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Maracatron: Capítulo 2

Texto e ilustração: Toinho Castro

Teoria número 1, a mais aceita entre nós, nem por isso a menos problemática: o Maracatron teria sido criado na época dos governos militares. Considerando que isso não poderia ter sido feito nos estertores do regime das fardas ou nos seus primeiros anos, restam-nos um período de cerca de dez a doze anos para se conceber e construir tal complexa estrutura. É pouco tempo para colocar em pleno funcionamento um projeto desse porte. Isso nos leva a segunda parte da teoria, que inclui os americanos na histórisa e reza que o Maracatron chegou ao Brasil de navio, vindo dos Estados Unidos, como certas igrejas teriam vindo de Portugal: desmontado e encaixotado. Há sempre um sujeito lá no canto, como no velho oeste, que levanta dúvidas sobre a verdadeira natureza da Operação Tio Sam, que seria, no fim das contas, muito mais que apoio ao golpe de 64... Assim, disfarçado entre outras cargas, o equipamento chegou ao porto do Rio e uma monumental e imperceptível operação de transporte e montagem foi orquestra pelos dois governos envolvidos.

O terreno do Maracanã, um local propício, longe do qual não poderiam conduzir as experiências planejadas, estava já completamente preparado para receber a engenhoca. Dizem alguns que o estádio Mario Filho seria, na verdade, uma espécie de antena. Numa determinada época do ano, ou a cada dez anos, dependendo da versão autorizada, ele estaria alinhado com certa constelação, enviando e recebendo sinais, mensagens cifradas e xadrezísticas que alimentariam os bancos de memória do Maracatron. Mas isso, certamente, é puro delírio.

A teoria número 2 é a teoria do Jadeir, que ele faz questão de defender quando bebe nas nossas noitadas, e o Jadeir não bebe pouco. Sua teoria diz que o Maracatron foi descoberto nas escavações que precederam a construção do estádio. Várias pessoas na hieraquia da construção civil presenciaram sua fiação e carapaças metálicas vindo a tona. O Jadeir conta que nunca mais se soube deles depois disso. E aí entra em campo, mais uma vez, o governo americano, que substituiu, um a um, todos os trabalhadores envolvidos nas fundações do Maracanã por pessoas que ele, o Jadeir, não tem coragem de afirmar exatamente o que seriam.

Um clássico dessas noites é história do pedreiro que trabalhou nos primórdios da obra e que foi encontrado na colônia Juliano Moreira, alucinado, balbuciando sobre as poderosas energias liberadas sob o Maracanã. Alegam que ele, na verdade, queria dizer “sobre o Maracanã”, referindo-se a alegria das torcidas. Enfim... Muitos que dizem que trabalharam na obra estão mentindo, mas muitos estão dizendo a verdade. O difícil é saber quem estaria dizendo a verdade ou mentindo. Parece confuso? Nós também achamos, mas para o Jadeir tudo parece muito claro.

A CIA teria, durantes anos, queimado a cabeça dos seus cientistas num tipo de engenharia reversa qualquer, tentando determinar a origem do aparelho e compreender seu funcionamento. Tecnologia alienígena, aborígene ou de um povo antigo e sábio que habitou essas paragens antes que os continentes... sempre antes que os continentes. Segundo Jadeir os índios já faziam referências ao Maracatron nos seus desenhos ritualísticos (heim!?) e que há relatos, sempre os relatos, de antigos viajantes que afirmam ter visto “gente estranha, com roupas estranhas, apressados por aquelas bandas”. Por um segundo, na bruma do álcool, quase acreditamos e o Jadeir parece então um maldito xamã invocando sabe-se lá que hiper-realidades... mas o transe só dura um segundo e logo somos outra vez os idiotas que sabem exatamente o dia em que o Maracatron foi inaugurado. Que isso fique claro.

Andando por aí com uma cara de quem sabe mais do que deveria e a enigmática frase “Quando foi a última vez?” estampada na camiseta surrada, Jadeir defende que o Maracatron sempre existiu. Quando cruzamos nossos caminhos nos corredores estreitos do complexo ele ri para mim e diz que sou seu cúmplice, epíteto que rejeito. Percebo que ele tem acesso a áreas restritas a muitos de nós e não raro o vejo trocando palavras com essa gente fechada, calada, das salas inecessíveis, que parece ter nas mãos mais coisas do que seria prudente entregar-lhes. Tudo, se tratando do Jadeir, parece, sempre, camaradagem. É como se ele fosse aquele detento que conhece os guardas, tem encontros secretos com o diretor do presídio e controla o mercado negro de cigarros.

Hoje gritou de longe para mim que amanhã é dia de final e o estádio vai tremer. Entrou depois com ferramentas e sua inseparável lanterna num dos muitos tubos metálicos que nos cercam, um desses tubos do qual, segundo ele, só se sai do outro lado.


Maracatron: Capítulo 3
Maracatron: Capítulo 1