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Crônicas do Rio

O CAÇADOR DE BARANGAS

Sidney Garambone
Editora 7 Letras, 2000

Sidney Garambone é carioca, jornalista e escritor. Formado pela Escola de Comunicação da UFRJ, trabalhou nos jornais “Tribuna da Imprensa”, “O Dia”, “Jornal do Brasil” e “O Globo”, e atualmente é o editor-chefe do programa “Esporte Espetacular”, da Rede Globo. É autor dos livros “O caçador de barangas e outras pequenas histórias” (7 Letras, 2000), de onde extraímos o conto “Doce guerra”, “A Primeira Guerra Mundial e a imprensa brasileira” (Mauad, 2003) e “Eu Deus” (Record, 2006).

Doce guerra

— Cuidado para não ser atropelado!

— Tá, mãe — disse e bateu a porta.

Morava no 810. O corredor era longo e os elevadores ficavam perto dos apartamentos 801, 802 e 803. Não correu em disparada, como sempre fazia, fingindo ser um especialista nos 100 metros rasos. O dia era especial. Era um dia de guerra. E Carl Lewis já se aposentara.

Foi andando lentamente. 809, 808, 807...

Parou. Checou os equipamentos. Uma mochila, duas sacolas de plástico dentro da mochila, moedas, boné e um par de óculos roubado da gaveta do pai. Óculos velhos, claro. 806, 805...

A chave do cadeado da bicicleta. 804. A camiseta preta. Os elevadores. Tocou. Esperou. Chegaram.

Pegou o de serviço. Lembrou que não havia espelho nas paredes do elevador. Evitou com os pés que a grade fechasse, voltou e entrou no social. Quase o perde, chegou a machucar as mãos na porta pantográfica.

Mantenha-se afastado, sempre disse a plaquinha prateada. Desde que aprendera a ler, há alguns anos, costumava passar o tempo dentro do elevador lendo o familiar aviso, enquanto o térreo não surgia sob os pés. “Atenção. Porta pantográfica, mantenha-se afastado. Capacidade licenciada 6 passageiros ou 520 kg. A utilização acima destes limites é perigosa e ilegal, sujeitando os infratores às penalidades da legislação.”

No começo, lia uma frase. Depois outra e mais outra, até ler a mensagem inteira. Compreendê-la já eram outros quinhentos.

No elevador social, mirou-se no espelho. Camiseta branca com um surfista estampando a cara de mau. Atitude! Ou babaquice. Parecia até que já surfara alguma vez na vida. Bermuda verde, com bolsos largos e Bamba branco, sem meias.

Surfara sim. Pelo menos em seus delírios, ir para o meio da sala de jantar, girar sem parar sobre o mesmo eixo e depois pular em cima da prancha de isopor da natação, tentando se equilibrar, era o mesmo que deslizar sob tubos gigantescos em qualquer praia do Havaí. O elevador parou no 4o andar. Azar. Andar do Seu Mauro. Azar mesmo. Seu Mauro entra no elevador.

— Paulinho, há quanto tempo. Tudo bem, rapaz? Como está grande. E seu pai? Que coisa, menino, parece que foi ontem, te peguei no colo e já está desse tamanho.

Chega, portaria, chega, porcaria. Chegou a portaria. Inacreditável. Ou Seu Mauro brigara de vez com a memória ou era um jumento. Todas as vezes que encontrava Paulinho era a mesma ladainha. Como cresceu, te peguei no colo, como vai seu pai...

— Tchau, Seu Mauro! — chispou portaria afora.

Perguntou as horas ao faxineiro Raimundo. Nonato, claro. Nove e meia da manhã. Bom horário. Pegava no colégio à uma da tarde. Já fizera todos os deveres de casa na noite anterior. Tinha que estar em casa meio-dia para banho e almoço. Olhou para o outro lado da rua. O sol forte ofuscava um pouco a visão. Depois do almoço tem que escovar os dentes.

— Oi, Paulinho — diz uma das dezenas de velhas corocas moradoras do prédio.

E que já o pegaram no colo.

Absorto, nem cumprimentou. Os sons do dia já davam o ar de sua graça. Freia forte o ônibus, grita o garrafeiro e afina a faca com um agudo espetacular o português amolador. A molecada adorava implicar com ele.

— Não amola, seu Manel! — e saíam correndo.

Súbito, um neguinho sem camisa passa correndo com uma sacola parda de supermercado na mão. Direita.

Mão direita. A mão sagrada da punheta.

Paulinho se benzeu. Como sempre, de forma errada. O Pai na testa, o Filho no peito, mas o Espírito, sempre o Espírito, insistia em ir para o lado direito, fazendo o Santo parar no esquerdo. Espírito de porco. Amém.

Era dia de guerra.

E saiu correndo atrás do moleque.

Esperou o 434 passar, atravessou a rua Senador Vergueiro e já começou a ouvir a turba infantil atrás de seus calcanhares:

— É na Marquês do Paraná!

E nem sinal do Rômulo.

Melhor assim.

Correu desesperado, se desviando das velhinhas, dos engravatados, dos carros que saíam das garagens, dos camelôs começando a armar suas barracas. A garotada desesperada já ultrapassara até mesmo o 434, que foi obrigado a parar no sinal. O 434 é um ônibus que leva gente do Grajaú ao Leblon e vice-versa. Carroceria totalmente pintada de cor de abóbora, rivaliza com o vermelho-fogo do 438 pela atenção dos turistas e cariocas. Também conhecido como abobrão, o 434 presencia há anos as tristezas e alegrias das torcidas de Flamengo, Vasco, Botafogo e Fluminense que moram na Zona Sul e voltam do Maracanã dependuradas nas janelas familiares do tal ônibus. O bom e velho 434.

Marquês do Paraná! Vamo que vamo, Brasil! Um moleque lourinho, descalço e segurando os chinelos de dedo com as mãos, ultrapassa Paulinho, que por sua vez ultrapassa o gordinho filho do jornaleiro. Nosso herói insandecido derrapa com o Bamba, desvia do poste pichado, esbarra no orelhão depredado e dobra qual um louco a esquina da Marquês do Paraná com a Senador Vergueiro. Os transeuntes olham assustados a petizada infernal. Paulinho avista, ao longe, o bololô de crianças no prédio antes do posto de gasolina Nina, que faz esquina com a Marquês de Abrantes. Já tem muita gente, desta vez a notícia se espalhou rápida. O tal lourinho escorrega na calçada e leva um estabaco histórico, que entra para os anais do bairro do Flamengo. Uma senhora, de robe e lenço no cabelo, que tesão, se debruça no parapeito da janela para ver a banda passar. Em vez da banda, doze garotos correndo.

Susto. Rômulo já está lá no tal prédio. Desgraçado. Paulinho corre mais, ultrapassa o lourinho descalço, prejudicado por causa do joelho ralado sangrando, e já chega berrando:

— Eu, tia, eu, tia!

Rômulo acabara de pegar um saquinho. Esbanja um olhar satisfeito. Paulinho estica a mão, não pega nada. Nisso, o rival já começa a andar na direção da Marquês de Abrantes marotamente, sabendo que está sendo vigiado. Quando Paulinho se vira para a senhora que distribuía os saquinhos, Rômulo percebe e dispara.

— Brigado, moça — diz Paulinho e sai empurrando a molecada.

Dá tempo de olhar o conteúdo. Não é fuleira, mas também não é de responsa. Uma cocada branca, pé de moleque de caixa, suspiro, pirulito Zorro, três balas Juquinha, Banda, drops Dulcora e um apito. Fecha o saquinho, abre a mochila, joga ele dentro e sai na direção que Rômulo tomou. Chega na esquina, olha para um lado, para o outro. E nada. Rômulo sumiu. Não que precisasse ficar atrás dele o tempo todo, mas as experiências anteriores mostraram que era um adversário a ser monitorado o dia inteiro. Senão, babau.

A guerra era pior do que imaginara.

Pensou e chegou à conclusão de que ficar por ali poderia ser perigoso. A Marquês do Paraná é uma rua próxima ao Morro Azul, uma favela relativamente tranqüila que fica atrás da estação Flamengo do metrô. Entretanto, alguns pivetes do morro poderiam descer em grupo e roubá-lo, destruindo um dia inteiro de trabalho e um mês de planejamento. Pura paranóia. Heresia roubar doce de outro em dia de São Cosme e Damião. Até a pivetada sabia disso e ficava mais preocupada em conseguir saquinhos também. Resolveu ir andando pela Marquês de Abrantes até a Praia de Botafogo. Quando passou em frente ao edifício Bancários, que interligava Senador e Marquês através de uma galeria comercial furreca, avistou uma senhora saindo do prédio. Ao lado dela, um porteiro bigodudo e mal-humorado, trajando cinza, suando e carregando uma sacola pesada.

Excitado, Paulinho olhou em volta. Adrenalina a mil. Do outro lado da rua, sentados no canteiro em frente à loja de ferragens, alguns moleques já comiam o fruto dos saquinhos. Manteve a calma e se aproximou da portaria. Batata.

Doce.

— Quer doce, meu filho?

— Quero sim senhora! — escancarou o sorriso e abriu a mochila. Tchuf. Mais um saquinho.

Agradeceu e desceu apressado as escadas da portaria. Cinqüenta metros, seus calcanhares ouviram um berro infantil:

— No Bancários, tem lá uma mulé distribuindo!!!!

E tome correria e gritaria. Nada de Rômulo.

Na frente da padaria Benamor, uma moça distribuía bandeirinhas do Brasil com a imagem dos dois santos irmãos. Paulinho esnobou. O negócio é saquinho de Cosme e Damião, o resto é confete. Como tomara um café da manhã reforçado, não perdeu tempo em provar os doces que ia colecionando. A mochila ainda estava leve.

Resolveu arriscar e se embrenhou pela Clarice Índio do Brasil, desobedecendo as recomendações da mãe, que estabelecera uma zona limítrofe e imaginária para o filho brincar. E a Clarice já estava bem além desta zona. Sorte do moleque, uma garota morena, cabelos escorridos, olhos esbugalhados, buço por fazer e fisionomia frustrada vem em sua direção. E oferece um saquinho.

— Quer? Um senhor me deu ali nas Sendas mas não posso comer doce. Sou diabética.

— Brigadão, moça! Melhoras.

A garota sorriu com a ingenuidade.

Pausa para explicação geográfica. A Praia de Botafogo, como o nome já diz, é uma bela de uma enseada, moldura do Rio de Janeiro, com pistas de velocidade alta e moderada. A Senador Vergueiro é uma rua comprida, importante, que sai da praia em direção ao Largo do Machado. Já a Marquês de Abrantes é paralela a Senador e tem sentido contrário, ou seja, desemboca na Praia de Botafogo. A tal Clarice Índio do Brasil é uma rua que sai da Marquês de Abrantes e adentra o bairro do Flamengo. O supermercado Sendas fica na rua Barão de Itambi, que faz esquina com o tal Índio. Do Brasil.

De volta aos saquinhos.

O moleque pegou o que a diabética lhe dera e já saiu voado na direção das Sendas. Dose dupla. O tal senhor que dera o saquinho para a garota estava parado ao lado da banca de jornal. Ano passado ele já tinha distribuído alguns para as crianças do bairro.

— Moço, ainda tem doce?

— Ih, meu filho, acabou.

Nada de lamentos. Perda de tempo. Bola pra frente.

— Então brigado, feliz Cosme e Damião para o senhor. Fique com Deus.

Tática cruel e perfeita.

— Peraí, menino! Ô Caruso, dá esse saco do teu filho aí que depois eu busco lá em casa e reponho. Toma! — disse, tirando o doce do filho do jornaleiro.

Ninguém resiste a um menino educadinho.

Menos de meia hora ralando na rua e quatro saquinhos. Tá bom.

Olha o Rômulo ali!

— Rômulo! — berrou.

— Agora, não, Paulo — respondeu o outro no meio da correria.

E lá foi Paulinho atrás. Dessa vez não eram saquinhos. Tinha gente que preferia dar bolas coloridas. De plástico duro. Perfeitas para peladas homéricas nos plays-grounds da vida.

Homero jogava bola?

Pegou uma amarela e vermelha.

Rômulo ficou com uma azul.

— Vai querer fazer a contagem agora? — perguntou Paulinho.

— Nem pensar. Tchau.

E tome correria.

Hora do plano.

Paulinho começou a andar de volta ao seu prédio, no começo da Senador Vergueiro. Foi pela Farani já pensando em pegar a Praia de Botafogo. A pracinha costuma render vários sacos. Em frente à Fundação Getúlio Vargas, viu duas irmãs distribuindo doces. O clima era tranqüilo. Foi, pegou um saquinho. Na entrada de serviço de um prédio sem garagem, trocou de camisa, pôs os óculos, o boné e voltou. As duas irmãs não perceberam que era o mesmo moleque. Mais um saquinho. Era um truque simplório e primário, mas na confusão poucos percebiam que Paulinho era Paulinho e vice-versa.

Seis. Ainda faltava muito. Ano passado foram 25 saquinhos e uma bruta dor de barriga. O piriri durou três dias.

Manteve o disfarce e atravessou a rua no sinal. Destino: pracinha.

Na gangorra azul e amarela, uma garotinha descansava e comia doces.

— Oi, dá licença. Quem te deu esses doces?

— Aquele velhinho lá embaixo, olha lá ele — disse apontando para um senhor que caminhava com dificuldade a uns cem metros dali.

— Brigado!

Enquanto corria, um pensamento começou a surgir. Ele nem estava mais ligando para os doces. O importante era saquinho, saquinho, saquinho. Pura acumulação de capital. Tão novo e marxista.

O tal velhinho usava paletó, gravata, tinha uma barba branca enorme e um bigode felpudo. Não. Esse é Marx.

O velhinho da pracinha carioca tinha um chapéu preto, paletó idem, bengala e carregava uma sacola de plástico branca.

Em nenhum momento Paulinho pensou em chamá-lo de vovô.

Tática.

— Moço, o senhor ainda tem doce?

— Ah, que bom, meu filho. Leva tudo isso aqui.

Uau. Deixa o Rômulo saber disso. A sacola do velho tinha ainda uns três sacos.

Nove.

Acelerou o passo, pegou a Senador Vergueiro novamente, catou mais um saquinho aqui, outro ali e chegou ao prédio onde morava. Desceu a rampa da portaria de serviço. Abriu a porta do bicletário, bicou uns velocípedes, fez barulho, xingou a zona e pegou a bicicleta. Dezoito marchas. Presente do natal retrasado. Tirou o cadeado, colocou a mochila nas costas, subiu a rampa e foi à luta.

Perfeito. Novas fronteiras o esperavam. Perguntou as horas ao porteiro.

Dez e meia.

Pedalou, pedalou, pedalou pela orla da praia e foi parar na rua São Clemente, em Botafogo. Chegou e já avistou uma turba de moleques correndo na direção da estação do metrô. Tomou um susto. Zeca Pagodinho, o próprio. O sambista carioca, ídolo da Maria, nascido no Irajá e morador de Xerém, tinha ido pôr a voz no seu último disco e como o estúdio era em Botafogo, Zeca tratou de trazer uma penca de saquinhos de Cosme e Damião. Não dera tempo de distribuir em Xerém, levou os doces para a Zona Sul.

Sucesso total, saquinho alto nível.

Pedalou mais um pouco, encontrou um porteiro distribuindo alguns. A madame do sétimo andar pedira. Pegou mais um. Ficou meia hora na área e contabilizou 17 saquinhos ao todo.

Voltou voando. Voluntários da Pátria, Praia de Botafogo, Marquês de Abrantes, idéia brilhante.

Já eram onze e meia da manhã.

Só tinha 30 minutos.

Em cinco estava em frente ao depósito de doces Belavista, no Largo do Machado. Aprendera na festa de casamento da prima Ângela, há dois sábados, que o grande lance era ficar na porta da cozinha. Salgadinho garantido. Transportou o conceito para o dia 27 de setembro e ficou na porta da loja de doces. Acertou na mosca. As senhoras iam entrando, fazendo compras e muitas, com a ajuda dos funcionários, já recheavam os saquinhos ali mesmo. Quando saíam da loja, tchan, lá estava Paulinho com a mãozona esticada.

Foram dez sacos instantâneos.

Vinte e sete ao todo.

A mochila parecia chumbo.

Deus meu. Hora de ir para a escola. Paulinho montou no camelo e disparou cambaleando na direção de casa. A mochila pesava em suas costas. No caminho, faturou mais três sacos. Recorde estabelecido. Trinta saquinhos. E um tombo a menos de cinqüenta metros de casa. Ralou a canela, praguejou, se arrependeu, fez o sinal-da-cruz e pediu perdão a São Cosme e São Damião.

Chegou em casa, tomou uma bronca seguida de uma boa notícia.

— Tá maluco, senhor Paulo? Já para o banho. Almoço está na mesa. Suas tias passaram aqui e deixaram três saquinhos de Cosme e Damião para você — ralhou a mãe.

Era a glória. Trinta e três saquinhos.

Tomou um banho muito do chinfrim, almoçou, guardou os sacos e a mochila no canto da sala e foi para o colégio.

Correu, a escola era perto, em dez minutos já estava sentado respondendo à chamada.

— Marco Aurélio?

— Presente.

— Orlando?

— Oi!

— Paulinho?

— Presente!

— Priscila?

— Eu.

— Ricardo?

— Aqui!

— Rômulo?

— Presente, fessora.

Os olhos se cruzaram. Paulinho olhou Rômulo que olhou Paulinho. Foi assim a aula inteira. Durante o recreio não se falaram. Mais aula. Mais olhares. Fim de aula. Os dois não aprenderam nada. Na saída, a combinação:

— Seis da tarde no play do Marcelo.

— Fechado.

A mãe de Paulinho não entendeu. O garoto chegou correndo do colégio, trocou de roupa, pegou os doces e antes de sair, profetizou solene:

— Mãe, o destino do mundo será traçado nos próximos 15 minutos.

Deixou o prédio, pegou a avenida Oswaldo Cruz, paralela à Senador Vergueiro. Entrou no prédio do Marcelo. Avisou ao porteiro que ia para o play. O porteiro avisou que Rômulo já subira.

Sorriu confiante.

Marcelo tinha viajado para Araras.

Mas o porteiro já conhecia a turma toda de outros carnavais.

Rômulo estava sozinho ao lado do trepa-trepa.

— Oi!

— Oi, ué!

— Vamos contar logo, propôs Paulinho, que começou.

Como demorou aquela contagem. É um, é dois, é dez, é vinte, é vinte e seis, é trinta e três!

— Trinta e três? — se assustou Rômulo.

— Pára de papo e conta logo os seus.

Um, sete, onze, quinze, vinte e cinco, trinta, trinta e três!

— Empatou! Não é possível, você roubou — reclamou Paulinho.

— Quem disse que empatou? — retrucou Rômulo enquanto subia a camisa com as mãos e mostrava um saquinho amassado preso entre o umbigo e o short.

Silêncio.

— Ganhei.

Lentamente Paulinho passou todos os seus saquinhos para Rômulo.

Segurou a lágrima. Uma lágrima dura, amarga, dolorida, feita mais de ódio que tristeza. Levantou, foi indo para o elevador cabisbaixo. Mal mesmo.

De repente.

Rômulo o chamou.

— Paulinho, quer um pirulito, pelo menos?

Por incrível que pareça, soou honesta a oferta. Claro que não seria um saquinho inteiro ofertado. Guerra é guerra. Ninguém conquista a Turquia e oferece Istambul aos inimigos por polidez.

Paulinho achou bonito o gesto do amigo, outrora inimigo. Segurou o choro, voltou meio sem graça e esticou a mão. Uma lição de vida. A solidariedade, mesmo entre rivais, brotando pequena e esperançosa.

— Quero sim.

— Mas eu não dou.

Rômulo riu sozinho.

Riu não. Gargalhou.

Paulinho, aos doze anos de idade, só chupou uma coisa no dia de São Cosme e Damião.

Os próprios dedos.


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