29 de abril de 2010
Heterogeneidade da monotonia
BLOG, Cine PE 2010, Cinema
A terceira noite de mostra competitiva de curtas metragens só não conseguiu ser menos interessante que a anterior
Por Du Mota
Fotos de divulgação
O primeiro curta digital da mostra competitiva da noite de quarta-feira foi o simpático “Sweet Karolynne” (foto). Segundo a diretora Ana Bárbara Ramos, o filme é uma “grande invenção”. E essa é a melhor definição que ele poderia ter. A história contada é a da pequena e interessantíssima Karolynne, que tem uma curiosa obsessão por criar pintos. Respondendo a filosófica pergunta “Quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha?”, ela garante ao filme todo seu brilho e graça, ao mostrar a relação de uma criança de 8 anos de idade com a morte. E apesar de tratar do assunto com muita leveza, não usa floreios pra abordar a temática. Com um tom de ficção, o documentário vai se desenrolando ao redor da realidade quase inventada daquela figurinha, cujo pai se apresenta como cover de Elvis Presley. Cru, o documentário não prima por sua qualidade de imagens ou captação de som. Com uma direção até acertada e um ritmo cadenciado, o filme entretém. E basta.
Com muitas lacunas propositais, o curta digital seguinte, “Sobe, Sofia”, é um exercício de experimentação que dá certo, mas não engrena. Com uma fotografia esmerada, o filme nos apresenta ao cotidiano tedioso de Sofia. O universo da personagem é restrito ao apartamento e ao prédio em que ela mora junto com uma senhora — que apesar da minha inferência de que aquela seja sua avó, isto não fica claro. Nos são apresentados personagens dispensáveis no transcorrer da história, o que não chega a ser um grande problema. A recorrente falta de clareza dentro da construção da narrativa, essa sim é a grande falta do filme. Com uma direção de arte acertada (aliás, todos os aspectos técnicos do filme são muito afinados, do visual ao design de som), a obra de André Mielnik agrada visualmente, mas tem um resultado moroso.
O primeiro curta-metragem em 35mm de ontem foi o divertido e sarcástico “Revertere ad locum tuum” (foto), de Armando Mendz. O filme retoma a temática das relações com a morte e seus ritos (e é, apropriadamente, realizado com incentivo financeiro de um cemitério). Com um elenco estelar — como Otávio Augusto, Berta Zamel e Inês Peixoto — e extremamente afinado, o filme retrata o desejo de uma típica matrona de classe média que, alegando claustrofobia, não quer ser enterrada quando morrer: deseja ser cremada e ter suas cinzas jogadas na natureza (daí o nome do filme, que em latim significa “Volta para o lugar de onde vieste”). A história mantém um bom ritmo e tem personagens carismáticos, como Netinho, o típico trintão que ainda não saiu da casa dos pais. “Revertere (…)” é um filme de roteiro, com uma fotografia que opta pelo convencional, e outros bons aspectos técnicos que não surpreendem.
“A Noite por testemunha” de Bruno Torres, encerrou os curtas em 35mm da noite, transcrevendo, quase literalmente, o caso de grande repercussão do índio Galdino —incendiado vivo enquanto dormia em um ponto de ônibus de Brasília nos idos de 1997. Alegando existir “uma outra camada dessa história”, o diretor tenta nos trazer a realidade daqueles jovens que atentaram contra a vida de Galdino. O filme é todo bem executado e tem bons atores, mas a direção é precária. O que se vê é uma série de clichês sobre uma geração que foi “abandonada” pelos pais. Maniqueísta, o filme traz a figura do bom selvagem (todo vestido de branco, num excesso de santificação) perdido no caos da impiedosa cidade grande. Existem ainda cenas extremamente dispensáveis, como a do índio-tocha-humana. Traz uma não-linearidade dos fatos muito interessante, mas usa metáforas cansadas; como um dos jovens que comete o crime chorando em um parquinho infantil, antes de procurar o colo da mãe. Contudo, o filme acaba arrebatando o público, mais pela comoção que causa a história real (provavelmente acompanhada por todos os presentes na audiência) do que por seus méritos enquanto filme.
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