23 de março de 2009
Kusturica em Guadalajara
BLOG, Cinema, Festival de Guadalajara 2009
Por Estevão Garcia
Emir Kusturica é um CINEASTA. Tal afirmação parece ser óbvia, mas não é. O ato de classificar ou nomear alguém como cineasta não se deve somente ao fato de que esse alguém tenha dirigido filmes. Não basta apenas dirigir filmes para ser um cineasta, é preciso algo mais. E esse algo mais, Kusturica tem de sobra, para dar e vender. Por isso não seria exagerado afirmar que Kusturica é um cineasta até a enésima potência, que é um ser que exala cinema por todos os seus poros.
E podemos dizer ainda mais: Kusturica é um artista puro. Um artista que maneja com equivalente destreza o cinema e a música. Ontem, no show que ele realizou no Auditório Telmex, teve um momento em que o vocalista tapou com um pano o seu rosto para que ele tocasse com os olhos vendados. O Kusturica músico tocou então com facilidade mesmo sem poder olhar para as notas. Apesar de que algumas pessoas da platéia tenham ficado impressionadas, todo mundo sabe que qualquer músico com alguma experiência pode perfeitamente tocar sem precisar olhar para o seu instrumento. Não há nenhum mistério nisso. Porém, mesmo não sendo nenhuma demonstração de virtuosismo ou de tirada de onda (Jimmy Hendrix sim que era um tirador de onda), essa brincadeirinha entre os músicos nos indica que o “algo mais” que deve existir em todo verdadeiro artista não está em nenhum órgão de seu corpo e, sim, no seu espírito. O corpo é o instrumento. E se para realizar a sua atividade de cineasta Kusturica obrigatoriamente precisa utilizar os olhos, dirigir com os olhos vendados já não é tão fácil, sabemos que todo CINEASTA esconde por trás de seu olho físico um olho interno e é com ele que os filmes são feitos.
Ontem, Kusturica recebeu das mãos da atriz Guadalupe Ontiveros um prêmio que só foi criado nesse ano pelo Festival: o prêmio Guadalajara Internacional (foto). Entrando no placo do Auditório Telmex carregando a sua cabeleira, foi com uma notável timidez que ele cumprimenta a atriz, pega a estatueta e fala com o público. Agradece à cidade a gentil acolhida. Logo depois, entra no palco o prefeito de Guadalajara Alfonso Petersen, que é cravado de vaias, para entregar as chaves da cidade ao homenageado. Acabando a solenidade é projetado o documentário de Kusturica sobre Maradona, “Maradona by Kusturica” (falaremos do filme em outro texto) e depois, finalmente, começa o grande show de Kusturica & No Smoking Orchestra.
É difícil descrever com exatidão os momentos criados pela interação absoluta entre os músicos e o público. Todo mundo parecia estar embriagado. As imagens de “Underground” e de “Gato preto, gato branco” emanavam pelo ar seguindo o compasso da banda. Kusturica estava bem à vontade, um palco ou um set é para ele a mesma coisa. Ou talvez não. Uma vez que ele faz mais show do que filmes (Kusturica, infelizmente, sempre foi um cineasta bissexto) a cotidianidade de uma apresentação musical certamente lhe é mais familiar. Aí ele não é a “estrela” ou o “autor” e, sim, um integrante da banda como qualquer outro. Os holofotes caem em cima de todos. Durante o show o que vemos é a banda. Sim, Kusturica é o compositor de quase todas as músicas e uma grande parte delas aparecem em seus filmes, mas no show o que brilha é o coletivo, é a No Smoking Orchestra. Quem sabe por isso temos a impressão, já sentida e dita por muita gente, de que Kusturica se descontrai e se sente mais confortável como músico do que como cineasta. Um verdadeiro artista não é uma vedete, Kusturica bem sabe disso.
Um comentário para “Kusturica em Guadalajara”
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6 de setembro de 2009 às 19:17
Olá
è a primeira vez que veja Revista Zé Pereira. Adorei ler (isso) sobre o Kusturica. Tenho um video do show de le aqui em São paulo e estou assistindo agora. Danço, rio, sinto a emoção da múscias que ele canta em iugoslavo ou não sei em que língua. 06/set/09
grande abraço
Lucy