12 de outubro de 2008
Franceses, bondinhos e privatizações: Santa Teresa nos tempos de Cabral
Por Débora Lerrer
A julgar pelo que dizia a revista de Domingo de o Globo no último dia 14, Santa Teresa é a bola da vez na especulação imobiliária e turística no Rio de Janeiro. Trata-se de uma onda capitaneada por gringos comprando belíssimos imóveis a preço de banana para montarem pousadas, hotéis e restaurantes chiques, supostamente devolvendo o bairro a sua época de ouro. Bom exemplo disso seria a esperada reinauguração do Hotel Santa Teresa, demolido (apesar de tombado) para dar lugar ao hotel cinco estrelas de um grupo francês.
Nesse contexto, o governo Cabral deu um pontapé inicial na privatização de um dos mais queridos e pitorescos programas turísticos da cidade: o bondinho de Santa Teresa. Para tanto, contratou a Sistran Engenharia, também francesa, que vai preparar até o final do ano um estudo sobre a concessão deste serviço de transportes à iniciativa privada. É o que está dito, em português claro, no edital.
Foi a senha para que a Amast (Associação dos Moradores e Amigos de Santa Teresa) conseguisse reunir grupos musicais e blocos de carnaval do bairro, para um grande samba de protesto em 6 de setembro último. A manifestação reuniu mais de 1500 pessoas no Largo do Guimarães, e terminou ao som do samba-funk “Privatização, não”, improvisado no calor da folia cívica, pelo bloco Carmelitas.
As autoridades estaduais tergiversam, mas os moradores do bairro já hastearam suas faixas, retomando o espírito de luta da década de 80, quando garantiram o tombamento definitivo do sistema de bondes, ocorrido definitivamente em 19/10/1988. É o que diz o Guia de Bens Tombados do Inepa (processo E-03/31.269/83). O próximo passo da Amast é entrar com uma ação civil pública na Justiça Federal, visto que o Ministério Público do Estado simplesmente engavetou as que recebeu.
Dívida estatizada e lucro privado
Além do Maracanã e do Galeão, o governador do Rio quer incluir o bondinho em seu currículo de privatizações. Argumenta que o serviço não atende bem aos moradores, mas desconsidera os protestos deles contra seu projeto. No ano passado foi protocolado junto aos órgãos estaduais um abaixo-assinado, com 2.100 assinaturas, contra a privatização e exigindo a reestruturação do sistema de bondes. Há, também, uma petição na homepage da Amast (www.amast.org.br).
Desde que assumiu a Secretaria de Transportes, Julio Lopes vinha declarando publicamente sua intenção de privatizar o serviço. Aliás, em entrevista à CBN, ano passado, o secretario adiantou que a empresa que explora o Corcovado teria grandes chances de vencer a licitação da concessão. Alega que a tarifa de R$ 0,60 gera faturamento insuficiente para a manutenção do bondinho, mas não explica porque só a iniciativa privada é que poderá aumentar a tarifa.
Na verdade, o centenário serviço de transportes é um dos alvos do projeto de reestruturação de 14 empresas públicas e de economia mista do Estado do Rio, elaborado pelo sub-secretário de Planejamento, Francisco Caldas Andrade Pinto para extinguir empresas e cargos. Em seu plano, a Central (Companhia Estadual de Engenharia de Transportes e Logística), que administra o bonde e a malha ferroviária que sobrou das privatizações, seria absorvida pela Emop (Empresa de Obras Públicas do Estado do Rio de Janeiro). Já o bondinho se tornaria uma concessão PPP, a ser explorado por parceria público-privada (ver aqui).
O contrato de empréstimo do Banco Mundial ao estado do Rio destina R$ 24 milhões à reforma do sistema dos bondinhos, e prevê uma futura privatização, “reduzindo subsídios operacionais e aumentando a participação do setor privado na operação e no gerenciamento dos serviços”. Em suma, o Banco Mundial empresta grana para o governo melhorar uma infra-estrutura que depois dará lucros à iniciativa privada. Obviamente, os custos do empréstimo ficam com o Estado.
Embora não tenha sido eleito com essa plataforma explícita, o governo Cabral quer terminar as privatizações que Marcelo Allencar, com sua popularidade despencando, deixou inacabadas. Do ano passado para cá, já foram demitidos funcionários de várias empresas. Só da Central Logística, foram 425 demissões de janeiro a março de 2008, incluindo 32 antigos funcionários do bonde, alguns deles meses antes de sua aposentadoria.
Criada para incorporar funcionários da Flumintrens e da CTC–RJ, após suas privatizações, a Central acabou inchada e atolada em passivos trabalhistas. A estação de energia do bonde quase foi a leilão para pagar uma dessas dívidas, inclusive.
A farsa e a tragédia
É evidente que só existem dois bondes funcionando no bairro porque o governo simplesmente parou de investir em sua manutenção. Mas cálculos baseados na última grande reforma do sistema mostram que, para recuperar os veículo parados bastaria gastar, no máximo, R$ 300 mil com cada um, bem menos que os R$ 900 mil gastos no protótipo do bonde moderno, vexame que custou o equivalente a três helicópteros.
Embora preserve a carcaça e a fachada tradicional, esta desastrada modernização teve lances ora cômicos, ora trágicos. Levados em 2005 para a oficina da T-Trans, em Três Rios, o retorno dos bondes reformados vem sendo adiado sucessivamente, desde abril de 2006. O último prazo de entrega, 24 de setembro, foi igualmente descumprido. Enquanto isso, os demais bondes teriam sido criminosamente desmontados.
Um dos bondes novos chegou a ser inaugurado em novembro do ano passado, num mico inesquecível. Ele ficou empacado diante das autoridades presentes, causando um enorme engarrafamento, porque os engenheiros responsáveis esqueceram-se de um pequeno detalhe: a altura correta do truck, a estrutura inferior que se encaixa nos trilhos. O protótipo novo era mais baixo que os bondes originais, e não andou.
Algum tempo depois, o bondinho novo, apelidado de Frankensein pelos moradores, foi testado nas ruas do bairro. Dava solavancos nas curvas e seu freio parecia não agüentar o tranco. Fábio Tepedino, o diretor responsável pelos bondes, diz que a reforma foi necessária por motivos de “segurança”, pois não era mais possível utilizar bondes centenários. Para ele, o problema foi a dificuldade de se fazer os testes em meio ao trânsito do bairro. Ele também alega que não havia como repor as peças do veículo antigo. Sabe-se, entretanto, que existem vários fornecedores de peças na ativa. Segundo um deles, que adoraria ser o único, as peças para os bondinhos podem ser fundidas facilmente, pois sua mecânica é básica, sem arroubos tecnológicos.
Mas a trapalhada acabou assumindo um tom mais trágico. Em 1º de junho, ao ser manobrado por um engenheiro, o bonde modificado causou um acidente na oficina, ferindo gravemente um funcionário. Aparentemente, o freio não funcionou. Dias antes, um dos motorneiros escalados para os testes havia se recusado a continuar, por considerar o veículo inseguro. Tudo indica que a melhor solução tecnológica para o bondinho continua sendo o seu mecanismo tradicional, forjado e adaptado ao longo de décadas, nas curvas e ladeiras de Santa Teresa.
A alma de um bairro
Muitas pessoas atribuem a singularidade do bairro de Santa Teresa, a suas ladeiras, rica vegetação, vista deslumbrante e casarios antigos preservados da sanha imobiliária. A verdade é que a alma de Santa Teresa é cotidianamente processada no sacolejo de seus bondinhos. Andar de bonde sempre transporta seu usuário para um tempo mais devagar, onde a vizinhança e a cordialidade suplantam a pressa e a impessoalidade vigentes nos grandes aglomerados urbanos. Para dar um exemplo deste tipo de sociabilidade, basta tomar o bonde com disposição para observar. Dia desses, pegando-o na estação carioca, em uma manhã ensolarada, resolvi fazer esse exercício.
O bonde tinha acabado de encostar e, vazio, pude escolher um lugar para sentar. Tinha que esperar uns 10 ou 15 min para dar a hora dele subir o morro. Pouco depois de me aboletar estrategicamente na ponta esquerda para tomar todo o vento que tinha direito, chegou um grupo de turistas alemães de terceira idade. O bonde começou a encher, e o motorneiro assumiu seu posto. Estava na hora de partir e, justamente naquele momento, chegavam alguns retardatários. Como se já soubesse da turma que sempre chega na última hora, o motorneiro calmamente aguardava.
Turistas alemães, brancos. Brasileiros, morenices variadas. Entre as retardatárias, uma morena esguia, com saias longas, cabelos compridos, verdadeira “moura”, como as que, na Alemanha, por conta de sua religião, vivem com lenços tapando os cabelos e a beleza. Um dos alemães não conteve o espanto com aquela visão e virou-se para trás no banco, para melhor contemplá-la. Sua virada de corpo foi quase um reflexo. Fiquei admirada em como ele, já corcunda pela idade, mantinha-se vivo.
Quando o bonde deu a partida, andou poucos metros e parou novamente. Não sei como ele viu, mas chegavam duas mulheres negras. Uma delas com um bebê no colo. Provavelmente, moradora de uma das 15 favelas do bairro. O motorneiro simplesmente deu marcha ré para que elas subissem e se instalassem nos bancos ainda vazios, ao lado dos alemães.
Na hora me dei conta de como nunca poderia ver isso na Europa. Lá, se deu o horário, o ônibus parou no ponto e fechou a porta. Mesmo que o motorista ainda não tenha arrancado, não vai abri-la para o esbaforido passageiro que vê correndo em sua direção. Mas aqui no Brasil, em geral, fazemos isso. Não somos dados à frieza das regras e dos contratos. Somos “personalistas”. Abrimos sempre exceção para uma pessoa conhecida, ou para o que consideramos mais justo, para uma brecha possível.
Critica-se muito os desvios desse nosso comportamento. Afinal, a modernidade européia é contratualista e se caracteriza por regulamentos e leis que valem para todos. Mesmo que eles também tenham seus “jeitinhos”, perseguem isso e criaram mecanismos eficazes para fazer vigilância para que isso se cumpra. É admirável. No entanto, são muito impessoais e frios. Quase isolados em torno de si mesmos. Já nós, com todos os tipos de exceção que inventamos, volta e meia nos vemos aprisionados por interesses obscuros, de alguns poucos que se aproveitam das brechas para se “dar bem”. Mas a maioria vive esse tipo de flexibilidade adotando uma espécie de bom senso. Senão, viveríamos em um inferno.
A vida social no Rio de Janeiro se caracteriza por regras tácitas de convívio que muitas vezes giram em torno dessas brechas. E isso se repente em maior ou menor grau em todo o Brasil. Por outro lado, perseguimos essa receita européia, na qual procuramos nos ajustar, por considerarmos mais justa. Mas, invariavelmente, adoramos abrir exceções. Não agüentamos. O único problema é que, de fato, para chegarmos perto de uma maior “justiça social”, temos que buscar formas de administrar nosso jeito de viver com mecanismos que justamente favoreçam a maioria e não a minoria de espertalhões.
Oásis encapsulados
A privatização do bonde tende a favorecer apenas uma minoria, pois ela praticamente significará uma maior destinação turística, pois isso dá mais lucro. A iniciativa privada só vai assumir esse serviço se tiver essa garantia, o que pode significar viagens ao preço dos trens do Corcovado: R$ 35. Aí é claro que o bonde vai sair no horário. Estará com a pintura tinindo e sem maiores problemas de manutenção. Mas esses próprios turistas vão perder oportunidades preciosas de ver como funciona de fato a cultura brasileira. Vão ficar encapsulados em mais um oásis turísticos asséptico, que só serve para tirar fotografia. Um país a gente conhece no meio de seu povo. E o brasileiro é peculiar e especial no seu jeito de agir. O bonde de Santa Teresa é um microcosmo precioso dos modos de ser dessa brasilidade. Ele não engendra esse espetáculo para turista, ele alimenta essa sociabilidade para os próprios moradores do bairro e os funcionários do bonde, conhecidos de décadas por seus passageiros.
Se o projeto do governo estadual vingar, os turistas vão perder de sentar ao lado de gente colorida, que expressa nessa “raça” brasileira vários tipos humanos. Vão perder de ver um bonde que atrasa seu horário e dá marcha ré para atender duas mulheres e uma criança. Atitude generosa. Gentil. Humana.
Mas pior do que isso. Ao se sentir no direito alienar um patrimônio público tombado e útil para sua população, o Governo Cabral passa por cima de uma luta empreendida desde a década de 60 por moradores e funcionários do bonde para que ele continuasse a existir. Sim, por que se fosse depender de políticos e suas receitas modernizantes, implantadas de cima para baixo, este bonde não existiria mais nem o pitoresco passeio turístico que este governo quer privilegiar. Ao cogitar isso, o Governo Cabral dá um tapa na cara da população carioca que resistiu à sanha de políticos obtusos que há década privilegiam o interesse privado sobre o público.
Sobra para quem?
Para os moradores, a privatização pode acarretar mais dependência da única empresa de ônibus que serve o bairro: a Transurb. Basta pegar o microônibus na hora do rush para sentir a humilhação cotidiana de ter que ir ou voltar de seu destino em um veículo lotado, dirigido por motoristas despreparados que acumulam a função de cobradores.
O transporte público no Rio de Janeiro, a R$ 2,10 a viagem e sem integração, acaba sendo mais caro do que o de Paris e é cem vezes pior.
Muitos moradores de Santa Teresa têm que pegar dois transportes públicos para chegar ao trabalho, gastando R$ 8,40 por dia e cerca de R$ 158 por mês, ou seja, 62,65 euros. A Carte Orange, bilhete vendido em Paris e que permite ilimitadas viagens por dia nas bem planejadas linhas de trem, ônibus e metrô parisienses, custa hoje 53,50 euros por mês. Para não ficar em Paris, que é uma das cidades mais caras do mundo, vejamos o exemplo de Madri, onde o equivalente à Carta Orange custa 30 euros.
O secretário Julio Lopes alega que o transporte público em Paris é mais barato porque o governo de lá tem condições de subsidiá-lo. E considera muito baixo o preço pago para andar nos bondinhos. A verdade é que o morador de Santa Teresa percorre poucos quilômetros para chegar ao centro, e paga um preço, talvez irrisório, mas não injusto por esta distância.
Além disso, o governo estadual também não estaria subsidiando o serviço ao privatizá-lo? No que tange aos trens metropolitanos, sabe-se que, embora a concessão esteja na mão da Supervia, é sempre o governo quem faz investimentos, como a compra das novas composições realizadas no primeiro semestre.
Diante desse tipo de subsídio dado para a iniciativa privada, o destinado à população que depende do transporte público é um benefício respeitável, pois atingirá realmente a maioria e desestimulará o uso de carros particulares, contribuindo para a diminuição de engarrafamentos e emissão de gases do efeito estufa.
Aliás, o preço do transporte público no Rio de Janeiro costuma chocar a maioria dos turistas europeus que visitam a cidade. Acostumados a usar este serviço em suas cidades, acham estranho que as passagens de ônibus aqui sejam mais caras do que lá. Se a privatização pretendida pelo governo estadual for para frente, a população de Santa Teresa que depende dos ônibus e dos bondes perderia o serviço e ainda pagaria a conta para o Banco Mundial. (box “O ‘boom’ turístico” aqui)
O “boom” turístico
Texto: Debora Lerrer
Fotos: Joel Coelho
Depois que um turista desavisado conhece Santa Teresa, é muito comum colocar-se a questão de como um bairro com essas características permaneceu intacto da especulação imobiliária.
O Rio de Janeiro virou de costas para Santa Teresa por conta das chuvas de 1966, quando prédios inteiros, e não só barracos de favelas, caíram das encostas, matando inúmeras famílias.
Na década de 80, quando os empresários acordaram para as potencialidades do bairro, para onde afluíam artistas e intelectuais atrás dos preços baratos dos imóveis, as associações de moradores detinham força política na cidade, e a Amast conseguiu brecar o processo, tornando o bairro uma APA (Área de Preservação Ambiental), cujo projeto foi encaminhado, curiosamente, por Sergio Cabral, o pai.
Agora, entretanto, o boom turístico passou a ser incensado a ponto de declarações fantasiosas, como a da arquiteta Alba Pires, responsável pela demolidora reforma do Hotel Santa Teresa, sejam publicadas nos jornais. Segundo ela, seu projeto devolveu o hotel para o que era em 1930. O difícil, no entanto, é explicar para a vizinhança, cuja vista foi coberta pela nova construção, como é que naquela época o prédio poderia ser mais alto e ocupar mais espaço do terreno.
No último dia 23, apareceu mais uma pérola do gênero no “Jornal do Brasil”, nota na qual o corretor fala, “ com orgulho”, ter vendido por R$ 1 milhão o Hotel Santa Teresa, e dizendo que hoje ele vale R$ 15 milhões. Parece que o pessoal gosta de vender banana para importar bananada…
A Amast organizou manifestações e ações no Ministério Público contra a demolição do hotel, cujo primeiro registro da existência estaria no Almanaque Lammert de 1859, mas cujas edificações tombadas datavam de 1872. Demonstrando até que ponto vai seu estilo e “sofisticação”, o grupo francês, encabeçado por François Dellort, tratou de organizar para o mesmo dia e mesma hora do protesto da Amast uma churrascada com cerveja de graça para a qual foram convidados todos os moradores do bairro. Infelizmente, não se pode mais reconstruir o hotel. Resta-nos esperar que esse precedente aberto por estes distintos empresários e as autoridades complacentes não venha varrer do mapa toda a memória e paisagem deste bairro charmoso e peculiar em nome desse gênero de “desenvolvimento”. Depois da derrota do Villegagnon, parece que os franceses estão de volta, mas, desta vez, seus aliados não são os tupinambás, mas a imprensa e os órgãos do estado. E, para nós, certamente, restarão apenas as bananas.
11 comentários para “Franceses, bondinhos e privatizações: Santa Teresa nos tempos de Cabral”
Deixe um comentário
- Samba, suor e oração
- O Golias dos oligopólios e os Davis da radiodifusão
- O amor é cego
- Franceses, bondinhos e privatizações: Santa Teresa nos tempos de Cabral
- Largo das Neves: Uma das muitas maravilhas esquecidas do Rio
- Um fim de tarde com Nelson Pereira dos Santos
- A praia que era grande*
- Baía de Guanabara: paciente terminal*
- A Praça Saens Peña é coisa de cinema*
- O caminho de Santa Teresa
- O caos anda sobre rodas
- A marcha sem volta dos cineclubes
- Música de zona
- S.O.S. Vila Operária*
- Gaveta













28 de setembro de 2008 às 5:43
Brilhante essa reportagem sobre os bondes! O melhor texto que já li sobre o tema. Juntou sensibilidade e informação.
29 de setembro de 2008 às 12:23
Sobre a privatização dos bondes: antes de a articulista nascer, os bondes eram e uma empresa privada e funcionavam. Todos pagavam passagem. Estatizaram e o serviço de deteriorou rapidamente, começando pelo paga quem quer. Faz muitos e muitos anos os bondes estão moribundos. Em ocasionais vésperas de eleições, fazem uma reforma e a coisa rapidamente afunda de novo.
A razão fundamental de a antiga União Soviética, superpotência, ser atrasadíssima em computadores e informática era o fato de se considerar que informação não era necessariamente uma coisa boa e tinha que ser controlada. Lá, uma máquina copiadora tinha de ser registrada na polícia.
Se um serviço de transportes não se baseia em que o principal é levar as pessoas de um lugar a outro de maneira confiável, ele não funciona. Pelo jeito, a articulista acha que o mais importante no serviço de transporte é não dar lucro a ninguém. A próxima prioridade é que esse serviço de transporte continue como há 100 anos. Esse tipo de mentalidade fez o que fez com a educação: o mais importante é fazer proselitismo político. Se os alunos aprendem, ótimo. Se não aprendem, o principal foi feito.
2 de outubro de 2008 às 18:22
senti um tom xenófobo na reportagem, ou foi somente impressão? espero que sim, pois a última coisa que santa teresa em particular, e o rio e o brasil em geral, precisam é de xenofobia. falar em ‘os europeus’ frios e nós, os brasileiros do ‘jeitinho’, personalistas, é absolutamente primário.
2 de outubro de 2008 às 20:01
Bruno, o que você diz não é errado, mas você esqueceu de levar uma coisa em consideração: o serviço de transportes é privado e é uma droga.
16 de outubro de 2008 às 14:47
Cara, tá tudo errado mesmo. Infelizmente, querem fazer de tudo pro que tem de bom no Rio se transformar em um Rio pra Turista *pagar caro*.
Nem o Rio mais pode se conhecer depois desse monte de idéias ‘inovadoras e brilhantes’. Uma pena.
23 de outubro de 2008 às 8:31
[...] gente está publicando três reportagens sobre o bairro: “Franceses, bondinhos e privatizações: Santa Teresa nos tempos de Cabral”, por Debora Lerrer, “O caminho de Santa Teresa”, por Michael Ende, e “Largo das [...]
17 de dezembro de 2008 às 1:21
A questão não é se o transporte dá lucro ou não a algo, mas se ele realmente proporciona a possibilidade de mobilidade para as pessoas. Serviços lucrativos, como os oferecidos pelo transporte coletivo privado, infelizmente impedem, muitas das vezes, as possibilidades e os direitos de ir e vir dos cidadãos. Esse devia ser um direito resguardado pelo Estado. Antes de lucrativo, urge pensar se existe dignidade na oferta de trânsito de gentes em transportes coletivos precários, com motoristas que parecem selecionados exatamente por um perfil psicotécnico doentio, sem um sistema de integração e com tarifas estratosféricas. Proporcionar diversidade de pensamentos, de afiliações e de desejos é perpassada pelo direito de circulação das pessoas, fortemente constrangido por motoristas enlouquecidos, carros entupidos de gente e preços caríssimos. Se se fala em URSS e precarização de maquinário como forma de manter controle sobre mentes e pessoas, talvez esse modelo de transporte coletivo vigente seja um bom exemplo, já que trava as possibilidades de uso do mesmo para expansão de experiências e socialidades. A diferença é que, ao invés de entregar o controle do transporte diretamente ao Estado e seus órgãos competentes, como a polícia, criam-se concessões e presenteia-se linhas estratégicas para presentear velhos coronéis que controlarão a circulação de pessoas pela cidade.
15 de janeiro de 2009 às 22:17
Quando eu era adolescente, não era necessário relógio em Santa Teresa. Os bondes tinham um horário britânico. Era um serviço de transporte exemplar, adequado as condições arquitetônicas do bairro. Quando colocaram aqueles ônibus horríveis, os próprios moradores os adotaram. Aí começou a decadência dos bondes. Sem horário, sem pagamento pelo uso do transporte, acabaram com várias linhas, a que ia até o Sivestre, até o Largo do França e a que descia a Francisco Muratori até a Rua Riachuelo.
O Bonde vai virar atração turística sim. Os moradores deixaram.
11 de março de 2009 às 17:30
O Sistema de Bonde não pode permanecer como está. Seria nadar contra a corrente que vem favorecendo um projeto vitorioso de revitalização do Bairro. Multiplicam-se notícias sobre o fervilhar da especulação imobiliária, do surgimento de novos empreendimentos comerciais, turísticos, culturais. Há um projeto em estudo para diminuição da insegurança, colocando Santa Teresa como piloto de um plano que envolve moderna tecnologia de policiamento (expectativa de diminuição de 40% da criminalidade). Os turistas estão de volta, o bairro voltou ao noticiário da cidade, não pelas catástrofes de desabamentos (como aquelas do passado), ou pelo crescimento das favelas que o circundam (que hoje não é privilégio de nenhum bairro do Rio), ou ainda por um ou outro caso de grave violência. Santa Teresa é uma nova fronteira para o desenvolvimento urbanístico. E como todo desenvolvimento, há que se conceder a existência do PROGRESSO. Aqui permito trazer para os que renitentemente se apegam à resistênia retrógrada, que o conceito de preservação é o que devemos ter, bem diferente do conceito simples de conservação. Preservar é garantir sustentabilidade. Conservar é rebelar-se contra efeito do tempo, é congelar o progresso. Claro que há casos em que o termo se aplica, a bem da memória humana ou da própria preservação, strictu sensu, mas não é o caso do Bonde. O Bonde deve ser conservado sob suas características físicas originais, talvez melhoradas, dentro do possível, a segurança de seu maquinário. Mas deve constituir-se em transporte público, sob concessão, que corresponda a espectativa de quem nele é transportado: custo razoável, segurança e tempestividade. No caso, sou contra à estratégia de se gastar dinheiro público para entregar de bandeja para iniciativa privada, mas encaro com entusiasmo uma parceria público-privada, onde o poder público concede o seriço e dá condições de empréstimo para o setor privado melhorar a rede e o serviço. Em troca, temos, de um lado um bonde mais caro, para atender aos custos da sua modernidade; de outro a garantia, pela intervenção estatal, que estes custos não estrapolarão o razoável, bem como que não se tirará do bonde seu papel junto à população que reside no bairro (garantia de não se fabricar um trem meramente turístico). Sobre o Hotel, de fato, ocorrem alterações na estrutura do prédio original. Só quem é cego não vê. A questão, porém, vem a calhar quando se põe na balança os benefícios gerados pelo empreendimento no Bairro, trazendo oportunidades de emprego, atraíndo bons clientes aos comerciantes do bairro e somando mais pressão privada para a melhoria de um item bastante importante para a conclusão da revitalização e reinclusão na classificação como área nobre: a segurança.
Ora, é infantil pensar que o investimento estrangeiro (que seja! qual o problema? no final este investimentos trazem riquezas e oportunidades de trabalho e geração de renda!) não vá ser importante para garantir melhores condições socio-econômicas no Bairro. Que dirá a segurança, pois qual é o dono de Hotel que não pressionará as autoridades para garantir a segurança no entorno de seu estabelecimento?
Pois bem, eu, como morador de Santa, espero ver crescer o comércio sofisticado (não o de baixo investimento), as opções de Hotelaria Tradicional ou Alternativa (como os simpáticos e bem transados Hostels) de boa qualidade. Quero ver crescer o investimento público: em segurança, em urbanização e fiscalização de obras, sobretudo na permanente revisão das vias de acesso, na iluminação pública e no abastecimento de água e gás canalizado. Quero ver a continuação de um programa cultural diversificado, com a boa manutenção de Museus Públicos, áreas de visitação e contemplação, Bibliotecas e quem sabe, a inauguração de alguma grande Casa de Espetáculos de Show e Teatro. Quero ver projetos que tragam novidade ao bairro, que permitam aos artistas que nele residem espaços permanentes para exposição de trabalhos (tipo feira) e não apenas um dia ou semana. Espero ver vizinhos com a mentalidade de quem sabe valorizar o antigo, MOSTRANDO-O, RENOVADO OU RESTAURADO e não GUARDANDO-O CONSERVADO na bolha de um tempo que passou, dentro do fundo de um armário, no limbo das reminescências degradantes de quem não se repagina, de quem não se abre para o futuro, jogado ao sabor das traças.
28 de março de 2009 às 18:20
Gostaria de parabenizar a revista por mais esta brilhante reportagem e pelo espírito democrático de até mesmo responder a comentários, feitos na Internet, sobre a reportagem. Adoro a Zé Pereira!
2 de agosto de 2009 às 18:32
Era só o que faltava alguem defender as privatizações, os idiotas acreditam no mercado, vendem o Brasil pros gringos e acham bonito e desenvolvido. temos sim que gritar em defesa de uma patrimônio a serviço do povo brasileiro!!
asociedadeseviu.blogspot