6 de julho de 2010
Fotodiário celular HK CXIII
BLOG, Cenas, FOTODIÁRIO CELULAR HK
Por Henrique Koifman
Criança, lembro-me de sonhar com uma espécie de armadura que me protegesse de qualquer tipo de risco. Além de invulnerável, a tal roupa me faria invisível, imune assim a feridas na pele e na alma. Sem arranhões nem desilusões. Com o tempo, fui percebendo que, sem pelo menos alguns riscos e incertezas, estaria me distanciando também das maiores alegrias. E passei a entregar às musas alguns dos meus poemas, a expressar opiniões, a escolher um lado, a chutar para o gol em vez de tocar a bola pro lado, a torcer apaixonadamente pelo meu time. É, escrevo isso tudo por conta da derrota da Seleção na Copa. Fazer o quê?
No sábado da semana anterior, descobri que um vaso de plantas vazios que guardei na garagem se transformou em condomínio de vespas. Na mesma manhã, passamos pela feirinha da General Glicério para comprar um presente. À noite, fomos convidados para jantar na casa de novos vizinhos aqui do edifício e registrei o piano (pena que o Fotodiário não tenha som, pois nosso novo amigo toca maravilhosamente). Domingo, antes de pôr a mesa para o café da manhã, cliquei o arranjo de flores. E novamente na garagem, gostei do brilho do motor da moto de nosso amigão C.A. sob o reflexo do sol. Peguei o carro e levei o caçula à casa de um colega dele, na Tijuca. Na volta, parado num sinal da Hadock Lobo, registrei o grande portão de uma antiga construção (seria uma escola?).
Segunda, depois do almoço, no Centro, passei pela padaria para um cafezinho e, pouco depois, voltei caminhando para assistir ao Brasil x Chile em casa. Quase na esquina da Evaristo da Veiga com a Av. Chile, uma torcedora de boné patriótico passou apressada na frente do celular no momento em que eu estava fotografando algo de que nem me lembro mais. Mais adiante, no catete, dessa vez de propósito, cliquei outro torcedor com um chapéu que legendava seus pensamentos e, quase no Largo do Machado, encontrei vários camelôs vendendo camisas amarelas.
Na terça pela manhã, andando pela Praia de Botafogo, notei ferramentas, cimento, capacetes e uma bola de futebol (!) no canto de um canteiro de obras. Entrando pela Marquês de Abrantes, passei por uma loja de plantas com regadores e catavento coloridos. Peguei o metrô e, ao saltar na Cinelândia, cliquei uma freira apressada dentro na estação. Já na hora do almoço, na Presidente Antônio Carlos, encontrei um ipê florido junto a um edifício cuja fachada parecia ter sido pintada em sua homenagem. Pouco antes, passando pela Rosário, vi uma coleção de chapéus Panamá pegando sol em uma vitrine e, alguns quarteirões adiante em direção ao mar, topei com uma escultura que me lembrou uma pilha de escudos de combate.
Quarta, caminhando pela Ouvidor, olhei para cima e gostei do encontro do céu com os sobrados e bandeirolas. Almocei sushi no Haku San e depois fiz um caminho um pouco maior de volta ao escritório, cortando o pátio do Passo Imperial – onde encontrei um interessante muro-escultura, feito de cimento e lixo. Seria uma proposta arquitetônica sustentável? No fim do dia, passando pela Cobal do Humaitá, fotografei uma das lojas embandeiradas.
No dia seguinte de manhã, peguei o ônibus para o Centro e cliquei a moça com seu livro no banco ao lado. Pouco depois, pela janela, foi a vez de passantes na calçada do Catete – um deles, parado junto a um muro, parece ter percebido. Almocei no chinês da Senador Dantas um prato marítimo: peixe empanado, sardinha e pastel cozido de camarão com arroz e salada.
Sexta, assisti à derrota da Seleção no jardim de nosso edifício, com os vizinhos. Num canto do terreno, encontrei largada uma bola meio murcha, quem sabe espirrada do segundo tempo daquela partida. Depois do jogo. No ponto do ônibus, em Laranjeiras, encontrei duas moças que esperavam pela condução para voltarem às suas casas – mais ou menos como os titulares daqueles uniformes deveriam estar fazendo, naquele exato momento, lá na África. Na mesma tarde, passando pelo Largo da Carioca, cliquei a estação do metrô invadida pela luz do sol.
O “sombrero” mexicano verde é de um restaurante na Laranjeiras, onde almoçamos no sábado; o barzinho iluminado é novo e fica na Correia Dutra, por onde passamos na quarta à noite, a caminho da casa do meu irmão; o sobradinho ao sol caindo aos pedaços fica na Rua da Lapa, parte do meu trajeto para casa na segunda.
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