9 de outubro de 2008
Idéias em movimento
BLOG, Cinema, Festival do Rio 2008
O CASTELO DA PUREZA
(”El castillo de la pureza”, Arturo Ripstein, México, 1974)
Por Fernando Gerheim
O limite entre o idealista e o ditador é tênue. Gabriel Lima, personagem de “O Castelo da pureza” (1974), de Arturo Ripstein, batizou seus filhos de Utopia, Porvenir e Voluntad. Ele os mantém trancados em casa junto com a mãe Beatriz, que lhes conta histórias do mundo lá fora como se fossem fábulas. Para poupar a família do contato com a sociedade, o próprio pai a educa. Seu método pedagógico é rigoroso. Ele a faz repetir em coro frases de Goethe, Chesterton e outros luminares do humanismo. O patriarca ganha o leite das crianças vendendo o super-eficiente veneno de rato artesanal que a família fabrica unida. Mas, quando algo escapa ao seu controle ou alguém o desobedece, ele dá ataque, põe de castigo, chicoteia. Em seus acessos, compara o animal que ajuda a exterminar ao homem.
Os cenários e interpretações são realistas. O diretor não interfere no dispositivo. Mas a história parte de um princípio que reconfigura de modo tão radical o mundo com a ficção que “propõe”, que o realismo serve para potencializar a estranheza. O cinema de Ripstein desloca o valor do tecnicamente bem-feito, do jargão “eu só quero contar uma história”, do compromisso de agradar o público, da noção de que é preciso tremer a câmera, apelar para o sensorial, cortar freneticamente ou fazer planos longos etc.. Foi uma atitude acertada da Federação Internacional de Críticos de Cinema dar a ele o prêmio de Personalidade Latino-Americana porque seu cinema aponta para algo sub-valorizado: a idéia.
O cinema tem modismos, mas não regras. Como boa cria do surrealismo, Ripstein demonstra que a regra e a fórmula são subprodutos do idealismo. E que este está presente no cotidiano, infiltrado na linguagem, sedimentado nas instituições, sedando os sentidos.
O filme, de 1974, poderia se passar em qualquer cidade do mundo, mas tem um significado especial na Cidade do México, com uma superpopulação de ratos, animal que, como prega a lei capitalista do excedente de produção, se reproduz muito e rápido. O seu “castelo da pureza”, porém, começa a ruir.
O filme é um exemplar de cinema fantástico que joga luz sobre as atuais questões formais e de novos modelos narrativos. Enquanto o realismo quer dar à realidade outras camadas a posteriori, ele já pressupõe um princípio anti-realista (mesmo “A rainha da noite”, de 1994, é apresentado como uma “biografia imaginária”), e segue o modelo narrativo tradicional como um vaudeville. Isso ocorre porque, no fundo, aí está uma maneira diferente de resolver a questão dos estatutos da realidade e da ficção, que parece tão cara ao cinema contemporâneo. O cinema de ficção em geral parte do pressuposto de que a realidade está lá, e ele vai tematizar algum aspecto dela, talvez testemunhá-lo. A questão, do ponto de vista do documentário, é vista como o documentarista necessariamente intervindo no que documenta e assumindo isso. No cinema de Ripstein, o que a câmera capta é uma realidade anti-realista, alucinada, já entrelaçada com o artificial da linguagem na sua raiz.
A idéia é mais forte porque ela não é uma forma; pelo contrário, ela é o movimento. Cinema não move imagens, mas idéias.
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