14 de dezembro de 2009
Licença poética
Por Arnaldo Branco
Já reparou que a crítica permite a certos autores algumas liberdades que nega a outros? Nem sempre por atribuir mais talento a este do que àquele, mas simplesmente por ir mais com a cara.
Por exemplo: por que velhos bluesmen são tratados com mais deferência que o Mick Jagger? Você não ouve piadinhas sobre a insistência do B.B. King em fazer turnês para tocar Lucille pela bilionésima vez - enquanto o pobre Jagger, que ajudou inclusive a expandir os limites do blues, é chamado de dinossauro desde os anos 70. Talvez essa condescendência tenha alguma conotação racial, o que só deixa mais evidente sua estupidez.
Imagine um filme menor, porém bom, de um velho cineasta que esteja, como adora repetir a crítica, se repetindo. Alguma dúvida que, se um diretor novato o assinasse, a crítica elogiaria a obra como uma estréia promissora? Talvez até apontasse a influência do velho cineasta decadente, mas reiterando tratar-se de uma releitura, um sopro de renovação. Ajuda ser jovem, na impossibilidade de ser um negro idoso, se você quiser cair nas graças dos resenhistas de plantão.
E por aí vai. Crítica não é uma ciência exata, e alguma dose de incoerência é aceitável, mas é engraçado perceber o padrão. Carisma, crédito de rua, simpatia, vários fatores além do engenho artístico entram na fórmula da aceitação do autor, e assim saímos dos domínios da arte para entrar no terreno do culto da personalidade.
Digo isto sem juízo de valor, mas porque muitos gostam de falsear uma certa imparcialidade, uma distância do objeto de estudo, como os cronistas esportivos que fingem não torcer para um time. De certa forma, é bom saber que debaixo da erudição existe um cara normal, cheio de preconceitos como todos nós.
12 comentários para “Licença poética”
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14 de dezembro de 2009 às 16:39
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14 de dezembro de 2009 às 17:05
O comecinho tá parecido com piada de comédia stand-up.
14 de dezembro de 2009 às 17:33
O bom e velho fator humano… É isso aí, Arnaldo. E o vídeo está ótimo, principalmente o “nº musical”.
14 de dezembro de 2009 às 19:34
Arnaldo, eu vou dar um exemplo q vc não vai gostar muito, mas enfim…rs. Tome, por exemplo, Chico Buarque e Caetano Veloso. Chico passou anos escrevendo romances terríveis até chegar, finalmente,a encontrar um padrão de qualidade. Que outro autor teria essa “licença” midiática pra produzir 3 livros ruins e continuar recebendo atenção nos próximos lançamentos? Se fosse com outro, a “crítica” nem leria mais nada, fingiria q leu e julgaria um novo lançamento por um livro antigo, como muitas vezes ocorre (mas fingem q não).
Onde entra o Caetano Veloso? Bem, compare a recepção q os dois obtêm em seus trabalhos musicais. Caetano grava em Inglês (”o cara agora vai cantar em inglês…”), é ridicularizado; Caetano grava em Espanhol, é ridicularizado; Caetano grava rock, é ridicularizado.
Pra mim, o pior problema da crítica não é a questão da imparcialidade, e sim esse vício da nostalgia, essa sensação constante de que “algo se perdeu”. Sempre lembro da personagem do crítico em Quase Famosos, dizendo, em pleno anos 70, que o rock tinha acabado…
14 de dezembro de 2009 às 20:07
Gostei do que vc disse, Marcelo. Só acho que o Caetano recebe tanta complacência quanto o Chico.
14 de dezembro de 2009 às 22:45
Não tenho como não gostar do seu exemplo, Marcelo, não li os livros do Chico, a não ser Estorvo, que achei passável na época do lançamento.
Mas acho que a crítica já incensou também, e em várias ocasiões, livros de estréia ruins, não é? E às vezes dá espaço para escritores medíocres durante toda suas carreiras medíocres. Mas isso fica no terreno do subjetivo, falo mais de quando o critério de dois pesos e duas medidas fica mais evidente.
Concordo com o Bello, Caetano tb se beneficiou da condescendência da crítica algumas vezes; assim como Chico já sofreu perseguição justamente por querer ser escritor qdo já era consagrado como músico, outro preconceito comum dos críticos - que, no caso do Chico, não sei dizer se é justificado.
14 de dezembro de 2009 às 23:47
… o que só corrobora a suspeita de que essa tal objetividade crítica talvez não exista. Tb gostei da lembrança do crítico do Quase Famosos. Boa personagem aquela, Marcelo.
Outra grande estrela contra quem a crítica talvez tenha errado muito foi Jorge Amado, inensado por livros menores e criticado quando inovou. Provavelmente, exista um star sistem paralelo, só para os críticos, dentro do qual os caras não querem ser flagrados sendo preconceituosos ou conformistas, e acabam sendo isso, mesmo, pelo avesso.
15 de dezembro de 2009 às 15:25
E quanto às apresentadoras de TV/ roteiristas/ escritoras/ góticas de butique que se aventuram a posar nuas pela primeira vez… oooops.
15 de dezembro de 2009 às 16:02
Gostei muito do artigo do Arnaldo.
Sou contra a subjetividade enrustida de certos críticos.
Contudo, também sou contra o discurso de certos artistas que pregam a morte da crítica.
Preferências pessoais à parte, um crítico de verdade avalia não somente a obra, mas também o artista e sua posição perante a criação artística do seu tempo.
É fácil qualquer metido a cult incensar qualquer coisa que o Robert Crumb desenhe. Mas só um Robert Hughes para compará-lo com Bosch.
O importante é o crítico separar a importância da obra e do artista do seu gosto pessoal.
Em Goiânia, onde moro, eu lia a coluna de música de um certo jornal, onde o crítico elogiava determinados discos que ele próprio, dias depois, acabava trocando no sebo, salvo uma ou outra exceção.
Eis.
15 de dezembro de 2009 às 16:16
Relembrou o desenho “O crítico”! Muito foda!
16 de dezembro de 2009 às 21:57
“o Crítico”, que saudades…
17 de dezembro de 2009 às 12:17
Tratando-se de crítica, onde e como encontrar equilíbrio? Subjetivismo não se coaduna à crítica imparcial, e, sim, à parcialidade. A imprensa é pródiga em “fazer”isso. Articulistas de plantão e editores - até de telejornais, fingem confusão, mas acabam revelando suas reais intensões. Fernando de Barros e Silva e Clóvis Rossi, da Folha de São Paulo, críticos do governo Lula, não tomaram conhecimento do mensalão de Brasília ou contraíram amnésia, e - de repente, esqueceram-se de Arruda e sua gangue, e haja “falação” sobre enchentes de São Paulo e Copenhague. Ainda sobre o arrudagate, reportagens dos telejornais da Globo tem sido muito criteriosos, quando se referem ao propinoduto brasiliense, sempre colocando a palavra “suposto” antes de citar o esquema de corrupção do Palácio dos Buritis. Com o outro mensalão, o tratamento foi outro, muito diferente do dado ao atual. E a cobertura jornalística do caso da capital brasileira, hem? Parece até brincadeira, não? Nunca se viu tanto comedimento, tanta precaução, tanta ausência de investigação por parte da imprensa.