6 de abril de 2009
Indignação seletiva
Por Arnaldo Branco
Já disse antes que a disputa entre esquerda e direita é como o Fla X Flu: os dois times passam por péssima fase, mas ainda movimentam as multidões.
É uma pena que esse debate afete a capacidade humana de distinguir entre o certo e o errado. Infelizmente, o brasileiro é um ser muito binário, e não consegue raciocinar fora do pacote ideológico de sua preferência. Por exemplo, na hora de manifestar sua indignação.
Aqui, perdoamos os delitos daqueles que representam - mesmo que muito mal - nossas inclinações políticas. Como o material humano é de péssima qualidade, às vezes somos obrigados a conviver no mesmo cercado doutrinário com filhos da puta da pior espécie, só porque concordam conosco sobre a questão do desarmamento ou algo assim.
É um fenômeno comum. Aqui há os que protestam contra o Maluf, mas deixam o José Dirceu em paz. Os que se revoltam com o favorecimento da empresa do filho do Lula, mas não ficaram tão chocados com a doação da Telebrás para o irmão do Tasso Jereissati durante o governo FHC. O delegado Protógenes é herói ou vilão? Depende de em quem você vota.
É sempre interessante assistir os malabarismos de retórica que esses sujeitos são obrigados a fazer quando tentam defender gente indefensável. É coisa de medalha olímpica. Mas o método preferido para lidar com o problema de ser correligionário de um canalha é mesmo evitar tocar no assunto.
Também é interessante ver como as editoras, sempre ligadas na questão da segmentação de mercado, lançam publicações que só investigam um dos lados para satisfazer cada tipo de leitor. Se seu interlocutor, antes de manifestar sua revolta com algum acontecimento da política, citar como fonte Veja ou Carta Capital, você já sabe automaticamente quem vai levar pau.
No país que desmoralizou a faixa seletiva de ônibus e a coleta seletiva de lixo, o sistema de indignação seletiva definitivamente pegou.
30 comentários para “Indignação seletiva”
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6 de abril de 2009 às 15:14
ué, mas a faixa seletiva de ônibus funciona sim.
6 de abril de 2009 às 15:18
No Rio nunca funcionou. Onde vc mora, Curitiba?
6 de abril de 2009 às 15:29
Curioso, assisti o All King´s Man a versão recente. Com o Sean Penn. Ilustra bem a coisa toda.
6 de abril de 2009 às 15:37
Olhaí o exemplo perfeito, Arnaldo.
Davi, o público que lê a Veja também acha que lê uma revista imparcial, igual a você que lê a Carta Capital.
Os fãs do Lula acham FHC um filhote da Ditadura por ter sido presidente junto do PFL, mas não ligam ao ver Lula governar com Sarney, Jader e Collor.
Genial, o post.
6 de abril de 2009 às 16:54
Me acusar de não me aprofundar no assunto é acusar o Zeca Pagodinho de bêbado. Nem parece que acompanha o meu trabalho, Davi. E exatamente, Alex, minha mãe acha a Veja o cúmulo da imparcialidade.
6 de abril de 2009 às 17:14
concordo totalmente, falado disso inclusive faz tempo. è curioso ver tbm que quando falam algo do Lula a tropa de luletes vem logo com “ah mas na época do FHC…” como se realmente importasse em pleno 2009 o que o fh roubou ou nao em 99. Ou como se fosse salvo-conduto…
Esquerda x direita têm outra coisa em comum com Fla e Flu: ambos foram ajudados pela arbitragem tendenciosa do Wright. Ou seja, é o roto falando do rasgado.
6 de abril de 2009 às 17:21
Confesso que não acompanho seu trabalho, mas acho o tema muito pertinente e concordo com o Davi: vale um post pra se aprofundar no assunto.
6 de abril de 2009 às 17:26
Peraí, Cid. Não importa se o FHC roubou ou não? Quando então os crimes do Lula vão prescrever e deixar de importar tb?
Ah, mais um leitor atleticano…
6 de abril de 2009 às 18:04
O que ce ta falando, que o fim não justifica o meio? Claro que justifica, sou pró indignação coletiva.
E você fala como se fosse um problema do Brasil, mas já viu o malabarismo que os republicanos estão fazendo para falar mal do orçamento do Obama?
É a velha história da oposição leal, se você é de oposição tem que meter o pau. Sempre.
6 de abril de 2009 às 18:16
Muito bacana o texto. É bem isso, além da “seletividade” do que é criticado, é triste este “pensamento binário”, maniqueísta – se palpita sobre tudo como se o mundo fosse dividido em 2 campos, como se nenhum raciocínio ou opinião pudesse sair desses limites.
6 de abril de 2009 às 23:40
[...] Indignação seletiva, minha coluna Mal Necessário da semana. [...]
7 de abril de 2009 às 8:41
Estou me divertindo aos montes com os pedidos de aprofundamento do assunto.
7 de abril de 2009 às 11:46
não existe jornalismo imparcial, acho que até o fausto wolff afirmou isso uma vez
7 de abril de 2009 às 13:31
Que Arnaldo… o Jabor?
7 de abril de 2009 às 14:18
Tô com preguiça. Prefiro me divertir vendo a pancadaria toda.
7 de abril de 2009 às 15:17
Quem porra eh Davi? Sumiu aew…
7 de abril de 2009 às 15:29
Paz.
7 de abril de 2009 às 15:42
CQD.
7 de abril de 2009 às 19:44
Mas só em Curitiba funciona a faixa exclusiva de ônibus? Jesus.
Não sei se em outros lugares do mundo isso acontece, mas de fato é uma coisa nossa como “feijoada” tratar assuntos ideológicos com retórica de torcedor. Triste é que é mais fácil um flamenguista deixar de apoiar Obina, do que um petista deixar de defender o José Dirceu.
8 de abril de 2009 às 11:42
Mas é que o brasileiro curte um bairrismo, se sentir parte de alguma coisa, eu chamaria isso de Síndrome da Turminha. Ele tem seu time predileto, sua escola de samba do peito e seu partido do coração (e hoje em dia até seu BBB preferido). Me lembro que quando eu era pequeno, se declarar Flamenguista, Mangueirense e Brizolista era como gritar “Shalom” na Alemanha nos anos 30. Hoje se vc disser que é Petista e que votou no Max, é capaz de se levantarem da mesa…
8 de abril de 2009 às 13:04
Quem é de direita paga o mico de tentar defender o Bush, e quem é de esquerda paga o mico de tentar defender o Lula. É por isso que, perguntada, sou de centro…
8 de abril de 2009 às 17:47
eu prefiro falar de política pública
8 de abril de 2009 às 20:27
Esse artigo me lembra de sua tira infantil explicando a Satiagraha, com uma conclusão tipo “todo mundo faz mesmo”.
Agora vc vai além e chuta a Carta Capital (tiragem de 65 mil) , colocando no mesmo saco da Veja (tiragem de 1,1 milhões).
Na mídia impressa a CP é a única de esquerda. Na tv não tem ninguem.
Concordo que sempre existirão três versões, a do flu (que vencerá nesse domingo,minha versão) a do fla e a verdadeira.
Mas acho que se ouvirmos somente um lado, saber qual é a verdadeira fica mais difícil.
9 de abril de 2009 às 2:24
Ótimo texto, Arnaldo.
9 de abril de 2009 às 2:45
Maurício, se só ouvirmos um dos lados, ficará difícil saber das coisas, realmente. Mas o chato é quando ouvimos os dois lados e verificamos que ambos têm muita seletividade em suas críticas. Mais importante que ser de esquerda ou de direita é não ter compromissos com a “seita” na hora de analisar os fatos. Acho que o Arnaldo se referia a isso.
9 de abril de 2009 às 14:43
Tira explicando a Satiagraha? Acho que vc está procurando o blog do Chico Caruso ou something.
9 de abril de 2009 às 19:00
Tem razão, é que sou fã seu, do Allan e do Dahmer e na minha combalida memória, às vezes troco as bolas. O troço é do Allan: http://talktohimselfshow.zip.net/images/dantasfinal-web.jpg
Essa explicação é tudo que o coronel Mendes queria que o Brasil acreditasse. Ainda bem que nem todo mundo é criança.
O Bello, acho mais chato o caso brasileiro, de só dar acesso a população a um lado, e quando o outro lado começa a crescer (ainda que infimamente) para dar um pouco de equilíbrio a partida, temos os utópicos teóricos do anarquismo sendo usados para distrair o foco.
10 de abril de 2009 às 6:08
“Utópicos teóricos do anarquismo sendo usados…”? Essa retórica de tentar desqualificar quem pensa diferente da nossa cartilha é mais velha que os bigodes de Stalin. E já serviu aos dois lados, inclusive. No tempo da ditadura, os estudantes que aderiam às manifestações de rua eram rotulados de “inocentes úteis” pelo cel. Golbery…
Para um cara que achou a tirinha do Alan coisa de criança, você está me parecendo um pouco ingênuo. Também sou a favor da redistribuição de renda, e aplaudo o que se fez nessa área. Mas nem por isso vou compactuar com quem perdeu a vergonha na cara depois de passar cinco minutos no poder, e acabou flagrado no aeroporto com dólares na cueca. É até uma questão de coerência, de “manter o foco”, caro Maurício.
10 de abril de 2009 às 13:42
O Bello, espero não ter lhe ofendido, eu gostei do texto do Arnaldo também, só estou fazendo uma leitura critica de um parágrafo e esta me parecendo que você esta tendo “compromissos com a “seita” na hora de analisar os fatos”.
E o fato foi no penúltimo parágrafo do artigo onde coloca-se no mesmo saco a mídia da esquerda com a da direita. Para mim isso foi inocência, pelo simples fato dela não ter acesso a parcela significativa da população.
A esquerda não é boazinha e em momento nenhum disse isso, mas tem o papel essencial de ser o freio da direita, e vice-versa. Se um lado não freia direito, o carro não pode desenvolver.
14 de julho de 2009 às 21:20
SEU GAY ^