24 de março de 2010
Não há como prestar atenção nas obras sem se distrair com o garçom ou Museus – Parte I
BLOG, bolo de rolo
Por Dandara Palankof
Já fui rata de vernissage. E, convenhamos, você provavelmente também deve ter sido. Quem é que não gosta da oportunidade de comer e beber bem, e de graça, bastando apenas se fazer de interessado na obra de algum desconhecido? Não me olhe assim, eu sei que você já fez isso. E é divertido, vá. Além da farra, às vezes você acaba esbarrando com alguma coisa realmente interessante.
Houve uma época realmente frutífera pra mim, lá no Planalto Central. Ia a vernissages toda semana. Algumas antológicas, como uma em um shopping de decoração, que sabe-se lá como não lotou, aonde eram servidas quantidades monstruosas de sushi. E uma outra na qual passei a noite tomando uísque 18 anos no meio do Palácio do Itamaraty, e que não me lembro até hoje como consegui entrar. Lembro apenas de que a exposição tinha peças de várias tribos indígenas e que o catálogo me rendeu uma boa permuta (é, eu sei, eu não presto; mas aquilo havia sido confeccionado com dinheiro público, foi praticamente uma restituição de imposto).
É sempre divertido analisar o intuito das pessoas nessas festas, e verdade seja dita, nunca fiz muita questão em esconder meus propósitos alcoólicos — valha-me Morrissey, “I’ve always been true to you, in my own sick way”. Ao contrário do que possa parecer, nem toda vernissage tem como maioria de público gente cara-de-pau que vai de encontro às bebidas e acha que, com sorte, a exposição vai ser algo válido. Minhas duas únicas experiências no Recife, por exemplo, haviam sido totalmente low profile: cheia de gente mais interessada na obra do que no espumante. E com razão, porque apesar de minha memória ser péssima e eu não fazer mais idéia de que artistas se tratavam, me recordo de ficar um bom tempo apreciando as obras em questão. Ainda que ligeiramente ébria.
Eu andava com saudades desses eventos. Nunca mais havia ficado sabendo de um, muito menos havia sido convidada. E depois de quase um ano e meio, nesses dois que me naturalizei em meu estado de nascença, surgiu uma oportunidade de ouro. A reabertura do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, ou, simplesmente, Mamam. Ali na Rua da Aurora, perto da esquina com a onipresente Av. Conde da Boa Vista. Fechado para reformas desde antes de eu chegar às cercanias, eu não fazia nem idéia de onde ficava o Mamam. E a Aurora também é relativamente presente na minha vida.
Apesar de uma experiência negativa recente de quase-assalto (dá uma olhada aqui, se você não ficou sabendo), acho a Rua da Aurora um dos lugares mais agradáveis do centro do Recife. O Rio Capibaribe de um lado, meio escondido pelo que sobrou de mangue, em frente a vários banquinhos de praça, parquinhos infantis, quadras de esporte, algumas esculturas, uma espécie de calçadão… do outro lado da rua, prédios residenciais, a maioria ainda não tão alto, naquela arquitetura modernista, funcionalista, meio anos 60… sempre me aparentou tranqüilidade. Um dos lugares que sempre escolhi para fazer uma “pausa estratégica”, digamos assim.
Enfim, aquele sobrado do século XIX, um pouco depois do decadente hotel Recife Plaza (que, me dizem, cobra diárias além de sua estrutura; talvez pelo fato de a vista, de frente pro rio, continuar fantástica) nunca havia me chamado à atenção. Hoje sei que ele já foi sede do Clube Internacional e até da prefeitura da cidade; e que antes era a Galeria Metropolitana e só em 1997 ganhou o nome que sustenta até hoje. E foi reformado, numa dessas obras que parecem não acabar nunca. Mas acabou, e lá fui eu conhecer o Mamam. E tomar espumante.
E o que dá pra dizer é que o lugar é realmente muito bonito. Pequeno, mas belo. Não sei que efeitos a reforma causou, visto que nunca havia posto os pés lá dentro antes, mas é uma casa digna de receber exposições de alto gabarito, um bom espaço para circulação, iluminação ideal… e foi só o que deu pra perceber. Havia uma exposição, chamada “contidonãocontido”, mas que não consegui conferir, porque… bom, digamos que todas as pessoas, inclusive meus amigos, estavam no salão a céu aberto que fica entre as galerias.
Sim, sim, era lá que estava sendo servido o coquetel.
Mas se serve de mea culpa, a organização foi quase impecável. Os garçons rodavam incessantemente e a comida era incrível. O único defeito foi a bebida ter acabado cedo. Não me julguem. Vocês reclamariam do mesmo. E também não teriam visto a exposição. E eu pretendo voltar; não freqüento museus apenas quando posso beber neles — ainda que, admito, a freqüência não seja a desejada; mas esse ta logo ali, na esquina do meu cotidiano. Acho ótimo que a cidade tenha seu museu de volta e que eu tenha mais um canto pra passear na Aurora — e o São Luis, cinema de bairro na mesma rua, também acabou de reabrir, mas ainda não fui lá conferir; fica pra logo mais.
No fim das contas, acho que vernissages são prejudiciais à arte.
Dandara Palankof nasceu em Recife, mas foi criada em Brasília, aonde descobriu como identificar um pseudo-cult nas galerias de arte. De volta ao Recife, percebe que a tarefa é até mais fácil do que parece.
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