Revista Zé Pereira
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Nossa Capa

foto: GUSTAVO STEPHEN
texto: ESTEVÃO GARCIA

Pereira

O grau de parentesco de Joaquim José Pereira, o Pereira, com a nossa revista vai além do nome: ele também é zelador do Edifício Hicatú, onde funciona a Zé Pereira. Cantor de elevador de primeira, apreciador de bons, antigos e raros vinhos e boa-praça, Pereira topou na hora posar de limpador de pára-brisa de sinal para a nossa capa.

Zé Pereira: Onde você nasceu e como veio parar no prédio Hicatú?
Pereira: Nasci em Pombal, na Paraíba, há 55 anos. Tinha 20 anos quando vim ao Rio à passeio, já que o meu irmão já morava aqui. Ele trabalhava como zelador no Hicatú. Eu acabei ficando na cidade e fui trabalhar como zelador em um outro prédio, também no Flamengo. Passou um ano, meu irmão saiu do Hicatú e eu entrei no lugar dele onde estou há 34 anos. Comecei como zelador no Hicatú no dia 1º de novembro de 1973.

Zé Pereira: Você também é cantor, né?
Pereira: Canto somente durante o trabalho. Gosto de música da antiga: Agnaldo Timóteo, Nelson Gonçalves, Ademar Dutra, Silvino, Paulo César, Reginaldo Rossi. Nunca tive oportunidade para cantar em um outro lugar, nem em festas, nem em casas de show, se me convidarem é claro que eu aceitaria. Mas aí, eu teria que treinar um pouco. Treinando, fica melhor.

Zé Pereira: Quais são as suas músicas preferidas?
Pereira: “A volta do boêmio”, de Nelson Gonçalves, “Neste corpo negro” de Reginaldo Rossi, “Recebas as flores que eu te dou”, de Nilton César, e muitas outras que eu não estou me lembrando agora. Eu gosto das letras, as histórias que elas contam não tem nada que ver com a minha vida não. Pra mim, é mais um esporte.

Zé Pereira: Pra você, quem tem o maior repertório da música brasileira?
Pereira: Waldik Soriano, o que canta aquela música “Eu não sou cachorro não...”. Ele tem um dos grandes repertórios, sem dúvida, tanto em quantidade quanto em qualidade. Todas essas músicas e cantores eu já ouvia na minha terra. Nenhum deles eu conheci aqui. Naquela época tinha uma infinidade de bons cantores. Pode anotar aí, daqui a mil anos se alguém pegar uma dessas músicas e gravar, vai fazer sucesso. Não tem erro. Esses cantores e essas músicas são eternos. Você vê, até o Roberto Carlos, que tem voz de cachorra parida, vai ficar pra sempre porque ninguém faz como ele.

Zé Pereira: E o gosto pelos vinhos?
Pereira: Aprendi com o vinho Macedo do Porto. O português fabricante de vinhos João Macedo de Carvalho Júnior morava aqui, morreu há 66 anos, mas sua família ainda vive aqui. Ele colecionava e fabricava vinhos, quando sua fábrica fechou, ele tinha muito dessas. Ficaram todas pros herdeiros como relíquia, mas como não foi feita a troca da cortiça, recomendável de 20 em 20 anos, os vinhos se avinagraram. Avinagrado não vale nada. Mas volta e meia eu encontro um bonzinho, bonzinho. Agora mesmo, estou tomando um de 1805. O mais antigo é da safra de 1805 e o mais novo da de 1903. Tinha até uma caixa fechada de uísque White 69, que não se fabrica há mais de 30 anos. Mas uísque não dá. Eu já tomei umas 12 garrafas de vinho e ainda tenho uma fila guardada.