Revista Zé Pereira
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Largo das Neves

Uma das muitas maravilhas esquecidas do Rio

texto: ANA REDIG e ISABELLE CABRAL
ilustrações: JANO
fotos: RODRIGO MIGUEZ

Largo das Neves Largo das Neves Largo das Neves

Lá onde o bonde faz a curva, o sol se põe atrás da igrejinha branca. Lá as crianças ainda brincam tranqüilas, como antigamente. Pode não parecer, mas este pedacinho de paraíso fica dentro da violenta cidade do Rio de Janeiro, com vista para o Cristo Redentor e para várias favelas. Uma bela imagem, que costuma ilustrar muitos filmes e anúncios rodados na pracinha, verdadeira locação cenográfica. O Largo das Neves, em Santa Teresa, é uma das muitas maravilhas esquecidas no Rio.

Moradores, comerciantes e freqüentadores assíduos que o digam. O Largo das Neves está abandonado. É preciso fazer algo rapidamente, para que esta pequena jóia urbana, “plantada” pelas mãos do morador Vovô, não se torne um “fim de linha” esquecida por todos.

O Largo das Neves já teve quatro postes. Hoje, em tese, são apenas dois. Em tese, porque um deles foi retirado para conserto nunca voltou ao seu lugar. O único que resta — relíquia secular — tem uma lâmpada amarela, outra branca e a terceira luminária, jaz apagada. O corpo deste poste remanescente foi atingido por um ônibus ou caminhão, deixando sua pele aberta, dando choques nos incautos que nele se encostam para relaxar. Precisará acontecer algo sério para que façam o reparo?

E o que dizer dos banquinhos? As ripas só estão presas à estrutura porque dois moradores compraram parafusos e consertaram tudo com as próprias mãos. Pintura, não se vê há anos. Os estudantes deixam seus nomes e recados com liquid paper, e o poder público não faz nada. Ninguém faz nada! Também faltam latas de lixo — na verdade, existe apenas uma. Uma faxina regular nas pedras portuguesas e nas que fazem o contorno da praça seria muito bem-vinda. Além de tirar o cheiro de urina deixado por festas sem banheiro químico, deixaria as crianças livres de doenças deixadas pelos pombos criados por uma senhora que insiste em alimentá-los, apesar das várias advertências.

Os canteiros estão secos, às vésperas da primavera. Plantou-se recentemente, mas sem proteção e cuidado, os cachorros destruíram tudo rapidamente. Isso sem falar dos carros com o som acima dos decibéis permitidos, sem que ninguém se mexa. Quem já tentou fazer uma reclamação, ouviu o que não podia: só se o denunciante se identificar. Esta é a proteção que a população recebe por tentar manter a lei. Ainda mais grave é a falta de segurança. A Polícia Militar sobe e desce a Rua Paula Matos, mas não impede os furtos a estabelecimentos comerciais e automóveis

O certo é que ficar reclamando não vai mudar nada. Que tal criar um conselho para administrar as questões relativas ao Largo das Neves? Este conselho poderia criar um fundo para ajudar a manter o Largo sempre com esta aparência de cenário. As agências de publicidade, produtoras e emissoras de TV poderiam contribuir, por exemplo, com uma taxa de locação. Assim, também seria possível garantir o compromisso de que deixem o local limpo, que tenham banheiro para as filmagens etc. Quem sabe este grupo, eleito, não encontrasse uma empresa interessada em “adotar” o Largo das Neves? O importante é fazer com que esta pequena maravilha que paira sobre o Centro da cidade se mantenha sempre com este jeito de cidade do interior.