3 de outubro de 2008
Mulher esfinge
BLOG, Cinema, Festival do Rio 2008
VIDA
(Paula Gaitán, Brasil, 2008)
Por Alexandre Sivolella Barreiro
Maria Gladys sempre foi para mim um enigma. A primeira vez em que a vi não foi no cinema, nem na televisão, mas numa noite em Copacabana, no pretérito perfeito de minha adolescência, tomando cerveja num boteco qualquer. Um filme e outro de Sganzerla e Bressane na cabeça e anos depois já era capaz de associar o nome à pessoa. Sempre achei curioso um determinado tipo de atores, misteriosos, estrelas de filmes sem grande apelo popular, mas objeto de culto da cinefilia. São nomes como Guará, Gladys, Ignez etc. Atores que imprimiram na película a força de suas personalidades, para os quais mais que técnica, o que realmente conta era uma expressão, um sentimento, um desejo. Paula Gaitán foi atrás justamente de Gladys, de quem é mais que fã, amiga, com o objetivo de revelar a história da mulher por trás da imagem. Gladys é uma atriz de carreira invejável. Passou com louvor pelo Cinema Marginal e pelo Cinema Novo. Fez filmes memoráveis, como “Os fuzis”, “O anjo nasceu” e “Matou a família e foi ao cinema”. A lista é grande e mereceu inclusive mostra retrospectiva recente no Caixa Cultural do Rio de Janeiro.
A Maria Gladys que surge pelas lentes de Gaitán é extremamente humana, em sua força e fraqueza, epifania e contração. “Vida”, o filme, é uma elegia, que ao contrário de carregar nas cores fortes, que poderia ser um caminho fácil e seguro, opta pela sobriedade. Mais que isso, opta pelo mistério. Munida de equipamentos simples, Gaitán realiza entrevistas com a atriz, em sua casa, em um mirante da Zona Sul, em um clube de dança de salão na Lapa, em uma estação de trem do subúrbio de sua infância. Extrai muitos momentos de reflexão. Gladys e Gaitán praticam no filme um verdadeiro jogo de esconde-esconde por trás de tecidos coloridos, nas sombras das árvores, nos reflexos de espelhos. Maria Gladys declama poemas, frases soltas, repetidas com a força de seus olhos profundos. Rememora histórias como a do início de sua trajetória, como dançarina de rock da turma da Zona Norte que revelou gente como Roberto Carlos e Tim Maia. No fim, volta a dançar com a parceria de sua neta, que revela uma beleza incomum. O filme abre e fecha como uma parábola, utilizando como ponto de suporte a imagem da janela da casa de Gladys, com a cortina de canga que tremula quase desfigurada ao sabor do vento. O enigma permanece. Viva o enigma.
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