13 de novembro de 2009
Fora da área de cobertura
Por Poliana Paiva
-Fê, tá podendo falar?
-Tô vendo um filme besta na TV, mas diga lá!
-Olha a situação: tô aqui no Mineiro com Clarinha, tomando umas, daí chega Alexandre naquele esquema “não é porque a gente não namora mais que eu não posso ser seu camarada nem ficar me lamentando com suas amigas, como bom coitadinho que sou”, sabe assim?
-Ui, se sei…
-Pois então, sentou na nossa mesa e não vai embora nem fudendo, tanto que foi até pegar um casaco no carro!
-Vixe, quem pega casaco no carro quer estabelecer laços…
-Então, só preciso de um telefonema seu urgente daqui a uns cinco minutos, do tipo “se você não vier pra cá agora, eu me mato!”
-Pode deixar, mas porra, Anita, toda vez que você vai ao Mineiro o mala do Alexandre aparece! Não sei por que insiste em ir praí! Na boa, parece até que tá querendo encontrar com o cara!
-Bonita, isso não vem ao caso agora, ok? Me liga, que depois de escapar dele a gente compra umas cervejinhas e vai pra tua casa, pode ser?
-Lógico!
Em 10 minutos, Clarinha, na maciota, começa a encenação:
-Acho que seu celular tá vibrando, Anita.
-Ih, é! Gente, nem percebi…
-Não atende não! Que saco, deve ser esse povo do seu trabalho!
-Deixa eu ver. Ué, é a Fê! Estranho, já nos falamos hoje…
-Então atende, né? Posso pedir mais uma?
Em uníssono, Anita (já com o aparelho no ouvido) e Alexandre, concordam:
-Pede!
Clarinha só levanta a mão, num gesto universal indicativo de que a cerveja precisa ser reposta.
Nisso, Fernanda, que teve de deixar sua comédia previsível de lado pra participar do joguinho da amiga, cumpre com o combinado de tirá-la daquela situação, sem, no entanto, perder a chance de dar aquela sacaneada básica:
-E aí, Anita, tô ligando na hora combinada, viu?
-Oi, Fêzinha, que que mandas, amiga?
-Você sabe o que eu mando, né, sua vaca! Faz cara de sofredora agora, pra ver se convence alguém!
-Jura? Mas quando foi isso?
-Quando foi o quê, sua falsa? Se vira, inventa uma história decente!
-Não, querida, não chora, que ele não vale tudo isso…
-Gente, você é uma atrizinha de quinta, hein? Vou te falar!
-Ai, amiga, se você quiser que eu vá praí agora, eu vou!
-Ok, mas vem logo! E vê se dessa vez traz umas Smirnoff Ice ao invés de meia dúzia de Itaipava quente!
-Não, não vai atrapalhar nada, tô tomando já a saideira aqui com Clarinha. O Alexandre até apareceu, acredita?
-Que coincidência né, menina? Aproveita e manda um beijo presse péla-saco dos infernos!
-Não, querida, eles vão entender, fica tranquila! Em meia hora tô aí. É só o tempo de fechar a conta e deixar Clarinha em casa. Ou você quer que ela vá também?
Logo depois desliga e, com o semblante compassivo, dá sua grande fala:
-Fernanda mandou um beijo pra vocês. Gente, desculpa, mas preciso ir, ela acabou de terminar com o namorado, tá péssima! Vou comprar uma vodka e dar uma assistência até ela vomitar e capotar, aquele esquema…
Clarinha, em busca do Oscar de coadjuvante, completa:
-Será que ela quer me ver também?
-Não, amiga, infelizmente, essa eu que vou ter que segurar sozinha…
-Força, então, vai dar tudo certo!
-Quer uma carona?
-Quero.
Alexandre, num misto de entendimento e perplexidade, leva as moças até o carro. Como candidato à vaga de péla-saco do século, dá sua cartada final:
-Se quiser, Anita, posso levar Clarinha em casa, pra você chegar logo na Fernanda. Nessas horas, quanto mais rápido se age, melhor, né? Vai que ela faz alguma besteira…
-Precisa não, querido, mas obrigada pela força, viu?
Alexandre voltou pro bar, provavelmente à caça de alguma ex-namorada pra impregnar antes de ir pra casa assistir ao Fantástico e bater umazinha em homenagem à Anita.
Já as meninas foram encontrar Fernanda, pra beber mais, falar mal dos homens e tentar entender por que moças como elas não gostam de rapazes como Alexandre, sempre dispostos a dar carona, a pegar casacos no carro e a pagar a conta.
Para moços assim, estavam sempre fora da área de cobertura.
Ou desligadas.
Poliana Paiva mantém o blog flor de laranja
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