3 de maio de 2009
Fim de jogo
BLOG, Cine PE 2009, Cinema
Termina a competição do Cine PE e o surpreendente “Silêncio e sombras” é o destaque
Por Eva Jofilsan
Fotos de divulgação
É chegado ao fim a XIII edição do Cine PE, festival recorde de público no Nordeste. A diversidade dos filmes da noite de sábado representou bem o que foi o Festival esse ano. Antes de iniciar a sessão de curtas metragens, fomos apresentados aos finalistas do Cel.U.Cine – Festival de Micrometragens. A divulgação dos três vídeos premiados será no Festival do Rio que acontecerá no final de setembro.
Lotado mais uma vez, o Cine PE contou com a presença massiva do público nas duas últimas noites do evento. Contando com seis curtas metragens (em formato digital e em 35mm) e apenas um longa metragem, o Festival teve boa receptividade do público mais uma vez. Mostrando que o estilo cinemão ainda é preferência para maioria.
“Pelo ouvido” (foto), do diretor Joaquim Haickel, intrigou a todos logo de início. O primeiro curta em digital da noite conta a história de um casal tem a vida completamente modificada depois que um acidente de carro que deixa o marido cego, surdo e mudo. O curta tem um bom desenvolvimento e caso o personagem não tivesse as três deficiências, dificilmente haveria uma lógica no roteiro. Mas já que se propõe a um certo realismo, o ponto de partida da história é um pouco sem nexo. Por esta razão, durante todo o tempo do filme, muitas pessoas (inclusive eu) tiveram dúvidas sobre qual era finalmente a deficiência do personagem e como isso afetava a relação com a sua mulher. Um ruído que não atrapalha totalmente o filme, mas deturpa um pouco a compreensão.
Já era a hora de alguém fazer um documentário que tratasse da revolução que foi o Abril Pro Rock na cidade do Recife. “Abril Pro Rock – Fora do eixo” relata desde o início a história do festival que alavancou bandas como Chico Science & Nação Zumbi, Pato Fu, Los Hermanos e muitas outras. Sendo um documentário o projeto de conclusão de curso dos jornalistas Everton Teixeira, Ricardo Almoêda e Júlio Neto, o curta não traz grandes inovações ao gênero. O estilo depoimento, imagem de arquivo, depoimento, imagem de arquivo dá um ritmo batido ao que poderia ser um documentário dinâmico se baseando pelo tema. O trabalho de produção em relação à coleta de depoimentos é bem razoável, principalmente por ter conseguidos nomes de destaque nacional como Fernanda Takai (“Patu Fu”) e Bruno Medina (“Los Hermanos”). Porém não acrescentam nada de significativo ao documentário. Algumas locações onde acontecem as entrevistas são muito conhecidas pelos recifenses – bar Central, bar Casa da Moeda, Rua da Aurora (na beira do Capibaribe), entre outras. As imagens cartões postais logo no início do curta causaram frison no Teatro Guararapes, e obviamente influenciou a aceitação do público (bairrista) em favor do curta. A história do Abril foi divida em legendas, o que facilita a vida da platéia (e sem dúvida facilitou a dos diretores na hora da montagem), mas impede a fluência do filme, principalmente a ligação entre os depoimentos. A técnica é um caso à parte. Talvez por inexperiência, os diretores não tiveram o cuidado necessário com a fotografia e o som – dois elementos fundamentais na construção de um produto audiovisual. Terminado o filme, o público enlouquece e só me resta a sensação de que o Recife deveria rever seus critérios de aceitação.
Na seqüência veio o “Dez elefantes”, de Eva Randolph, que teve sua exibição claramente prejudicada pela empolgação da platéia com o filme anterior. O curta metragem é lento, psicológico, mais introspectivo e o público ainda no clima de “Abril Pro Rock”. Conter as energias foi difícil. Retratando a infância de Clara, uma garota que mora com a mãe e o irmão em uma fazenda, o curta aposta em uma montagem psicológica para dar ênfase às percepções da menina. Sendo esse o seu primeiro filme como diretora, Eva optou por trabalhar com crianças inexperientes com atuação. Depois de dois meses de preparação, os atores mirins estavam aptos para as filmagens. Uma atitude que não só pode dar certo como estimula esse processo de direção de elenco (tão esquecidos por alguns diretores). Um filme que contém todos os elementos necessários para uma bela obra cinematográfica, porém por ser tudo tão pensado e limpo, falte um pouco de sentimento na direção. (continua aqui)
“Silêncio e sombras” foi a grande surpresa na noite de sábado. A primeira experiência com animação do diretor Murilo Hauser demorou cinco anos para ficar pronta – os cincos anos mais bem aproveitados da vida de um diretor, diga-se de passagem.
Pena não ter sido visto pelo público com olhos atentos e sensíveis – nada que fuja do humor tem o recebido o merecido destaque no Festival. Uma animação poética e sombria, baseado no poema “Der Erlkönig”, clássico do escritor alemão Goethe e tendo como trilha sonora a bela adaptação para piano solo do músico Franz Liszt. “Silêncio e sombras” é uma obra paradoxal desde sua essência até sua forma. Sendo, ao mesmo tempo, sonho e razão e jogando com o contraste de luzes e sombras para expressar o clima delicado e soturno do poema. Recheado de signos e de possíveis conceitos, tentar racionalizar, descrever ou sintetizar o curta é o caminho mais vago para a chegada de um entendimento.
Assisti-lo é o único meio de compreender sua essência.
O documentário “Phedra”, da diretora Cláudia Priscilla, conta a história da cubana e transsexual Phedra de Córdoba erradicada no Brasil desde 1959. O documentário permite à protagonista uma elucubração sobre sua própria história. A discreta interferência da diretora é imprescindível para esse tipo de resultado. Os relatos da cubana que fez sucesso no Teatro de Revista nos meados da década de 60 são envolventes, mas não causam maiores estímulos no espectador.
O preconceito está encruado na sociedade. Clichê, não? Mas é exatamente essa a impressão que temos ao assistir “Hóspedes”, da diretora Cristiane Oliveira. A história de Lara, garota que sofre um acidente e é socorrida por Renato, mexe por nos fazer rever certos conceitos que o próprio cinema ajudou a disseminar. O fato é que Renato é anão, mas em nenhum momento isso é mostrado como algo bizarro ou digno de risos. Apenas em uma cena há uma impressão que o filme realmente vai seguir a linha óbvia da garota indefesa e o anão psicótico, mas, por sorte, logo essa imagem é desconstruída.
Um filme para fazer pensar em nossas concepções e preconceito.
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4 de maio de 2009 às 1:07
Muito legal a matéria e o site! Conheci o site em um panfleto distribuído no Cine PE e adorei! Parabpens pra vcs!