27 de abril de 2010
Fórmula eficaz
BLOG, Cine PE 2010, Cinema
Guel Arraes volta a fazer comédia ligeira com linguagem de TV em “O bem amado”
Por Eva Jofilsan
Foto de divulgação
Diferentemente dos outros anos, a abertura do Cine PE 2010 no Teatro Guararapes foi atípica, com a casa lotada como normalmente fica apenas nos finais de semana. A razão do rebuliço tem nome e sobrenome: Guel Arraes. Além de ter sido o homenageado da noite, premiado com o trófeu Calunga de Ouro, o diretor pernambucano estreou seu novo filme, “O bem amado”, baseado na obra de Dias Gomes.
Depois de tentar mudar o seu tom na direção do pouco convincente “Romance”, o cineasta retomou sua origem apostando na comédia. A idéia de adaptar a famosa peça de teatro montada pela primeira vez há mais de 40 anos, aqui mesmo no Recife, parece ter caído como uma luva para a direção de Guel Arraes. Por si só, a peça contém todos os elementos necessários para uma ótima adaptação para a tela grande: um roteiro consistente, rápido e personagens cuidadosamente desenvolvidos. A sintonia entre o texto de um e a direção do outro é evidente, pois Guel é um diretor de filmes de roteiro. Suas obras sempre se basearam na rapidez dos diálogos, na aparente inexistência de improvisação (tudo está milimetricamente ensaiado) e como em toda comédia, nas atuações caricatas, na repetição de cenas e nas constantes reviravoltas (nem sempre plausíveis). Uma fórmula tantas vezes repetida, mas que ainda faz sucesso. Não houve quem não desse ao menos uma risada durante a projeção.
O filme se passa em Sucupira, pacata cidade do litoral baiano. Após Zeca Diabo assassinar o prefeito e a população precisar andar até a cidade mais próxima para enterrá-lo, o fleumático Odorico Paraguaçu (Marco Nanini) se candidata a prefeito prometendo a construção de um cemitério. Um ano após sua construção, o cemitério ainda não havia sido inaugurado. O motivo: ninguém morreu na cidade desde então. Desesperado, Odorico começa uma busca incansável por um defunto. Todas as histórias paralelas dentro do roteiro fluem contra ou a favor da causa do protagonista. Menos a do jovem casal Violeta e Neco (interpetados por Maria Flor e Caio Blat); ela, a filha de Odorico; ele, fotógrafo do jornal de esquerda da cidade. O romance, fruto da adaptação de Arraes, não influencia ou sequer causa impacto. A personagem de Maria Flor foi inserida para abordar a liberação sexual do final da década de 60; porém, não convence nem magoa. Passa batido.
Mesmo ainda se utilizando de uma estética mais televisiva, dessa vez Guel Arraes pareceu se permitir certas ousadias cinematográficas, como uma montagem em que uma cena dramática é retratada como se fossem quadros de uma fotonovela, e uma brincadeira ou outra com a câmera. Mas sem abusar, nem perder o caráter comercial do filme.
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