Revista Zé Pereira
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As aventuras de um Zé Pereira

Capítulo 1: Sujeito-homem

Marcelo Moutinho

Zé Pereira se diz sujeito-homem. Desde que entreouviu a expressão durante uma briga num boteco lá da Rua São José, é assim que apresenta suas credenciais. “Muito prazer, Zé Pereira, sujeito-homem”, e abraça o interlocutor de forma abrupta, colando a orelha no peito do sujeito, num movimento peculiaríssimo que acabou por lhe conferir o apelido de Cardiologista.

Não que o tal Zé Pereira seja um desses tresloucados machistas que ameaça de pancada os gays bombados da Farme. Ele se define como sujeito-homem do mesmo modo que chama alguém de “malandro-berimbau”, ou cola na testa de um terceiro a temida alcunha de “Zé Ruela”. Pois como indivíduo típico do Rio de Janeiro — aquele que nasceu no subúrbio e se submeteu à transculturação na Zona Sul —, Antônio José Pereira da Silva é sobretudo um observador, que cata as sobras da estranha língua falada pelos cariocas para temperar o próprio vocabulário.

De Cascadura, o bairro-natal, guarda a moral rígida, a paixão pela Portela e o gosto por beber em pé na calçada até que o dono do bar lhe jogue água nos pés. Em Copacabana, onde já mora há quase dez anos, aprendeu entre outras coisas a pegar jacaré — e que não fica bem ir à praia com o short do Botafogo.

Mas se Zé Pereira é de fato sujeito-homem, essa macheza tão decantada derreteu como açúcar em fogo alto quando, naquela fatídica sexta-feira, ele entrou no Nova Capela. Já fazia algum tempo que não esticava a madrugada no tradicional restaurante da Avenida Mem de Sá, pelo menos desde que lá proibiram o cigarro por causa do ar refrigerado. Não, Zé Pereira não é exatamente um tabagista inverterado. Mas ele gosta de fumar quando bebe, e ter de ir para a rua quando quer inalar um pouco de nicotina é algo que o irrita profundamente.

Zé resolveu tomar a saideira no Capela porque estava com saudade do Cícero. E foi seu garçom preferido que encontrou logo após empurrar a porta. Ao vê-lo, Cícero não esboçou o habitual sorriso com que recebe os clientes mais queridos. Pelo contrário: seus olhos pareciam transpirar, alarmados. A explicação se deu à medida que o garçom o carregou, com certa rispidez, na direção do banheiro. Respondia pelo nome de Cláudia.

Cláudia, a morena que Zé Pereira conheceu num quiosque de Copacabana no crepúsculo de um domingo de Páscoa. Cláudia, a mulher com quem morou brigou transou durante dois anos. Cláudia, com quem não esbarrava desde o traumático final, no flagrante da moça trocando beijos com o salva-vidas dentro de um Fiat Uno vermelho.

A demora fez com que Cícero fosse chamado pelo gerente. Os fregueses reclamavam sua presença, e Zé ficou sozinho no banheiro. Estaria acompanhada? Teria visto quando ele entrou? As perguntas que o garçom não soube responder conviviam com a dúvida maior: devia ou não permanecer no Capela?

“Sou sujeito-homem”, disse então a si mesmo, encarando o espelho do lavabo. E decidiu ficar. Mais: iria até a mesa de Cláudia e daria boa noite, com toda a educação. Zé passou um pouco de água no rosto, secou com a toalha-papel e, com a coragem refeita na face, voltou ao salão.

Assim que entrou, avistou Cláudia numa mesa de canto. As mechas do cabelo, agora louro, não impediram que a reconhecesse. Continuava bonita, apesar dos anos passados. E o semblante parecia mais sereno. A visão de Cláudia abriu sua caixa de lembranças. Foi como um alfinete que fura levemente a couraça: seu corpo começou a esvaziar-se.

“Zé!”, ele ouviu alguém falar, mas continuou fechado em si.

“Zé!”, a voz insistia.

Era Cláudia, que acenava insistentemente com a mão esquerda. Apesar da distância, Zé Pereira pôde notar a aliança em seu dedo anular.


As Aventuras de um Zé Pereira: Capítulo 2
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