29 de junho de 2009
Não me inveje, trabalhe
Por Arnaldo Branco
Fui esses dias em um debate com o cineasta Michel Gondry e fiquei impressionado com o número de perguntas do naipe “como você conseguiu”? Imaginando que ali só houvessem admiradores do trabalho do cara, calculava que todos deveriam saber a resposta.
É a mesma que Noël Coward deu muitos anos atrás, quando perguntaram como explicava seu sucesso como dramaturgo, ator, cantor, compositor e romancista - ele suspirou, olhou para o céu e soprou: “talento”. Mas entendo o que os argüidores queriam saber. Eles queriam saber como Gondry tinha conseguido superar a massa cinza e dura formada por gente insensível que separa o artista (vários se anunciaram como cineastas quando pediram a palavra) de sua glória.
Esse tipo de dúvida trai a idéia de muitos - de que, com um pouco de recursos e atenção, o artista em potencial provará seu valor e passará a formar com o time dos que dão palestras. Uma certeza que, partilhada por tantos, vai de encontro às estatísticas da manifestação do talento no mundo. É uma boa postura para quem realmente tem um dom genuíno, ou pelo menos um esculpível, mas é fatal para quem ainda precisa comer muito feijão.
Trabalhar com criação tem esse lado cruel; é preciso ter alguma dose de reconhecimento para se poder, efetivamente, trabalhar. Mas o reconhecimento tem mais caminhos misteriosos que a vontade de Deus, e talvez Ele seja mesmo o responsável pela distribuição nada equânime do artigo.
Sei que isso é clichê geralmente repetido por pessoas que atingiram um certo grau de estabilidade e, lá do alto de seu paternalismo, jogam esse conselho como uma migalha para os famintos. Mas como não atingi tal estabilidade, trabalho em uma arte considerada menor e minha torre de marfim é um conjugado de zinco, acho que estou podendo: o pior jeito é tentar demais.
Tanto no campo sexual como no artístico, a ansiedade pelo sucesso reduz as suas chances. Aliás, almejar o sucesso é um erro estratégico, não se envergonhar do que você faz já é puta bom começo.
8 comentários para “Não me inveje, trabalhe”
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29 de junho de 2009 às 17:24
Bacana, no ângulo.
Eu ia escrever “É isso aí”, mas achei que seria redundante.
29 de junho de 2009 às 23:03
mto. bom…ahhahahaha jogou a real como poucos
30 de junho de 2009 às 5:16
Arnaldo, sou colecionador de frases e essa aqui abaca de ir para o meu arquivo:
Tanto no campo sexual como no artístico, a ansiedade pelo sucesso reduz as suas chances. Aliás, almejar o sucesso é um erro estratégico, não se envergonhar do que você faz já é puta bom começo.
Parabéns pela lucidez do texto, apesar do título clichê. Gostaria que você viesse à Paraíba autografar meu livro do Capitão Presença. =)
30 de junho de 2009 às 20:45
[...] Minha coluna Mal Necessário para a Zé Pereira: Não me inveje, trabalhe [...]
1 de julho de 2009 às 0:09
1) “Trabalho” vem do latim “tripalium”, um instrumento de tortura romano constituído por três paus. 2) Se trabalho fosse honraria, burro andava com medalhas 3) Leia “A Abolição do Trabalho e a Revolução Lúdica” do Bob Black (um dos poucos anarquistas realistas que conheço)
1 de julho de 2009 às 10:42
Ler que é bom, nada.
1 de julho de 2009 às 11:55
Taí um cara que presume pra caramba. já vi idiota isolar um paragráfo ou idéia para desmerecer um texto inteiro - mas usando 1/3 do título é a primeira vez. Parabéns, gênio.
1 de julho de 2009 às 15:47
Mesmo com talento é necessário esforço e bom emprego do tal talento. Mesmo assim existem chances de não ser recompensado. Mas a maioria das pessoas trabalham demais e tem pouco talento para o que fazem. Estou contigo: importante é conseguir trabalhar (em algo não vergonhoso), sem muito esforço, sem almejar longe demais, contanto que não esteja desperdiçando talento (mas como saber isso?).