Berlim consegue se manter tão à esquerda de Londres, por exemplo, e até quando.”