27 de maio de 2010
Jornada inglória
BLOG, Recanto nerd, Star Trek, TV
Por Antônio Rogério da Silva
Para um seriado de vanguarda que pretendia defender o cosmopolitismo “politicamente correto”, em uma época de intolerância política, “Jornada nas estrelas”, às vezes, tinha uma recaída nacionalista, resvalando na mais explícita “patriotada”, talvez para aliviar a marcação cerrada dos censores da NBC – rede de TV que a lançou, mas que lhe fazia várias restrições. É o caso de “A glória de Ômega” (23º episódio da segunda temporada), dirigido por Vincent McEveety. Uma estranha história que começa apresentando uma ameaça de epidemia mortal para tripulação da Enterprise e termina com a “sagração” da constituição estadunidense. O roteiro mirabolante expõe a precariedade de quem se submete à rotina massacrante da indústria cultural - que compromete a qualidade dos autores obrigados a produzirem em série-, a despeito da boa fotografia e a beleza selvagem das mulheres que pontuam os diálogos e enfeitam seus cenários.
Durante a Guerra Fria (1945-1989), costumava-se dizer que, depois de uma inevitável terceira guerra mundial, a próxima seria lutada com “arco e flecha”. Como quem diz que um grave retrocesso atingiria a Humanidade após um conflito nuclear, então, iminente entre os dois grandes blocos ideológicos – comunista e capitalista - existentes naquele período. Com a queda do Muro de Berlim, em 1989, esse pesadelo foi atrasado em vários minutos no “relógio atômico” que marcava o tempo restante para deflagração da guerra nuclear planetária, esperada para a tenebrosa “meia-noite”.
“A glória de Ômega” aproveita essa deixa para tornar um planeta distante em um novo laboratório no qual pudesse simular as situações vividas na Terra contemporânea. Um confronto generalizado entre Kohms e Yangs teria acabado por gerar populações de gente bárbara e bruta, respectivamente de pele amarela e branca. A resistência genética dos sobreviventes evoluíra para formar gerações longevas capazes de atravessarem os séculos, apesar de toda civilização ter perecido por causa da guerra total permanente.
Em meio à confusão, emerge a ganância do louco capitão Tracey (Morgan Woodward), da USS Exeter, que vira sua tripulação ser dizimada no primeiro contato com a superfície de Ômega. A todo custo, Tracey tenta obter a fórmula daquela resistência, a fim de produzir um remédio lucrativo que lhe garantisse fortuna e poder quando saísse de lá. Com esse intuito, sequestra a equipe de oficiais da Enterprise que viera em seu socorro, obrigando Dr. McCoy (DeForest Kelley) a extrair o segredo da imunidade dos Kohms, povo que o acolhera em troca de armas.
Quando todos são capturados pelos Yangs é que surge o tema principal do episódio, a saber: a glorificação da constituição dos Estados Unidos, que havia sido desrespeitada pelos seus cidadãos e governantes. Trata-se de uma defesa dos ideais federalistas de liberdade, como sendo aqueles que poderiam congregar todos os povos. Uma história que poderia ter sido montada para os festejos de 4 de julho, data da independência dos EUA, embora tenha mesmo ido ao ar no dia 1º de março de 1968.
Recomendável apenas para os fanáticos ianques da série, já que causa certa estranheza aos fãs de outras nacionalidades.
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