13 de abril de 2009
Francamente, Adriano
Por Arnaldo Branco
Na mesma semana em que o Adriano Imperador anunciou sua aposentadoria precoce do futebol para voltar a morar na Vila Cruzeiro, uma pesquisa de O Globo mostra que 95% dos seus leitores são favoráveis à remoção das favelas. Quer dizer, nem bem o carinha se encontrou e já querem despejá-lo.
Nunca fui muito fã do futebol dele, talvez porque seja Flamengo e tenha acompanhado seus primeiros jogos como profissional. O cara, com sua explosão muscular que às vezes o projetava direto contra as placas de patrocínio na beira do gramado, sempre me lembrou o exército americano: era muita exibição desnecessária de força. Mas, face à atual safra de atacantes, lamento que pare.
Só que nem todo mundo apenas lamenta. Adriano vem recebendo repreensões públicas de gente que não entende que haja quem possa rejeitar salário em euro, quanto mais para jogar bola. Um pessoalzinho que parece acreditar que qualquer cascalho compra sentimento de inadequação e que pessoas nascidas na pobreza não têm direito a problemas psicológicos, aparentemente um distúrbio de uso exclusivo da classe média.
Em sua coluna n’O Globo, Ancelmo Góis chegou a dizer que, embora ache muito bonito o funk em que o MC canta que só quer ser feliz na favela onde nasceu, é impossível que se possa viver satisfatoriamente em um lugar sem esgoto. E ainda emendou um “francamente” à guisa de bronquinha no centroavante. Confesso que o texto me deixou curioso sobre onde mora a empregada do Ancelmo.
Não sei o que aconteceu exatamente com o Adriano e, diante de suas últimas apresentações com a camisa da seleção brasileira, o vício em drogas é uma explicação plausível, mas qual seja o problema ele está só exercendo o direito fundamental de se aposentar depois de acumular dinheiro para sustentar umas cinco gerações da família.
Essa mania de legislar sobre a felicidade alheia já deu em muita experiência equivocada, lembrem-se da União Soviética. Se dinheiro não traz felicidade, palpite, muito menos.
15 comentários para “Francamente, Adriano”
Deixe um comentário
- Boas intenções
- A sedução dos inocentes
- Report as spam
- Exclusão analógica
- Ah, a Globo
- Mania de vítima
- As utopias perdidas da geração do Jabor
- Trash kosher
- Falta de ambição
- A esquerda séria
- Eu só estava cumprindo ordens
- Minha lista de melhores do ano
- Vai ver que é pelas crianças
- Licença poética
- O inferno são os outros
- Silêncio na favela
- O sucesso não acontece por acaso
- Deixem o erotismo em paz
- É sobre a Rússia
- Qual é a moral dos moralistas?
- Vendido!
- O A e o Z
- Indignação pautada
- Saudades da direita cínica
- Como é cruel cantar assim
- O uso correto da liberdade de expressão
- Humor: como reconhecer
- Descuido
- Retroceder nunca, render-se jamais
- Chega de perdão
- What’s so funny about peace, love and understanding?
- O que aprendi com a coluna da semana passada
- Vítima da sociedade
- Baixo elitismo
- South american way
- Inimigos da internet
- Vaidade autoral
- Não me inveje, trabalhe
- Unidos lamentaremos
- As agruras do fracasso
- Informação privilegiada
- A pureza da resposta das crianças
- A cultura do carão
- Rota de fuga cheia de encantos mil
- Dadinho é o caralho, meu nome é Michael Corleone
- Vivendo em negação
- Picareta na estátua
- Tragam-me a cabeça de Diogo Mainardi
- Francamente, Adriano
- Indignação seletiva
- O mito do humor inteligente
- Advertisement biatches
- Fatalismo em arte
- Teoria do co-autor
- Por um punhado de ordens de pagamento
- Estado de Graça
- Teoria do autor
- Larica total
- Fase de crescimento
- Calabocracia
- Tempos difíceis para um Stalinista
- Alma do negócio, bunda na janela
- Era mais jogo se eu tentasse fazer charme de intelectual
- Isto era Hollywood
- Parem de formar o público leitor
- A banalização da misantropia
- Gossip world
- Gentileza gera gentileza
- Ridendo castigat mores?
- Consciência culpada
- Fome F.C.
- A grande ameaça amarela
- A vigência dos nerds
- O último tango na praça Paris
- O ataque dos telepatas assassinos
- Concorrência desleal
- A morte do sapo
- Disposição contrária
- To be or to appear to be, that is the etc etc
- Kill kill kill the poor
- As portas da percepção
- Home of the brave, land of the free
- Patrulha de Elite
- A questão do conteúdo
- A inteligência em mãos erradas
- O Brasil é um país sem o que mesmo?
- Coleção Primeiros Passos: O que é Didatismo
- Humor anal
- Um mundo de possibilidades
- O Homem superando os meus limites












13 de abril de 2009 às 12:30
[...] A gente já falou da decisão do Imperador, mas o Arnaldo Branco o faz com maior propriedade ainda em sua coluna desta semana. Leia aqui. [...]
13 de abril de 2009 às 13:54
[...] Minha coluna sobre o Bartleby, o São Francisco de Assis do futebol: Francamente, Adriano. [...]
13 de abril de 2009 às 14:26
Segui sugestão do @marioamaya e não me arrependi: opinião muito bem colocada, a melhor que vi até agora!
13 de abril de 2009 às 14:27
República Federativa Big Brother Brasil, ou Brasil: um país de novela.
13 de abril de 2009 às 15:01
Melhor se aposentar precocemente do que ficar ad eternum e claramente sem nenhuma vontade de jogar, como é o caso dos dois Ronaldos, do Romário (que espremeu até o bagaço), e de tantos outros. O Roberto Carlos só sumiu do mapa (melhor momento de sua carreira) pois ficou com medo de ser ridicularizado após o papelão na copa.
Todos eles, depois de uns 5 ou 10 anos jogando profissionalmente e não sendo maníacos gastadores inveterados, têm condição de se aposentar e viver de renda. Talvez não numa mansão mas certamente num bom apê em qualquer área nobre de qq lugar do Brasil.
O Adriano é maluco de querer morar na favela, mas algo compreensivo se levarmos em conta que é lá onde estão seus amigos de infancia e tal. A questão de remoção de favelas é outra coisa.
Mas a Globo vem fazendo campanha sobre “como é boa a vida na favela.” Todo o dia tem reportagem falando de mais um benefício que o governo dá aos favelados, ou como as pessoas da favela estão montando negócios duradouros dentro das mesmas.
Se 95% são a favor da remoção das favelas, acho que a Globo pretende mudar esta opinião.
13 de abril de 2009 às 15:51
O Romário também queria se aposentar aos 28 anos (e, na verdade, foi o que fez, ao voltar pro Brasil) e o Sócrates idem (e hoje em dia vive de dar entrevistas sobre como o time de 82 era melhor do que os que foram campeões e se candidatando pra CBF, depois de tanto dizer que odiava o mundo do futebol e gostava era de medicina).
O problema é que o Adriano já deu uma deixa para o Flamengo. Resta saber se é porque é o clube de coração dele ou se é porque sabidamente reina lá a turma do chinelinho. Há sempre a chance de que na verdade ele ache que não precise de todo o treinamento e disciplina da Inter pra jogar bola e que o ideal é cavar uma vaga de titular num clube mal-administrado e viver na noite.
Quanto a problemas psicológicos, o cara vive fazendo o que (aparentemente) gosta, o sonho de quase todo mundo. Por experiência com gente próxima, eu sei que quem tá passando por problemas, ficar ocioso sem trabalhar normalmente piora MUITO a situação, mesmo se a criatura estiver livre de problmeas comezinhos como sustento financeiro.
13 de abril de 2009 às 16:09
CRAQUE!
13 de abril de 2009 às 17:07
Respeito o cara por ter sido honesto consigo próprio. E imagino como deve ser uma merda vc simplesmente fazer sua vontade e ter que aguentar o Pelé, o Zagallo falarem mal de vc na TV. Eu também acho que se eu fosse ele, iria pro Flamengo, com aquela velha condição de não treinar (vide Romário). Ele finge que joga, a torcida finge que acredita, vai pra night, mete uns gols de vez em quando nesses timinhos ridículos (Fluminense) e todos ficam felizes.
13 de abril de 2009 às 19:28
Excelente, Arnaldo.
13 de abril de 2009 às 20:52
acho q rola muito preconceito explícito contra o povo pobre nesse país. como se agora q tem grana ele devesse ir pra um spa em miami ou ibiza para tentar parar de beber. se o cara quer ficar de boa, onde quer q seja, deixa o cara, ninguém tem nada com isso, só o empregador dele, no caso a inter de milão, é pra quem ele deve satisfação, e os eventuais contratos esportivos com marcas, acho.
14 de abril de 2009 às 16:01
excelente, excelente!!
16 de abril de 2009 às 2:07
Arrasou, A. Sobretudo na última frase.
Podia rolar uma aposentadoria compulsiva pro Ancelmo G., né não? Já deu de falar besteira com uns tiquezinhos no final.
Abraço de D.C.
21 de abril de 2009 às 21:16
[...] impossível que se possa viver satisfatoriamente em um lugar sem esgoto. … fique por dentro clique aqui. Fonte: [...]
6 de julho de 2009 às 22:15
[...] -Arnaldo Branco, cartunista brasileiro. Comentário muito lúcido e com uma veia irônica que eu invejo. Clique aqui para ler. [...]
24 de agosto de 2009 às 18:18
[...] Revista Zé Pereira» Arquivo do Blog » Francamente, Adriano http://www.revistazepereira.com.br/francamente-adriano – view page – cached Na mesma semana em que o Adriano Imperador anunciou sua aposentadoria precoce do futebol para voltar a morar na Vila Cruzeiro, uma pesquisa de O Globo mostra que 95% dos seus leitores são favoráveis à remoção das favelas. — From the page [...]