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Negócio Cabeludo

texto: PATRÍCIA ROCHA
fotos: BETO ROMA

Negócio Cabeludo Negócio Cabeludo Negócio Cabeludo Negócio Cabeludo

Conheça o lado oculto da zona livre de compra e venda de cabelo humano na Praça Tiradentes

Vai cabelo aí, nem?
Quer cabelo, colega? 100% natural!!!
Quer vender?
Toma aqui ó, colocado é R$ 280.
Tá na promoção só hoje, hein!

Ao passar pela Avenida Passos, esquina com a Rua Sete de Setembro, em frente à lanchonete Biarritz, à loja de artigos de macumba Nossa Senhora de Santana e ao prédio mais movimentado da Praça Tiradentes, o espigão número 10, um grupo de garotas de aparência simples, atitude e determinação vai tentar convencer você a fazer um implante de cabelo, mesmo que você não precise. Por uma diária de R$ 10, mais R$ 4 de passagem e outro R$ 1 por cabeça conquistada, as panfletistas são capazes de puxar a pessoa pelo braço, fazer chover anúncios coloridos em cima do pedestre e enfiá-los sem pedir licença nas mãos do passante que, já tonto, só tem uma saída para rapidamente se livrar daquela armadilha: dizer ok, obrigado, vou sim ao salão.

Um desses salões é o Stylus Africano. A recepção é um corredor. Do lado esquerdo, uma vitrine com perucas e penas coloridas; do lado direito, o balcão guardado pelos atendentes Cléber e Leandro. Atrás deles, uma imagem que se repete em muitos estabelecimentos dessa área: na parede, por mais de dois metros de largura, um arco-íris de mechas de cabelos de todas as cores, tipos e tamanhos, do louro liso claro, conhecido como estilo euro, ao enrolado castanho-escuro, passando pelas trancinhas afro em fibra sintética, pelo badalado megaplus queratinado e pelo miojo, o clássico tóin-óin-óin. Todos agrupados numa quantidade média de cem gramas, cada, e embalados por etiquetas que garantem que aquele cabelo é “from Índia”. Sobre o balcão, uma balança Filizola daquelas dos restaurantes a quilo. A bancada nunca está vazia. Em frente tem sempre uma senhora, uma dupla de garotas e travestis querendo saber “quanto é que tá?”. Porque esta é a melhor região da cidade para se pesquisar o preço de cabelo humano para implante.

Todas as lojas anunciam com destaque que o cabelo é “100% natural”. Apesar do macabro da situação — colar no próprio cabelo um outro morto, hidratado, vá lá, mas morto —, o mercado está bem aquecido. E não existe pudor para realizar o sonho estético. O quão natural é o fio determina a cotação da mercadoria. Existe o cabelo 100% natural e o que diz que é, mas não é tanto assim. Ainda o feito com canecalon, o mesmo material usado em cabelo de boneca e em algumas perucas. Mas em geral, quem costuma procurar a Praça Tiradentes quer uma solução mais ou menos definitiva. Ou seja, um implante. Na verdade, uma emenda de fios originais com os novos, adquiridos no comércio, unidos com cola de queratina ou um finíssimo fio elástico. E para um melhor resultado, garantem, o cabelo tem que ser totalmente natural e humano.

Todos os que trabalham ali afirmam que o cabelo vem da Índia. Aos fregueses que, displicentemente, querem saber “de onde vem o cabelo, hein?”, a resposta é padrão e rocambolesca: mulheres indianas realizam uma procissão anual ao seu templo de devoção e, como não têm dinheiro para ofertar ao Buda, doam suas madeixas. Em outros casos, a origem são os cabelos que, diariamente e de forma natural, caem da cabeça. E, “como as indianas são muito limpas em casa”, justificam os vendedores, catam um a um os fios do piso para, ao fim de um ano, vendê-los ou ofertá-los ao templo budista. O templo, por sua vez, negocia essa montanha de cabelos com os fornecedores e estes os submetem a um processo de pasteurização, revendendo-os mundo afora. Inclusive nos salões da Praça Tiradentes. Para quem chega ao Centro louco para renovar a auto-estima, a história sobre a origem do cabelo a ser implantado está de bom tamanho.

A clientela é basicamente feminina. Boa parte dela composta de mulheres que aparecem a primeira vez para fazer o implante e acabam virando amigas das implantistas. E estas contam com orgulho que entre a clientela têm as ricas e famosas que bem poderiam freqüentar os salões na Zona Sul ou no exterior, onde algumas moram, mas só confiam suas melenas às profissionais da Praça Tiradentes. Tem também as nem tão mais famosas assim e que pedem desconto por ainda terem alguma fama. As “primas”, que são as garotas de programa do Hotel Paris, do Hotel Nicácio e da Vila Mimosa. As senhoras com calvície, os gays e, finalmente, os homens carecas. Na opinião dos cabeleireiros, os mais chatos, com um indisfarçável problema de identidade.

Baixo Cabeça
As melhores lojas de venda de cabelo estão na primeira quadra da Sete de Setembro e também no prédio número 10 da Tiradentes. Special Hair, Vigo Hair, Espaço Cabelo, Hair Zone, Brilho dos Cabelos, Fashion Hair... No caminho, um batalhão de mulheres que se revezam batendo perna à procura daquela madeixa que mais combina com seu fio original — ou com o quanto ela pode pagar. No balcão, as vendedoras manuseiam as mechas sem parar, numa espécie de demonstração de força daquele material morto. Enfiam os dedos por entre os tufos e os atravessam ao longo de todo o comprimento com uma dose calculada de violência. Alguns fios caem. Ao fim do dia, o chão fica escorregadio, coberto por esse subproduto multirracial que não chegará a encontrar uma nova cabeça para ser sua dona.

O balcão da Special Hair, a maior loja da Sete de Setembro, tem mais de três metros em cada um dos lados do “L” que forma no interior da casa. Em uma de suas pontas, sentado sobre um banco alto, fica um dos três seguranças; na quina do “L”, um espelho convexo do tipo de estacionamento dá ao vigia uma nova perspectiva, por vezes disforme, dos movimentos daquele amontoado de mãos e cabelos. Não raro, clientes usam faixas ao redor da cabeça, rente à testa, lenços ou bonés. Andréia, funcionária da Special Hair, explica, com um riso contido, que o adereço é sinal de que já expirou o prazo de validade do aplique. Está na hora de trocar. E é sem nenhuma cerimônia que a própria pega nos cabelos castanhos ondulados, com reflexos louros, de uma senhora negra de cerca de 40 anos e ataca:

— Cê tem pouquinho cabelo, né?

— Não! — defende-se a compradora.

— Mas ele parece ralo e volumoso. Para o seu cabelo trabalhar bem, você vai precisar de 200 gramas. Qual o tamanho que você quer?

Meio desconcertada, mas sem muita chance de reclamar, a senhora aponta o comprimento do seu fio maior.

— Mais ou menos esse aqui, ó!

A vendedora desliza sobre os fios espalhados pelo chão e alcança o outro lado do balcão onde estão mechas similares ao cabelo da cliente. Enquanto volta, passa os dedos bruscamente por entre o tufo prestes a ser negociado e mais fios vão ao chão. Com o muito que ainda tem nas mãos, ela mede o comprimento em um metro afixado no balcão, como numa loja de tecidos, e aproxima os novos fios da cabeça da cliente. A senhora se olha no espelho que a atendente lhe oferece, abre um sorriso, diz que “é esse mesmo!”, a vendedora pesa as mechas na balança, tecla rapidamente a calculadora e dispara:

— Esse aqui você pode pagar em três vezes de R$ 141,12.

A cliente faz uma cara de descontente e acaba levando apenas 150 gramas.

Saindo de uma dessas lojas com o sonhado cabelo nas mãos, o próximo passo é ir em busca de um salão que faça o implante. Caso o cliente não tenha nenhuma indicação, vai na sorte mesmo, guiado pelos panfletos. Os salões se concentram nos 27 andares do prédio número 10 da Tiradentes e disputam clientes com os do Edifício Riqueza, na Rua da Carioca, número 9. Mas o ponto mais quente, onde acontece a guerra de panfletos de todos os salões e lojas de compra e venda de cabelo da região, é em frente ao número 14. Lá está o bem-sucedido salão Stylus Africano.

O melhor ponto comercial
De todos os panfletos distribuídos ali, o do próprio Stylus se destaca por ser um cartão de visitas de papel durinho e brilhoso, trazendo a imagem de três lindas negras. No centro da foto está Adriana dos Santos Rodrigues, 31 anos, ladeada pelas irmãs e sócias, Mara Cristina e Elisângela. O salão é uma filial da matriz, fincada no calçadão de Nova Iguaçu. Funcionou durante quatro anos na sala 1502 do prédio 10. Antigamente, o número 14 era ocupado por uma ótica. Observando que o movimento de venda de óculos ali no 14 não ia nada bem, Mara perguntou para o dono se ele não se interessaria em passar o ponto. Proposta aceita. Numa tacada de mestre, o Stylus mudou da salinha escondida no prédio 10 para um espaço mais amplo, no 14, onde está há dois anos.

Adriana conta que a primeira a mexer com cabelo foi Mara:

— Ela tem um talento natural. Então a Mara ensinou a Elisângela. Eu fui vendo aquilo e acabei aprendendo também. Acho que é um dom de família mesmo. Todas as irmãs e também as funcionárias (menos os atendentes Cléber e Leandro) usam implante de cabelo “enroladinho, bem natural, de acordo com a nossa pele”, justifica Adriana. As três ensinam às novas implantistas a técnica desenvolvida por elas “que é para sair tudo igualzinho”. Pelo investimento feito em propaganda, os negócios vão bem. Diariamente, uma chamada de 20 segundos vai ao ar no intervalo do programa da Adriana Bombom, na TV Record. Aos domingos, tem anúncio na revista do jornal “O Dia”. Por estrelar os comerciais, Adriana é reconhecida na rua.

“Espionagem industrial, cumpadi, tá de bobeira!”
Na frente do Stylus Africano, dezenas de moças disputam espaço com a panfletista uniformizada do salão das três irmãs. Uma das mais bonitas é a que distribui a propaganda da Cris Tranças e Implantes. Conhecida como Xuxa, a morena baixinha e magrinha leva o cliente interessado em implante até o salão que ocupa a loja 801, do 10. Esse é o quarto ponto que ocupam Cristina Conceição, 33 anos, seu marido André de Oliveira, 29, e a amiga que não revela a idade, Gislaine da Silva, desde que perceberam que o trio tinha o “dom com o cabelo” e fizeram deste um ganha pão.

Como manda a tradição, Cris aprendeu as primeiras técnicas com a mãe. Com os crescentes pedidos de implante, ela, intuitivamente, começou a adaptar seus pontos de amarração para atender à nova demanda. Quando a moça deu seus primeiros passos no exercício de implantista, foi nos pêlos lisos do sovaco do então namorado André que ela treinava. Ele, por sua vez, mostrou habilidade com o corte de cabelo em máquina. Cris sentiu que o rapaz também tinha o “dom com cabelo”. O namoro e os negócios evoluíram, ela se mudou para morar com ele no Colubandê, em São Gonçalo. André arrancou as portas do armário do quarto, cortou-as em pequenos pedaços de madeira, pegou uma escada e saiu martelando plaquetas pelos postes do bairro. Assim anunciou o novo salão que o casal oficializara em casa.

Queixa comum entre os comerciantes da região, Cris e André dizem que o maior problema do negócio é o fiado e o cheque sem fundo. Uma situação que os persegue desde o início dos negócios, em São Gonçalo. Também foram vítimas de trambiques na sala que alugaram, no centro de Niterói. Mesmo deprimida com a grande quantidade de calote, Cris não titubeou quando se viu diante da oportunidade de negociar uma sala no quartel general dos implantes:

— A minha fornecedora falou que estavam alugando boxes num shopping da Sete de Setembro. Eu vim. O André ficou com medo, o aluguel era caro, R$ 2.000. Dali, consegui uma sala aqui no 10, mais em conta e ponto de referência em cabelo. Eu já vinha aqui com a minha mãe quando tinha 15 anos.

Outro problema dos salões da Tiradentes é o roubo de conhecimento. “Espionagem industrial, cumpadi, tá de bobeira!”, grita um André arredio, com ginga de malandro, calça e blusa sociais impecavelmente pretas ao avistar a reportagem da Zé Pereira e suas inúmeras perguntas. Por duas vezes, tentou alertar os funcionários de que éramos X-9. Na primeira, fez um “X” cruzando os dedos indicadores. Depois, sacolejou os cinco dedos da mão direita e outros quatro da esquerda. O segredo guardado a sete chaves deste tipo de negócio são os nós — cerca de seis, os mais conhecidos. É assunto corriqueiro na área os casos de cabeleireiras de outros bairros da cidade que chegam até a Tiradentes em missão de espionagem, disfarçadas de clientes.

— Os pontos são feitos para durar e não soltar. Mas se a cliente volta reclamando que ele abriu e o cabelo soltou pode ser que ela esteja tentando aprender como é que se faz, nos vendo refazer. Da última vez que isso aconteceu, eu olhei bem pra cara dela e a levei para uma salinha sem espelhos, refiz o serviço, mas ela não viu como o ponto era feito. Nunca mais voltou. Era uma X-9.

Ladrões de cabeleiras
O negócio com cabelos humanos tem também suas armadilhas. Cris conta que, por dia, recebe a visita de umas seis meninas interessadas em vender suas mechas. Vez ou outra, a visita é mórbida: alguém cuja mãe morrera e o cabelo, que não serviria para mais nada, foi cortado para ajudar nas despesas do funeral. Recentemente, o apresentador Gugu Liberato promoveu em seu programa de TV um leilão de cabelos humanos no qual chegou a pagar até R$ 3 mil por um bom tufo. O alto valor pago pelos fios provocou uma corrida aos salões da Tiradentes. Só que o mercado não é tão aquecido assim.

— O cabelo humano à venda no Centro do Rio vale de R$ 40 a R$ 200. O importado, da Índia, é mais barato e já vem tratado — conta Adriana, do Stylus Africano. — Eu até pago bem, mas agora estou começando a importar e vou poder cobrar mais barato pelos fios. Quando tem tsunami é ótimo porque as pessoas têm que vender o cabelo pra sobreviver né, fazer o quê?

Apesar de existir como lenda urbana há muito tempo, o negócio de compra e venda de cabelo entrou de verdade no imaginário dos cabeludos quando surgiram os casos de roubo. O Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro não possui estatísticas do delito, mas no verão passado a cidade se assombrou com o caso da vendedora Mirna Marchetti, única vítima de um assalto ao ônibus 928 (Marechal Hermes-Ramos): roubaram-lhe, com uma só tesourada, a linda e longa cabeleira castanha que cultivava há quatro anos. O caso foi registrado na 22ª DP, na Penha. Em dezembro de 2006, uma moça também teve seus cabelos roubados numa lanchonete da Ilha do Governador. Não prestou queixa.

Na época, Kátia Amorim, gerente das Perucas Lady há 30 anos, disse à imprensa que o crime havia sido planejado:

— Isso é encomenda. Alguém vai fazer interlace e pediu o tipo de cabelo que foi cortado. O bandido vai vender por, no máximo, R$ 50 e o cabeleireiro vai cobrar R$ 500 pelo serviço.

Os fornecedores das Perucas Lady são do interior de Minas Gerais e de Mato Grosso. No Rio, afirma Kátia, os cabelos não têm qualidade por conta da exposição à água do mar e ao sol. Nadando contra a corrente, a badalada rede Fiszpan, que produz e vende perucas, não utiliza cabelo humano. A dona da rede, Solange Fiszpan, diz que usa fibra sintética por esta ser uma tendência internacional, ter melhor aceitação e caimento bonito. Sem falar que assim dá para saber com certeza a origem do material usado, pois há um golpe comum no mercado: dona Zenaide (do salão Zenaide e Filhas, que fica no Edifício Riqueza) relata ter passado maus bocados quando caiu no conto do “rabo de pônei” — pêlo de cavalo vendido como humano.

O “dom” do cabelo
Nesse mundo onde todas sonham com cabelo, o conhecimento é prático, passado com honrarias de família e aura mística. Todos os entrevistados se referiram a seu talento como um “dom” e ele vale mais que qualquer coisa, mais que os mais bonitos cabelos à venda no mercado globalizado. Cris chama seu salão de ateliê e tem carteirinha do sindicato como artesã e tudo — “Artesão peruqueiro: a função exata é essa”, define. Mas nesse meio, onde nunca se usa a expressão “aplique”, é chamado de implantista o profissional que faz alongamento, megahair, entrelace, microtrança, fio solto, fio puxado, fio solto duplo e o que mais inventarem de técnica para colocar mais cabelo nas cabeças dos outros. Mesmo não sendo uma inserção de um bulbo de fio dentro do couro cabeludo, o nome “implante” é domínio público e dignifica a prática.

Afinal, é quase uma cirurgia plástica que se opera no visual das clientes. André gosta do exemplo da menina que entra “neguinha” e que sai de lá “morena”. Cris conta que “a coisa mais comum é que as mulheres surtam quando colocam um cabelo novo”. Adriana, da Stylus, lembra de uma cliente que “fez 50 anos, colocou implante e foi pular de asa delta, até trouxe o vídeo para a gente ver!” Zenaide se emociona ao lembrar da senhora que queria arrumar o cabelo que havia sido mal implantado em um outro lugar e que após a correção e aplicação de um novo acabamento, vendo o resultado, começou a chorar e quase desmaiou.

André tem até um “Guiness Book” das performances mais loucas que as mulheres já foram capazes depois de “implantadas”: a mais impressionante, diz, foi o caso de uma menina que saiu do salão tarde da noite, pegou o primeiro táxi que passou em frente ao prédio 10 e sumiu. Reapareceu quatro dias depois para terminar o casamento com o marido, pegar suas coisas e ir embora. Mudou-se para a casa do taxista, seu novo namorado.