20 de setembro de 2008
Música de zona
Texto: Rodrigo Fonseca
Ilustrações: Marcello Quintanilha
Música de zona costumava ser sinônimo de choro de corno. No imaginário popular, o gênero que fez carreira nos inferninhos, ao lado de muito enlatado americano da era disco, serviu de ninho para toda uma geração dos rouxinóis, de Carlos Alberto a Wando, passando por Perla e Marcus Pitter. Odair José então, com seu refrão “Pare de tomar a pílula/ Ela não deixa nosso filho nascer”, era um arroz-de-festa em qualquer ponto de meretrício.
Tradicionalmente, por décadas o filão esteve associado a Carlos Alexandre e seu “Feiticeira”, ao “Eu não sou cachorro não” de Waldick Soriano, e ao “Sorria, meu bem! Sorria… da infelicidade que você procurou”, eternizado no gogó de Evaldo Braga. Zé Geraldo, bardo mineiro famoso pelos versos “Nas cacetadas destes anos todos eu fiquei mais velho que meu próprio pai”, batia no peito em seus shows pelo interior do país para dizer: “Sempre que eu rodo próximo a algum bordel, a cafetina me chama e diz ‘Zé, quando eu boto disco seu na vitrola, a casa enche, e vai todo mundo dançar’”.
Nos anos 70, inclusive, a revista “Veja”, que então tinha o crítico Tárik de Souza em seu time de editores de cultura, resolveu rastrear o que se ouvia nas casas de perdição do Brasil afora. Seus repórteres foram do cais de Santos a Viracopos, para tentar mostrar à classe média aquilo que era pop em um underground sem glamour. Mas os tempos são outros…
Corta para os anos 2000. Zona Norte. Fronteira entre os bairros de Ramos e Bonsucesso. Henry Cardoso (pseudônimo), estudante, 21 anos, freqüenta pela primeira vez um dos points mais concorridos da rarefeita vida noturna da região: o clube Caribbean Queen, atração quatro estrelas das casas noturnas para “maiores de 18 anos”. Chega às 23:55h, com mais três amigos, para celebrar seu aniversário. Troca o jeans, a camiseta e o tênis pelo roupão cheirando a Omo pendurado no armário de ferro do vestiário das termas. Deixa as roupas no gavetão, calça as pantufas brancas - para “evitar resfriado” sussurra uma das moças na entrada -, e desce até o salão da “casa” onde se escuta o martelar de “Can you feel it”, de Jean-Roch.
A canção é um remix recauchutado e um tiquinho cafona da trilha sonora que Bill Conti compôs para “Rocky, um lutador” (1976), com aquele “tanananan-nanan-nanan-nanananan” característico. Mas na Caribbean Queen, ninguém pensa em Sylvester Stallone, pois a mulata com ares de Halle Berry que rebola nua sobre o palco da boate não dá muito espaço para outros assuntos. Nem a trupe de beldades vestidas em microscópicos biquínis que circula pelos salões oferecendo mundos e fundos sexuais aos clientes. Uma delas, que se apresenta como Mila, até arrisca a cantar uma musiquinha no ouvido da freguesia, sussurrando “Meu amor é só seu,/ seu amor é só meu,/ nosso amor é assim./ Eu só sei te querer,/ também sei que você/ só tem olhos pra mim” do jeitinho que aprendeu, de tanto ouvir o Babado Novo nas rádios de que mais gosta. E Heny Cardoso treme diante da cantoria, contabilizando os trocados para ver se resiste ou não ao assédio das Rainhas Caribenhas de Bonsucesso.
— Foi difícil resistir — conta ele, que, antes da segunda Skol já se soltava na pista, de rostinho colado com uma das meninas, ao som de “Lonely”, de Akon.
Mas o Babado Novo e o veludo vocal da cantora Cláudia Leitte não tiveram espaço na noite da Caribbean Queen. Zeca Pagodinho só apareceu na xepa da farra, lá pelas 3h da madrugada. Tocou um Latino aqui, uma Kelly Key acolá e só. De resto, vozes americanas, em especial ligadas à cena hip-hop dos EUA. Para Henry Cardoso, adepto das festas black do Rio, foi uma festa a mais. Tanto que, após a experiência, ele fez da ida aos puteiros cariocas seu passatempo preferido.
Das casas listadas em sites especializados - como o Rio by night, um atlas nativo da putaria -, Cardoso já desbravou várias, inclusive as que fecharam de um ano para cá, pela concorrência com as casas de swing, que só fazem crescer. E em todas, a velha tradição da música brega parece ter evaporado de vez. No more Márcio Greyck. Nada de Amado Batista.
Mesmo a Vila Mimosa, onde ainda se ouvia o Rei cantando “Os botões da blusa”, mudou o repertório. Nó de Caju, Asa de Águia e Calcinha Preta embalam o ambiente, com cadeiras cativas para Zezé di Camargo & Luciano e Rick & Renner.
— Na Vila Mimosa, o que mais toca é forro e funk. Pagode também rola, mas em menor proporção — conta o estudante Daniel Axé, um dos maiores pesquisadores do mercado do sexo pago na cidade.
— Fui tantas vezes ao mesmo puteiro, na Zona Norte, que me candidatei a barman do lugar, para ver se conseguia entrar de graça. Não deu certo. Mas um amigo meu conseguiu virar barman nas termas de São Cristóvão, apaixonou-se por uma das moças, tirou ela da vida e, hoje, está para ter seu primeiro filho com ela. Tudo o que eu sonho para mim. Axe conta que MPB é raridade nas termas do Rio. Mesmo nas casas da Zona Sul, o repertório é calcado quase que exclusivamente em dance music.
— Eu já consegui ouvir o CD da Beyoncé quase inteiro, só entrando e saindo dos inferninhos de Copacabana, do La Cicciolina ao Night Club Nikos, para ver qual está bombando. É a melhor opção para quem vai com pouco dinheiro e quer se divertir — diz Henry Cardoso. Ele gasta, em média R$ 35 quando passeia pelo bas-fond da Zona Sul.
— Há bordéis ainda mais luxuosos e mais baratos que os de Copacabana, em Rocha Miranda, por exemplo. Você entra por R$ 10, vê um show de strip, ouve música bacana e ainda bebe por um preço justo. Mas tem que desembolsar uns R$ 140 para subir para um dos quartos.
Num dos inferninhos mais famosos de Copacabana, o Frank’s Bar, na Avenida Princesa Isabel, ouve-se, quase que diariamente, sucessos internacionais das das novelas da Globo. De mais moderninho, às vezes rola um The Killers (“Somebody told me”). Há uma quebra nacional, sempre bem-vinda, para o duo Seu Jorge e Ana Carolina em “É isso aí”, a versão brasileira para o “Blower’s daughter”, de Damien Rice. Aliás, não é só lá que as parcerias da dupla são recorrentes. Basta ficar na frente da Barbarella, para ouvir os vozeirões de Jorge e Ana cada vez que o porteiro abre porta da casa para as starlets da boate.
— O mundo conseguiu se globalizar até na putaria — diz o escritor Julio Ludemir, autor de “No coração do comando”, que mergulhou no mundo da prostituição para escrever o romance “Só por hoje”, ainda não lançado.
— Quando eu era adolescente, descobri Peninha em vitrola de ficha de puteiro. Na zona, só se ouvia músicas sobre amores idealizados, que um dia chegariam para deixar a vida azul. Hoje, a música internacional rola nos inferninhos de Copa porque é a que mais agrada ao público-alvo daquelas casas noturnas: os gringos. Não é o que as prostitutas querem escutar.
Em sua pesquisa pelos arredores da Prado Junior, Ludemir descobriu o bar Gata da Praia, um cantinho freqüentado pelas garotas de programa de Copacabana, que ainda serve de descanso para a boa e velha tradição do brega rasga-coração. Ninguém mais vai ouvir Almir Rogério declarar sua paixão pelo “Fuscão preto”, nem Vanusa batendo pé na letra de “Mudanças”, e jurando: “Hoje eu vou mudar/ vasculhar minhas gavetas/ jogar fora sentimentos /e ressentimentos tolos”. Mas há lá suas correspondências com algumas tradições perdidas da boemia nacional.
— O Gata da Praia, na Prado Junior, é onde acontece o happy hour das garotas de programa de Copacabana, que saem de locais como a Barbarella e arredores, e vão para lá para relaxar, depois do batente. Ali você consegue ouvir as canções que tocam no rádio e que atendem melhor aquilo que as meninas escutam — diz Ludemir, lembrando que, ao contrário do que mostrava “Paraíso tropical”, o folhetim global das 21h, de Gilberto Braga, uma “profissional da vida” como Bebel (Camila Pitanga) jamais estaria dando sopa pela Avenida Atlântica, um reduto de travestis.
— As zonas de Copacabana se desglamurizam dia a dia. Hoje, no Rio, a prostituição está se deslocando para o centro da cidade, para casas que começam a aparecer em ruas movimentadas como a Carioca, a Uruguaiana ou a das Marrecas. Já o mercado dos travestis passou a fervilhar em prédios como o 334, na Princesa Isabel. É lá que está a fucking life do Rio. Cerca de 200 garotas de programa chegaram a morar nele. Lá, a música rola alta a noite inteira. Na alta temporada, o verão, aquilo ferve.
Ao escrever “Só por hoje”, em que um ex-dependente químico impotente se envolve afetivamente com uma garota de programa, Ludemir descobriu que a história de prostitutas preparando uma trilha sonora especial para os clientes, em seus apartamentos, não passa de um clichê romântico.
— Isso só existe em livro da Bruna Surfistinha — diz Ludemir, em referência ao best-seller “O doce veneno do escorpião”. — No mundo real, diante da enorme concorrência com as casas de swing e do excesso de “profissionais do sexo” na praça, um único som se escuta em casa de prostituta: “É R$ 20 por 20 minutos. Topa?” E neguinho paga.
Outro comércio sexual no Rio de que pouco se fala, mas que lota dia e noite, são os peep shows, localizados em algumas sex shops da cidade. Os mais conhecidos estão na Miami Show, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Funcionam das 13h às 22h, e suas dançarinas costumam se revezar a cada dia. Para elas, ninguém pode falar a frase “Você faz programa?” Lá também há trilha sonora cosmopolita, regada a muito hip-hop e dance, com rescaldos de Lauryn Hill, Jennifer Lopez e de Fugees.
O estatístico Lucio Tail, freguês cativo do local, gasta R$ 10 para assistir a um strip-tease de quatro minutos. Ele chega no Miami Show quase sempre uma hora antes do encerramento do expediente. Olha em volta para ver se não encontra ninguém conhecido saindo do Bob’s que fica ali pertinho, abaixa a cabeça e mete as caras prédio adentro. Entra, passa um tempinho no andar térreo, analisando o acervo de fitas pornô e pergunta ao atendente quanto custa a ficha das cabines. Nelas, os usuários podem desfrutar, individualmente, de um cardápio de DVDs de sexo explícito, dividido por gêneros como DP (dupla penetração), Grandes Seios, Lesbianismo, Gay, Transexual etc. O estatístico sabe o preço de cabeça. Mas aquela encenação é importante para quebrar o gelo e subir. Tail conhece bem a zona de prostituição de Copacabana.
— Já rodei pelo Nikos, pelo La Cicciolina e outros. O Frank’s Bar é o pouso do coração. As melhores mulheres estão lá. E tem até show de strip — diz ele, que adotou o Miami Show por uma questão de poder aquisitivo.
Ao subir as escadas do Miami, você é convidado a assistir ao strip das meninas em um palco giratório. Nesse ambiente, ninguém se masturba. Apenas observa as beldades e sua coreografia sensual. Enquanto dançam, as meninas fazem de tudo para convencer os clientes: “Gostoso, vai lá na cabine de número X. Vai lá que eu tiro a roupa pra você. Pega uma individual comigo que você não vai se arrepender”.
A tal “individual” é uma sessão de strip curtinha, que pode ser alongada conforme o usuário vai gastando seu dinheiro em fichas. É preciso pagar R$ 1 por cada ficha, que dá direito a um minuto de “espetáculo”. Tail chegou a gastar R$ 30 por noite. Nessas cabines individuais, as meninas rebolam atrás de um espesso vidro, masturbando-se e fazendo caras e bocas, e o cliente está livre para “se tocar” à vontade. Elas até estimulam, com um “goza pra mim” repetido até que os homens à sua frente atinjam o clímax.
— Depois que a ejaculação vem,, elas apontam para um cantinho com papel-toalha, para a gente limpar as mãos — diz Tail.
Aliás, desde o réveillon de 2007, quando o Black Eyed Peas veio ao Brasil, os miados de Stacy Ferguson, sua musa, têm ecoado pelas casas noturnas do Rio. Principalmente o repertório de “Monkey business”, o CD mais popular deles. “Pump it” e “My humps” são as canções mais executadas. Tail diz que elas são tema certo nas cabines do Miami. Em São Paulo, os bordéis também adoram Fergie e cia. Suas músicas bombam nas termas localizadas nos arredores da Rua Augusta, como conta o fotógrafo Helinho Reyes, carioca que pega a ponte área da putaria há uma década.
— Fui participar da gravação de um programa na Praça Mauá, nos anos 90, e descobri as boates da região. Acabei tendo um caso com uma das garotas de programa. Desde então, vou sempre. Passei a ir em puteiros de todo o Brasil, com a intenção de fazer pesquisa para um livro. Depois, percebi que tudo não passava de sem-vergonhice minha mesmo — conta Reyes. — Essa menina, que hoje eu não vejo mais, me ensinou uma coisa sobre a zona: depois que entrou lá uma vez, aquilo vira parte da sua memória, passa a mediar o seu desejo. A putaria me ensinou a ser feliz. Acho que é por isso que as músicas bregas de antigamente não tocam mais nos bordéis. Ninguém quer chorar mágoa. Todo mundo quer é gozar. Em todos os sentidos.
2 comentários para “Música de zona”
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6 de novembro de 2008 às 10:23
[...] tem mais essa de música de corno, não! Conheça aqui a hit parade dos puteiros do Rio em “Música de zona”, reportagem de Rodrigo Fonseca [...]
25 de novembro de 2009 às 9:51
[...] P.S. 1: Não percam também os posts : Música de Zona e Top Hooker Songs P.S. Não, não coloquei Private Dancer na lista. Eu conheço, sei que ela é [...]