Revista Zé Pereira
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Embarque

Eu Falo

Patrícia Evans

Eu que reclamo estar sempre a mil,
sempre só e às voltas com problemas,
deveria prestar atenção nos fonemas
— não só nos do puta-que-me-pariu,
que me saem da goela quando era um suspiro —
mas nos da outra boca que não sabe palavrar,
que não pensa ou filosofa e que enfio
escondida em calças mais que surradas.

Eu, que queria dizer “obrigada”,
quando tento sai “caralho!”
Que queria dizer “eu te amo”,
abro a boca e “que se foda!”.

Que devia medir as palavras,
digo-as tortas, inteiras e todas,
que devia revirar os olhos,
balançar a bunda empinada
em lordose mais que forçada,
fecho os olhos de impaciência,
ando ereta e correta
e não jogo os cabelos pro lado,
porque são loiros e longos,
mas os prendo em simples rabos.

Eu, que quando me calo
escorrego ainda um “merda”,
devia arreganhar as pernas,
que o problema todo é — falo!

Mais poemas de Patricia Evans em http://sanidaderelativa.blogspot.com