Festival do Rio 2007 | Revista Zé Pereira
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Festival do Rio 2007

Domingo, 30 de Setembro de 2007

Farras regadas a tequila

Por Estevão Garcia

Estréia do ator Gael García Bernal na direção, "Déficit" narra um determinado dia da vida de Cristóbal, playboy, filhinho de papai mexicano que está organizando em sua casa de campo uma grande festa. A partir dessa premissa vemos desenvolver o retrato de uma certa juventude da classe alta mexicana. Seus preconceitos, suas posturas colonizadas e racistas são expostas como um dado fincado e entranhado na cultura do país. Gael mais do que criticar ou denunciar quer promover um recorte, mostrar, descrever pessoas e situações que a principio ele conhece bem. Por isso, ao captar o clima, as brincadeiras e as bebedeiras de um dia de farra o filme caminha bem sem tropeçar. A situação banal de Cristóbal tentando de várias maneiras atrasar a chegada de sua namorada na festa para ganhar tempo e pegar a linda convidada argentina revela-se ser o mote de algo mais importante. Esse algo transparece na sequência final, quando o protagonista está sozinho e sua imagem é distanciada pela camêra. Gael García Bernal inicia-se na direção nas pontas dos pés, com cuidado e cautela, sem as grandes pretensões que marcam a estréia de muitos atores atrás das camêras. E em "Déficit" a contenção parece ser um dado positivo.

Maré Baixa


(Maré, nossa história de amor, Dir: Lúcia Murat, Brasil, 2007)

Por Estevão Garcia

O musical de Lúcia Murat parte do pressuposto que "a realidade" do Rio de Janeiro, logo a do Brasil, se concentra na ambiência da favela. A professora de dança contemporânea interpretada por Marisa Orth, mulher branca da Zona Sul, está lá para ensinar a sua arte aos desfavorecidos. Exemplo da mulher de classe média com consciência social, ela entra no espaço marginalizado da Favela da Maré achando ser viável a possibilidade de permanecer na neutralidade. O seu galpão se situa no meio de duas quadrilhas rivais, uma manda que a fachada de sua escola de dança seja pintada de vermelho, a outra lhe ordena que seja de azul. Ela se encontra no meio de um fogo cruzado e não quer tomar partido, não quer eleger um lado. Precisando arranjar um patrocinador para que não necessite mais receber ajuda financeira de bandidos, a professora convida sua amiga rica e cheia de contatos para fazer um tour pela favela. A dançarina diz algo do tipo para a ricaça: "vamos, assim você aproveita e conhece a realidade."

Realidade é um termo muitas vezes pronunciado em "Maré, nossa história de amor". Em um dado momento, Jonatan diz à professora que ela não sabe nada da realidade. Por ser um elemento externo e não originário daquele contexto, ela, na visão do garoto, não estaria apta a compreende-la profundamente. O olhar deslumbrado da amiga rica que passeia pela Maré tirando fotos com a sua câmera digital dizendo que lá parece uma “cidade medieval” é, de certo modo, compartilhado pelo personagem de Marisa Orth. A energia, a vitalidade, os "músculos" dos adolescentes da comunidade são para ela fascinantes. O encantamento pelo outro, a curiosidade pelo desconhecido é o que a levou e é o que a impulsiona a permanecer naquele lugar. Mesclado à sua postura política e ao seu sincero desejo de ajudar a vida da comunidade da Maré está, sem sombra de dúvida, o seu encantamento.

Não há nada de errado no deslumbramento em si. O encantamento sentido pelo personagem de Marisa Orth é apenas um desdobramento do encantamento expresso pelo olhar da realizadora. Aqui criatura (a professora de dança) e criador (Lucía Murat) são elementos indissociáveis. A atitude do artista de se maravilhar com o seu objeto, seja ele um personagem, um tema ou um contexto sócio-cultural, não é necessariamente um limitador. Não é essa postura que podará o alcance de sua arte. O que poderá sim podar a força da obra de qualquer artista é a perda de controle e do equilíbrio dos elementos que a compõe. E podemos afirmar que em "Maré, nossa história de amor", Lúcia Murat exagera na dosagem de seu deslumbramento.

Ao colocar o deslumbramento em primeiro plano, ou seja, ao colocar em destaque os corpos do casal protagonista e dos números musicais com a favela de fundo, a diretora se esqueceu dos outros elementos da narrativa. A armação da trama é frouxa, o romance de Jonatan e Lídia não é desenvolvido, o conflito e o ódio sentido por seus familiares são construídos de maneira preguiçosa. Se a idéia era fazer um "Romeu e Julieta" passado na favela e daí vem o subtítulo "nossa história de amor", o enredo de amor e ódio não deveria a principio ser posto tão em segundo plano. A questão é que o conflito central do "amor proibido" torna-se tão secundário que, nós espectadores, não temos sequer a preparação para o desfecho. A história de Romeu e Julieta é mais um pretexto para se fazer um musical na favela do que inspiração para se narrar uma história de amor ambientada na favela, por isso o efeito de tragédia se dilui e a morte do Romeu e Julieta brasileiros não emociona.

"Um ramo"


Marco Dutra e Juliana Rojas, diretores do curta "Um ramo", que ganhou o Prêmio Découverte Kodak, na 46º Semana Internacional da Crítica do Festival de Cannes 2007, preparam o roteiro de seu primeiro longa-metragem. O filme, que está na mostra competitiva de curtas do Festival do Rio, pode ser visto hoje, às 17:45h e às 22:15h, no Estação Ipanema 1.

Sábado, 29 de Setembro de 2007

"Esconde-esconde" é imperdível


Por Anna Azevedo

Dica para hoje, sábado: o curta-metragem "Esconde-esconde", de Alexandre Sivolella Barreiro, Álvaro Furloni, Davi Kolb e Lígia Diogo, dirigido pelo Álvaro. Às 19h15, no Odeon. "Esconde-esconde" é uma pequena obra-prima de direção e roteiro. A turma é da UFF. Nos últimos anos, a faculdade de cinema de Niterói tem lançado no mercado uma excelente geração de críticos, e agora tá chegando aí uma galera que, além de boa de crítica cinematográfica, bate um bolão no fazer cinema brasileiro de verdade. Imperdível: a UFF e o "Esconde-esconde".

Pobre rainha


Por Eduardo Souza Lima

O melhor filme do Freddie Mercury está no YouTube. Esse troço é muito engraçado. Mas "A verdadeira história de Freddie Mercury", que passou ontem no festival, é igualmente inacreditável. É o documentário é o mais careta sobre a face da Terra - sobre um cara que se autodenominava "A Rainha". Numa reconstituição de época impecável, vemos o menino Farrokh Bommi Bulsara saindo de Zanzibar para estudar num colégio na Índia. Rola uma entrevista com o diretor da instituição com cabras passando ao fundo. Você fica esperando alguém do Monty Python aparecer na cena pra descabelar o cara e nada. É tudo seriíssimo. A quantidade de papas na língua que a ex-mulher dele - por sinal, uma coroa bonitona - usa pra falar que o cara era gay é outro grande momento de humor involuntário. Com certeza o filme foi selecionado para o festival na base da cabra-cega.

Sexta-feira, 28 de Setembro de 2007

Dormir é bom


Por Flu

Porra! O que tá acontecendo com os mosquitos? Já coloquei líquido nos repelentes de tomada, troquei para as pastilhas e nada! Eles não respeitam mais a superioridade humana!!? Ficam incomodando, querendo festinha nas cavidades do ouvido. Geralmente eles chegam pelas 3 e 30 e acabam com uma boa noite de sono. E eu gosto de dormir. Tenho que me tapar e ficar passando calor. Mesmo assim eles continuam infernizando... Já o cara do CASHBACK (Sean Ellis, Reino Unido, 2006) não consegue mais dormir. Não por neurose de mosquito, mas porque separou da namorada. Namorada legal. No primeiro dia solteira, tava agarrada no colega de faculdade. Mas ele não consegue esquecer os dias felizes ao lado dela. Sem sono, pega um emprego num super mercado. Lá faz grandes amizades e conhece sua futura nova namorada. Que querido!! Mas é chatão!! O diretor vem da fotografia de moda e videoclipes. Tem uma estética pra lá de batida. O filme parece que passou no lava-roupas umas 3 vezes. Os atores são todos limpos e cheirosos. O cara usa os truques de edição à exaustão. Acha que congelando a imagem (o tempo na visão do protagonista) está conseguindo uma ótima sacada de roteiro. Argh! A única boa sacada são os nus femininos (bem legais) e a declaração de amor ao corpo da mulher. Desejo ao diretor uma boa carreira na publicidade.
Minha próxima sessão seria às 23 e 30. CONTOS DE TERRAMAR (Goro Miyazaki, Japão, 2006) Como não tenho tido boa noite de sono, o filme nesse horário teria que prender a atenção. A sinopse falava em dragões voadores, magos e mal da humanidade. Me pareceu bem agitado. Parecia que iria ver um filme bom, aventuras mágicas, acontecimentos surreais. Tomei uma ceva num pé-sujo pra animar e me mandei pra o cinema. Era animação. Beleza! Adoro animação. Só que japonês faz animação como novela. É fabricação em série. Os traços e estruturas de roteiros geralmente seguem os mesmo caminhos. Sempre baseados em mangás super conhecidos lá no oriente mas que nunca ouvi falar. Resumindo: dormi nos primeiros 15 min. Tentei acordar algumas vezes. Uma das vezes fiquei pensando em quem teria matado a Taís na novela das 8. Daí uma menina começa a cantar um a capella. Dormi. Acordei e fui embora. Poderia estar roncando e atrapalhando os fãs de mangás.

A Grande Ilusão

Por Arnaldo Branco

Vou pouco ao cinema, e só a filmes que me parecem promissores. A média é 3 por ano, e nem todos correspondem à expectativa - meu barato é filme antigo e de diretores que admiro; na locadora devem me achar sovina porque são bem mais baratos. Portanto me causa espanto essa gincana de Festival com neguinho correndo atrás de vários (o Globo fez uma lista de 40) filmes "imperdíveis". Como dizem por aí, brasileiro não sabe perder.

É o que meu camarada João Mors chama de nevrose de novidade. Estamos em uma fase em que o segundo filme de algum Jean Luc Ninguém é chamado de "um Jean Luc Ninguém menor". Outro que estreou anteontem já é considerado um cineasta de carreira. Isso é o que em futebol é chamado de "queimar juvenil" - aí o fã de primeira hora é obrigado a ver os filmes ruins de uma eterna promessa frustrada como o Hal Hartley para toda a eternidade.

E tem essa enxurrada de diretores asiáticos. Pelo menos aí rola uma vantagem, todos têm nomes complicados e difíceis de virar adjetivo. Acho que não corremos o risco de ler algum crítico escrever sobre o "Universo WongKarWainiano".

Coutinho é cinema


Eduardo Coutinho, o homem que é uma escola de cinema, agora vai virar sala também. O grupo - dá uma alegria danada escrever isso, grupo - Ponto Cine, que fez de Guadalupe uma referência para o cinema brasileiro, amplia sua área de atuação e inaugura em dezembro três salas no Shopping Penha. Uma delas, que será exclusivamente dedicada ao cinema nacional, vai se chamar Eduardo Coutinho.
Falando no documentarista, seu mais novo filme, "Jogo de cena" passa na quarta-feira, às 12h e às 19:15h, no Odeon, e na quinta-feira, às 14h e às 19h, no Leblon 1. O filme estréia no circuito no dia 15 de outubro.
Outro filme exibido no festival que está chegando ao circuto é "Mutum", de Sandra Kogut, que será lançado dia 9 de outubro.

Caindo de pára-quedas

Por EduardoSouza Lima

Um trágico incidente fez "Fala tu" maior do que a vida. Em seu segundo longa-metragem, "PQD" (que passa hoje às 18:15h, no Espaço de Cinema 3) Guilherme Coelho perdeu, por duas vezes, a oportunidade de transcender novamente. Acontece bem no finalzinho do documentário, quando um de seus personagens - recrutas de um batalhão de pára-quedistas - diz, ao dar baixa, que poderia só arrumar emprego de burro de carga, pois não aprendera "nada" no Exército, a propalada "escola para a vida"; e quando outro conta que gostaria de ter ido ao Haiti, mas desistiu porque talvez fosse obrigado a matar alguém "que só estaria protestando contra o governo" - isto num país onde historicamente as forças armadas sempre apoiaram ditadores, defenderam os poderosos e estiveram contra o povo, fora a situação existencial terrível em si. Até chegar a este ponto o filme pouco apresentou de revelador e o diretor deu pouca atenção a este tremendo material de reflexão que teve nas mãos. É uma pena.
Guilherme, que é filho do político e empresário Ronaldo Cezar Coelho (também produtor do filme), também fez um discurso um tanto confuso antes da sessão, no qual chegou a dizer que não existia elite no Brasil. Só ser for no sentido literal.
Mas o diretor teve um grande mérito: lotou o Odeon com um público - militares e seus familiares, gente pobre ou remediada das zonas Norte e Oeste e da Baixada - que dificilmente tem acesso ao cinema. E para se ver.

O fim do cinema-Kerlon


Por Eduardo Souza Lima

Lá para as tantas, Paulo Cesar Saraceni fala em "Etnografia da amizade" (que passa amanhã, sábado, no Centro Cultural da Justiça Federal às 18:30h), documentário de Ricardo Miranda, que, em sua breve carreira como jogador de futebol do Fluminense, chegou a jogar uma vez ao lado de Didi: "Meu cinema foi influenciado pelo Didi, por suas jogadas geniais. Por isso eu prefiro câmera na mão. Com câmera na mão dá pra fazer folha seca". Craque é craque, seja lá qual for o seu campo - e os craques se entendem. Lamentavelmente o que prevalece hoje é o cinema-botinudo dos Coelhos - atenção, eu não estou me referindo ao Guilherme - de câmera. Ou dos armandinhos, jogadores aparentemente habilidosos, mas sem um pingo de imaginação. Eles querem bicar o talento para longe das telas porque sabem que na comparação a sua mediocridade fica ainda mais evidente. E tome "Primo Basílio" pra geral. Chega a ser um acinte ver o Moacyr Góes, que era um bom diretor de teatro, chegar ao nono filme em cinco anos enquanto Saraceni está aposentado precocemente. O técnico da seleção brasileira de cinema é o Mário Sérgio.

Fila interminável para David Lynch

Por Estevão Garcia

O plantão especial Festival da Zé Pereira informa: até o presente momento há uma fila gigantesca de cinéfilos desesperados e afoitos para comprar o ingresso do último David Lynch.
Tinha ido eu às 10:00 da manhã à central de ingressos localizada no Espaço de Cinema para retirar o ingresso do Robert Rodriguez (Planeta do Terror às 17:10)e do Manoel de Oliveira (Cristovão Colombo às 20:00) e me deparei com essa fila que ia da bilheteria até a altura do boteco "Rosa de Ouro". Tinha até televisão no local.
Fui sondar com as pessoas e descobri que tinha gente que estava lá desde às 7:00 da madrugada. E o pior, não ia ter ingresso para todo mundo. Vai ter lynchiano que vai voltar pra casa com as mãos abanando tendo que esperar dolorosamente até novembro, mês que o filme chegará aos circuitos nacionais.
O curioso é que eu também voltei com as mãos vazias, não consegui pegar os meus ingressos porque fui informado que mais uma vez as regras das credenciais mudaram: troca de ingresso agora é só com no mínimo um mês de antecedência.
Mas, pelo menos valeu a pena por constatar que a cinefilia é levada de forma séria e disciplinada.

Quinta-feira, 27 de Setembro de 2007

Patrulha de Elite

Mal Necessário desta semana:

"Eu mesmo acho que gritar 'caveira!' depois de ver o filme é uma forma de sublimar um 'gostoso!' para o Wagner Moura (admita, classe média, essa postura de donzela em perigo diante do crime é muito gay) mas defendo até a morte, ou pelo menos até o desfalecimento, o direito de cada um reagir como quiser."

Estrelas e Galáxias

(A Via Láctea, Dir: Lina Chamie, Brasil, 2007)

Por Estevão Garcia

Até o presente momento o filme mais interessante da Première Brasil – Competitiva Longa Ficção é o “A Via Láctea” (Dir: Lina Chamie). Já foram exibidos “A Casa de Alice” (Dir: Chico Texeira), “Mutum” (Dir: Sandra Kogut), “Onde Andará Dulce Veiga” (Dir: Guilherme de Almeida Prado) e “Estômago” (Dir: Marcos Jorge). Ainda falta passar: “Deserto Feliz” (Dir: Paulo Caldas), “Maré, nossa história de amor (Dir: Lúcia Murat)”, “O Signo da Cidade” (Dir: Carlos Alberto Riccelli) e “Sem Controle” (Dir: Cris D`Amato).

Percebemos no segundo longa de Lina Chamie um transparente amadurecimento e uma contundente depuração ao compararmos com o seu trabalho anterior (Tônica Dominante, 2000).Aqui, a diretora permanece com o seu projeto de realizar um cinema poético, sonoro e filiado a um certo cinema de arte europeu. Porém, se podemos afirmar que tal filiação era o calcanhar de Aquiles de “Tônica Dominate” por o colocar em uma moldura que inibia saltos mais altos e livres, em “A Via Láctea” Chamie não deixou que suas influências se transformassem em freios. Em “A Via Láctea” elas são aceleradores, propulsores, catapultas.

Chamie narra uma história de amor ambientada na grande São Paulo sem cair nos velhos clichês de “como as grandes metrópoles desprezam e não possuem espaço para sentimentos e relações de afeto”. A sua São Paulo está bem distante da retratada pelo cinema paulista dos anos 80 não apenas no revestimento estético, mas também em termos de representação. O fluxo, o tormento, o caos, as agonias da cidade estão presente em ambos, porém, aqui esses elementos mais do que signos da modernidade são características há muito tempo entranhadas. Mais do que forças opressoras eles são marcas fixas nos corpos dos seres urbanos. Não são mais objetos de embate e sim tatuagens. Em um jorro musical Chamie através de "A Via Láctea" jogou na tela traços sublimes e mágicos.

Proibidões


Lucia Murat conta que os proibidões, documentários feitos por policiais e traficantes sobre a guerra do tráfico já estão aí faz tempo, que deram origem ao DVD genérico "Tropa de elite 3". Ela diz que comprou alguns quando estava filmando "Maré, nossa história de amor" - que passa amanhã, às 14:15h (sessão popular, a R$ 2, seguida de debate), no Odeon, e às 21:15h, no Palácio 1, e no domingo, às 14h e às 19h, no Leblon 1. A criatividade da galera do morro desconhece limites.

Sobre "Andarilho", de Cao Guimarães


Por Gustavo Acioli

"Andarilho" está inserido na competição de documentários simplesmente devido à limitação da classificação do cinema por gêneros. Ele está na competição de documentários porque vai além da nossa compreensão de cinema e nenhum de nós saberia como classificá-lo. O filme de Cao Guimarães é indescritível e indefinível. Para mim, é uma ficção. Uma ficção científica sobre o pós-apocalipse. É um filme fundamental, daqueles que dão orgulho e que bagunçam nossa visão da arte e da vida. Cao constrói uma dramaturgia do absurdo com imagens que levam o cinema para o universo das artes plásticas. É muito bom ver uma obra única, que conjuga talento, ousadia, liberdade, técnica, sensibilidade e tudo mais. Enquanto todos parecem preocupados com a adequação, com a descoberta da fórmula do sucesso, com o retorno, com o resultado, Cao Guimarães faz arte em sua mais pura essência. Quando eu crescer, quero ser igual a ele.

Muitas américas e latrinas

Por Flu

Maldeamores
( Carlitos Ruiz Ruiz, Mariem Pérez Riera - Porto Rico - 2007)

O Banheiro do Papa
(Enrique Fernández, César Charlone - Uruguai - 2007)

Perdi minha credencial. Não tenho idéia onde. Quer dizer até tenho. Deve ter caído do meu bolso na saída ou durante uma sessão de filme. Saco. Fico pensando nos dois ingressos que faltaram pra completar os 20 que eu tinha direito e nos outros que poderia entrar no mole. Festas VIPs que entraria e beberia de grátis... Paciência.
Fui pra minha sessão de "Maldeamores" às 12 e 30. Bem vazia e gelada.
Como diz o título, trata de relações entre "hombres e mujeres", conflitos de pensamentos entre esses dois seres tão diferentes que tanto se bicam. Pensei que seria um filme de praia, mostrando locais paradisíacos do Caribe, mares azul cristalino e pessoas saradas. Nada. É um filme urbano. Três histórias de relacionamentos se interlaçam em alguma cidade de Porto Rico, que lembra uma mistura de Havana com Miami. Tem o cara que se mata por amor, o outro que trai por amor e o caso de amor à três. Essa última, por sinal, mostra que o amor não tem idade mesmo. A mulher setentona tá cheia do gás pra encarar dois garanhões da mesma idade na sua vida. O filme tem uma linguagem simpática, que lembra um pouco os filmes independentes americanos. Um dos atores já vi em vários filmes de Hollywood fazendo papel de bandido latino. Acho que é o Luis Guzmán. Baixinho e com cara de fracassado. Outra curiosidade é o nome de Benício Del Toro como produtor executivo. Que venha mais filmes do Caribe!
O papa fez parte do roteiro de "Tropa de elite". Os caras do Bope tinham que dar uma acalmada no tráfico do morro do Turano pois ele iria dormir em alguma associação e tal. Acho que João Paulo II é o terceiro ídolo pop da igreja católica, atrás de Deus e Jesus Cristo e na frente de todos os apóstolos e da Virgem Maria.
Pois ele é o motivo do "Banheiro do Papa". A ida dele a uma cidade pequena na fronteira do Uruguai com o Brasil, faz com que o pessoal da área se movimente pra tirar alguns pesos com o evento. Eu ,como gaúcho, morador durante 42 anos em terras rio-grandenses, nunca tinha ouvida falar nessa fronteira. Cidade de Melo no Uruguai e Aceguá no lado brasileiro. É daqueles lugares esquecidos, que aparecem só com a ida de um ídolo pop como o Papa.
Bem sacada a história. Contada de uma maneira crua e naturalista. Lembra aqueles filmes da Patagônia - Argentina. Só que esse é uruguaio. País onde tem uma produção pequena de cinema. Já vi "Whisky" e "Ruído", ambos muito legais. Sempre fico curioso com novidades vindas de lá. E valeu a curiosidade. Dirigido por César Charlone, que fez a fotografia de Cidade de Deus e co-produzido pela O2 do diretor Fernando Meirelles, o filme é simples e direto. O caráter, a honestidade, o esforço físico é testado até a última ponta no personagem principal. Ele tem a grande idéia de construir um banheiro para o grande evento da vinda do Papa. Mesmo ele tendo uma latrina pra fazer as necessidades, pensa que exitirão muitos turistas que precisarão aliviar em algum lugar. Esperto o rapaz. Pelo menos, depois de toda confusão do evento, ele terá enfim um vaso decente para a família. Que venha mais filmes uruguaios!

"Diário de Sintra": o transe intimista da memória


Paula Gaetán faz cinema lírico e hipnótico

Por Fernando Gerheim


"Diário de Sintra", filme de Paula Gaitán exibido no Festival de Cinema do Rio, lembraria a expressão "monstro hipnótico", de Pasolini, se não fosse o seu lirismo. Ao juntar o diário em Super-8 de sua vida entre 1980 e 1981 ao lado de Glauber Rocha e dos filhos pequenos Eryk e Ava com as imagens realizadas no início deste ano no retorno a Portugal, a cineasta liberou o ser onírico e primitivo que sempre pulsa por baixo de qualquer filme. O que o espectador vê é um fluido de imagens com muitos afluentes – como a memória –, em que o olhar parece um veio da experiência transversal do tempo, que entrelaça passado e presente por canais subterrâneos.
Apesar disso, por conta dos prazos o processo de realização foi estóico, como conta a cineasta: "Não me deixei levar pela emoção. Só chorei vendo o filme poucos dias antes da estréia, porque tive que ter uma disciplina muito grande. Ao mesmo tempo ele já estava tão estruturado internamente que foi finalizado num fluxo vital."
Embora não-linear e construída por imagens, o filme tem uma narrativa. As imagens da chegada de avião à Portugal e da ida a Sintra passando por Lisboa e por vilas de pescadores e camponeses, a quem mostra fotos de Glauber e pergunta se sabem quem ele é, foram captadas no presente; a casa onde moraram 26 anos atrás, cenas do dia-a-dia como pai e filhos solfejando notas e brincando na praia, a visita dos amigos intelectuais brasileiros, reflexões de Glauber sobre cinema, sonho e morte – ecoando Paulo em Terra em Transe: "A morte como fé, não como temor" –, o carro que o leva doente para o aeroporto, imagens dele inconsciente no avião –, são "anotações" do diário-filmado.
O peso que estas últimas ganham na parte final é construído no percurso do filme, e o entrelaçamento entre as duas temporalidades é feito por associações orgânicas de imagens, numa espécie de "memória involuntária". A montagem cria um fluxo irracional, altamente sensorial. No final, as imagens meio deterioradas – vividas – de Super-8, pouco nítidas como as lembranças, têm um ritmo brakhageano, numa pulsação – em alguns momentos, em montagem vertical, com som de respiração – em que a memória parece aflorar e tornar-se visível em estado bruto.
O filme não mostra o passado, mas a própria memória, como ela incide no presente e um reconstrói ao outro. Neste onírico fluido narrativo são utilizadas fotografias de Glauber: presas nos galhos secos de uma árvore no início do filme, em contra-plongée, contra o arco azul do céu (no final os mesmos galhos voltam a ser um prosaico varal de roupas); submersas na correnteza de um córrego, sendo gradualmente encobertas pela areia; espalhadas numa composição espacial sobre as pedras – como um jogo da memória de cartas sem par. O filme transita livremente entre a intervenção na paisagem (natural e humana), num nível simbólico e conceitual, e o apuro do olhar entorno, num nível documental; mistura suportes digitais, 38mm (imagens atuais), fotografias e Super-8 (imagens antigas), num plurilingüismo cinematográfico. Do mesmo modo que a voz em off de Paula fala, sem nenhuma impostação, poemas de Sylvia Plath, Sophia de Mello Breynen e dela mesma, entre outros, em espanhol, português, francês e inglês, e a filha Maíra (voz in) também propulsiona as imagens com palavras poéticas, num plurilingüismo verbal a um tempo universal e doméstico. Na banda de áudio, além da trilha moura, africana e luso-brasileira, as próprias palavras são elementos sonoros, repetidas como sombras, multiplicadas como ecos. Se o olhar em primeira pessoa indaga as imagens, o que estas parecem responder é que o presente fugaz é chave de passados e futuros, e essa potência do olhar é também a do cinema.

Revelações


Por Eduardo Souza Lima

Che é venerado como santo milagreiro na Bolívia, comparado a Hitler por neonazistas na Alemanha e a heróis do Islã no Líbano - onde sua vida virou musical de teatro - e é chamado de assassino frio por um assassino profissional da CIA cujo maior sonho e matar Fidel. Mas nenhuma cena diz mais sobre "Personal Che" do que a que um salvadorenho é ofendido por cubanos exilados nos Estados Unidos e é defendido por uma cubana, também exilada, de forma desconcertante: "Deixem ele em paz, aqui é a América, terra da liberdade, ele pode usar a camisa que quiser". O documentário de Douglas Duarte e Adriana Mariño flagra com inteligência a baderna ideológica que virou o mundo na virada do século XX para o XXI. Como disse um espectador na saída da sessão (concordando com a repórter da Globo de posts abaixo), "é até dinâmico para um documentário". Ou seja, diverte e faz pensar.
Também diverte um bocado e de quebra faz pensar "Estômago", comédia maluca de humor negro produzida no Paraná. Enfim, um longa-metragem de ficção brasileiro original. Finalmente um filme nacional que não tenta reproduzir a realidade como um documentário para falar dela. Graças aos Céus o filme não tem no elenco nenhum ator famoso e chato da Globo - rostos novos no cinema dão um bem-vindo frescor aos filmes. Demorou, mas um diretor brasileiro resolveu fazer algo diferente e não uma reprodução do que se vê na pior TV do mundo. Parabéns a Marcos Jorge.

Sepultura rules!


Um dos transviados que aparecem no começo de "Eu não quero dormir sozinho", filme do mestre chinês Tsai Ming-Liang rodado em Kuala Lumpur, usa uma camisa da banda de heavy metal mineira. É a nossa contribuição para a globalização.

Leda, a diarista, e "Tropa de elite"

Por Gustavo Acioli

Hoje, quando acordei, Leda, a faxineira que trabalha na minha casa, já tinha pauta para nosso colóquio matinal. Ela queria comentar o artigo do Xexéo, no Globo, sobre as sessões do "Tropa de elite". Nele, o articulista manifesta seu espanto com a vibração da platéia durante as cenas de tortura.
Disse-me Leda: - É, Seu Gustavo. Isso acontece só na classe de vocês, porque a gente, que conhece os meninos e sabe das coisas que acontecem, pra gente, assistir a esse filme é muito difícil.
Primeiro, quero ressaltar a importância social dessas cópias piratas do filme. Não fosse por elas, a população que tem contato mais direto com esta realidade estaria completamente alijada desta discussão. Estaria apenas ouvindo ecos das reações da nossa classe, como bem colocou Leda. Agora, não. Estamos todos aptos ao debate. Aproveito para deixar uma sugestão à nossa brava revista Zé Pereira: que tal promover um debate pluri-classista sobre o Tropa de elite? Desde já, indico a Leda como debatedora.
Quanto à vibração do público com as cenas de tortura, só posso fazer a relação com as nossas raízes escravocratas. O capitão Nascimento é o capitão-do-mato moderno. Aquela vibração é a excitação do pelourinho. Não quero com isso chamar os bandidos de pobres coitados. Não importa por que caminhos sociais e psíquicos chegaram a tanto, são facínoras que mantêm as comunidades sob um regime despótico, sob a égide do terror. Tudo, neste caso, de um lado e de outro, é um atentado à democracia e ao estado de direito. Acontece que para a elite brasileira não faz diferença se o escravo é preto ou branco, africano ou nordestino, se tem que receber comida e abrigo ou um salário de merda, o principal é manter tudo como sempre foi.
Mais espantoso é saber que D. Pedro I, D. Pedro II e José Bonifácio eram contra a escravidão. D. Pedro I libertou os seus escravos. José Bonifácio, não só defendia a abolição, como defendia que fossem concedidas terras aos negros e que estes começassem a freqüentar a escola, preconizava a miscigenação como forma de aliviar as tensões sociais e defendia o fim do latifúndio. Como explicar, então, a prevalência dos interesses escravocratas sobre as idéias dos monarcas soberanos? Getúlio Vargas, que não era flor que se cheirasse, dizia: "... no Brasil, nem um ditador pode tudo..." Enquanto isso, o "Pai dos Pobres" assistia à favelização tomar conta da capital federal.
Não existe solução fácil para nossa situação. A legalização das drogas, por mais lógica que seja, não será suficiente. Pergunto: se viesse a legalização, o que os meninos fariam com todo o arsenal que têm nas mãos? Pendurariam na parede, como lembrança dos tempos de ilegalidade? Respondo: não. Continuariam usando. Pode ter certeza, a coisa vai piorar.
Sei apenas o primeiro passo da solução: escola decente para todos. E não me refiro só aos pobres, não. A classe média também não freqüenta boas escolas. Quanto aos ricos, realmente não os conheço, mas, pelo que vejo na televisão, também andam precisando de uma boa reforma educacional.

Cineasta-bomba


O Preço da Coragem (Dir:Michael Winterbottom, Estados Unidos, 2007)

Por Arnaldo Branco

Michael Winterbottom é um franco-atirador míope com uma grande lista de vítimas inocentes. Seus projetos não tem nenhuma conexão aparente além da autoria do atentado. Aqui ele filma o drama real de Daniel Pearl (Dan Futterman, 10 minutos no máximo de tela), jornalista americano enviado ao Paquistão seqüestrado e mantido refém por um grupo terrorista até a sua decapitação.
Lá pelo final do filme Angelina Jolie, na pele da viúva grávida de Pearl, diz para um repórter que quer saber se ela viu o vídeo que os sequestradores fizeram da degola de seu marido: "você não tem nenhuma decência?". Talvez fosse o caso de Mariane Pearl repetir a pergunta para o espelho, já que escreveu o livro de nome infeliz "Um Coração Poderoso" que fornece o álibi dessa produção aqui.
"O Preço da Coragem" é quase todo filmado como um documentário, com cortes bruscos e ritmo acelerado (lembrando o estilo de Paul Greengrass em "Domingo Sangrento" e "United 93"), o que empresta ritmo ao que toma a maior parte da trama, a busca das autoridades paquistanesas pelo cativeiro. Infelizmente não há cortes bruscos e nem ritmo acelerado nos flashbacks românticos (desnecessários, um beijo na barriga da esposa gestante nos primeiros minutos já tinha estabelecido a idéia de casamento feliz) e na cena de Angelina urrando "noooo", nooooo" quando sabe da morte de Daniel.
Saí da sala de exibição e encontrei na fila da sessão seguinte um amigo que quis saber o que achei. Instintivamente fiz o gesto de passar o dedo indicador numa linha horizontal na altura do pescoço.

É coca da boa

(Cocalero; Dir. Alejandro Landes; EUA/Argentina/Bolívia; 2006)

Por Alexandre Sivolella Barreiro

Era uma vez um milionário americano do estado de Massachusetts chamado John Kennedy, que de herdeiro de uma tradicional família americana de origem irlandesa se tornou possivelmente o presidente mais carismático dos EUA.
Era uma vez um torneiro mecânico de origem nordestina chamado Luis Inácio da Silva, líder de um movimento sindical baseado no ABC paulista, que de fundador do Partido dos Trabalhadores se tornou presidente da República Federativa do Brasil.
Era uma vez um indígena boliviano chamado Evo Morales, líder de um movimento político conhecido pela sigla MAS, que além de um grito de incentivo significa também Movimento ao Socialismo e que de plantador de folhas de coca se tornou presidente da República da Bolívia.
O que esses três homens têm em comum fora a política? Muito simples e não é segredo para ninguém: todos foram objetos de filmes documentais que retrataram os momentos iminentes da ascensão ao poder. O filme de Robert Drew sobre Kennedy, “Primárias”, tornou-se uma espécie de marco fundador para filmes desse tipo, inaugurando quase um gênero dentro do cinema documental.
Décadas depois da iniciativa de Drew, o brasileiro João Moreira Salles visitou os bastidores da campanha de Lula às eleições presidenciais brasileiras de 2002. Agora é a vez de Alejandro Landes, brasileiro de nascimento e filho de pai equatoriano e mãe colombiana, se aventurar na experiência.
A grande diferença que salta aos olhos entre “Entreatos” e “Cocalero” é a enorme distância que separa as eleições brasileiras das eleições bolivianas. Ver Evo e seu vice andando de carro pelas ruas de La Paz e tomando um café da manhã em uma quase birosca e comparar essas imagens com as de Lula e seus assessores cruzando o país em jatinhos alugados nos confere uma impressão forte das assimetrias entre o MAS e o PT, entre a Bolívia e o Brasil.
A grande semelhança entre os filmes, e o grande trunfo de ambos, é a conquista da intimidade dos personagens retratados. Nos dois filmes temos até mesmo planos semelhantes, talvez inspirações buscadas por Landes, como as cenas em que os candidatos aparam os cabelos. Em “Cocalero” chegamos a ver Evo nadando de cueca em um rio. É dessa intimidade, que não deve ser confundida com cumplicidade por quem toma a iniciativa da realização, que nasce a riqueza desse tipo de documento.
Sem sombra de dúvida, a seqüência mais eloqüente é a em que Evo corre pelas ruas da capital para chegar ao comício que o aguarda no que parece ser a praça principal da cidade. Ali está a essência do cinema direto. O filme de Landes consegue ser menos laudatório que “Entreatos”, por meio do qual João Moreira Salles parece querer fazer uma homenagem a Lula. A seqüência em que Evo é entrevistado por um canal local, acaba pressionado e se mostra incapaz de responder às provocações da apresentadora chega a ser constrangedora. Fundamental para compreender a Bolívia de hoje.

Quarta-feira, 26 de Setembro de 2007

Dica do Zé Pereira


"Personal Che", co-produção Brasil/EUA/Colômbia, dirigida por Douglas Duarte e Adriana Mariño, que passa hoje, às 18:30h, no Centro Cultural da Justica Federal, seguida de debate. A sinopse: Diversas pessoas ao redor do mundo reinterpretam a lenda de Che Guevara. Do rebelde que vive em Hong Kong e luta contra o crescimento do país, ao neonazista da Alemanha que prega a revolução, passando pelo cubano que odeia Fidel Castro. Depoimentos que provam que o símbolo histórico do revolucionário argentino sobrevive até hoje. Mas, como todo símbolo, cada um o percebe de uma forma, muitas vezes de maneiras bastante contraditórias. Muitos filmes tentaram revelar a verdade por trás do mito de Che Guevara. Este documentário, pelo contrário, tenta explorar o mito por trás da verdade.
O documentário será reprisado amanhã, às 17:15h, no Cine Glória (Memorial Getúlio Vargas), e sexta-feira, às 14h e às 21h, no Espaço de Cinema 2.

Sopros Gelados

Por Estevão Garcia

(Nascido e Criado, Dir: Pablo Trapero, Argentina, Itália, 2006)


Santiago, protagonista do último longa-metragem de Pablo Trapero, se constitui como uma espécie de sucessor do Rulo de “Mundo Grua” (1999) e do Zapa de “El Bonaerense” (2002). Esses três personagens de Trapero são elementos deslocados, perdidos, fora de contexto. Foram agentes passivos de um determinado evento que modificaram radicalmente as suas vidas. No caso de Santiago o acontecimento que o transformará é mais trágico e doloroso do que o de seus antecessores. Aqui, ele não apenas perde a sua fonte de renda como Rulo ou é obrigado a mudar de cidade e a assumir uma nova profissão como Zapa. Em “Nascido e Criado”, o protagonista além de ter que se adaptar a um novo ambiente e a uma nova conjuntura precisa esquecer o seu passado.

Se nos prendermos na sinopse de “Nascido e Criado”: homem perde a sua família em uma tragédia e se refugia na Patagônia para se curar do trauma, automaticamente ficaremos presos também a um filme que não foi o que Trapero realizou. Para o diretor o que menos interessa é a trama e o enredo, ele não está preocupado em delimitar a narrativa nos clássicos segmentos introdução, desenvolvimento e conclusão. O enfoque não está em narrar uma historinha de perda ou da recuperação individual de um trauma e sim na descrição do processo experimentado pelo personagem principal. A sua pesquisa se concentra justamente aí, no processo. O que importa é a interação estabelecida entre Santiago e a sua nova paisagem. A paisagem se mistura às pessoas, às relações e aos afetos, todos esses elementos compõe uma só substância.

Paisagem é aqui um conceito mais abrangente que o usual. A paisagem de Trapero é um elemento indissociável do seres humanos que lá habitam. As montanhas geladas, as arvores nuas, o vento frio e o isolamento físico. A Patagônia é captada como se estivesse inserida em um outro tempo, em uma outra dimensão. Lá, os aviões pousam com dificuldade e as imagens do mundo trazidas pela televisão chegam distorcidas. A imagem que os seus habitantes recebem do mundo é deformada. Os seus ritmos, sons e respiros são distintos. O filme então traz para a sua linguagem menos o ponto de vista de Santiago e mais a atmosfera de um lugar inóspito, distante e frio. O filme se entranha na Patagônia e assim como seus personagens, se relaciona intimamente com ela. “Nascido e Criado” capta humanidade em lugares e pessoas que aparentemente tinham se esquecido de sua existência. Pablo Trapero, com seu último filme, permanece como um dos grandes nomes do cinema latino-americano contemporâneo.

Posts mais antigos

Os primeiros sumiram da página principal, mas quem quiser consultá-los é só clicar aí do lado em Arquivos Setembro 2007. Mais um serviço de utilidade pública da Zé Pereira - porque nem todo mundo sabe se virar neste maravilhoso mundo virtual.

Glauber cada vez mais vivo


Paula Gaitán, viúva de Glauber Rocha, apresentou ontem no Odeon o belo "Diário de Sintra". O filme mereceu elogios do mestre de todos nós, Vladimir Carvalho.

Homenagem a Jurandyr Noronha

O Encontro do Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro homenageia, neste sábado, a partir das 10h, no Centro Cultural da Justiça Federal, o pesquisador e cineasta Jurandyr Noronha, de 91 anos, patrono da preservação da memória do cinema brasileiro. O professor da UFF João Luiz Vieira e o crítico Carlos Alberto Mattos participam do painel 110 Anos do Cinema Brasileiro e às 11:30h será exibido o documentário "Panorama do cinema brasileiro" (1968), de Jurandyr. A entrada é franca.
Nascido em março de 1916, Jurandyr Noronha, além de ter realizado inúmeros curtas-metragens (como "Uma alegria selvagem", o primeiro documentário sobre Santos Dumont), dirigiu os longas "70 Anos de Brasil", "Cômicos + Cômicos" e "Panorama do Cinema Brasileiro", uma antologia dos melhores momentos do nosso cinema, de 1898 a 1966. Foi diretor de documentários do Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE) e do Instituto Nacional de Cinema e organizador do primeiro depósito instalado na América Latina para a preservação de matrizes de filmes.

Pererê no cinema


Fã de quadrinhos, o produtor Tarcísio Vidigal (do Grupo Novo de Cinema), que ontem assistia no Odeaon a "Réquiem", curta baseado numa HQ de Lourenço Mutarelli, quer levar às telas "A turma do Pererê", de Ziraldo. Para dirigir o longa-metragem, ele quer ninguém menos do que Marcos Magalhães, de "Meow", Prêmio Especial do Júri do Festival de Cannes de 1982.

O medo do crítico diante do filme

Medo da Verdade(Ben Affleck, Estados Unidos, 2007)

Por Arnaldo Branco

Uma vez perguntaram para o Chris Rock sobre a responsabilidade de apresentar a cerimônia de entrega do Oscar. Ele: "grande coisa o Oscar - o Kevin Costner tem dois!".
Ben Affleck tem um (roteiro orginal, "Gênio Indomável") e seu índice de rejeição com a crítica só não chega ao nível de Costner em função do menor tempo de desserviços prestados, no caso, como ator. "Medo da verdade" ("Gone, baby, gone") é sua estréia na direção e o fato de ter escalado para o papel principal seu irmão Casey não foi de muita ajuda para aumentar minhas expectativas. Já assisti três filmes em que fez papéis de destaque, mas só descobri isso puxando sua ficha no imdb - acredite se quiser, o Affleck melhorzinho é o Ben. Confesso que fui mais pela curiosidade mórbida.
O roteiro (de Ben Affleck e Aaron Stockard) é uma adaptação de Dennis Lehane, autor também do livro que Clint Eastwood filmou em "Sobre Meninos e Lobos" - e como aquele é a história do rapto de criança com consequências dolorosas para os personagens. O cenário é uma Boston favelizada.
Patrick Kenzie (Casey) e sua companheira Angela Gennaro (Michelle Monaghan) - personagens recorrentes de Lehane - são os detetives contratados por um casal que teve a sobrinha raptada para fazer uma investigação complementar ao trabalho do oficial Doyle (Morgan Freeman) e do detetive da polícia Broussard (Ed Harris). A mãe é um caso perdido de auto-medicação radical e suas ligações levam a crer que a menina foi levada como nota fiscal de uma dívida com um traficante.
Noir em que o protagonista ao invés do sobretudo usa um moletom com jeito de peça de pijama, o filme ameaça na primeira cena ser permeado por uma narração em off cheia de filosofia barata (graças a Deus só temos dois trechos sozinhos com os pensamentos de Patrick/Affleck, que ainda por cima tem voz de golfinho). Mas depois do susto, surpresa, o filme é bom.
Acompanhamos com interesse o périplo do franguinho Patrick e da namoradinha Angie peitando suspeitos e testemunhas, na maior parte brucutus tatuados que com toda razão não dão nada pelo almofadinha. As reviravoltas na trama telegrafam o passe mas a idéia parece ser mesmo entregar a trama para o público algumas cenas antes do que para os detetives. Tem duas seqüências de respiração suspensa antes de troca de tiros (as duas no escuro) que nos fazem pensar se não seria a hora do Affleck mais velho tirar definitivamente seu queixão de frente das câmeras para - quem sabe - descobrir sua verdadeira vocação atrás delas.
Só uma nota destoante, a Angie de Monaghan é um belo objeto de cena mas parece estar ali só para ser usada como contraponto a uma pouco plausível crise moral de Patrick no clímax. No mais, entra muda e sai (mais do que entra) calada.

Sem graça, sem graça


(Fay Grim; Dir. Hal Hartley; EUA/Alemanha; 2006)

Por Alexandre Sivolella Barreiro

Nem bem haviam passado 10 minutos desde o início do filme eu já me contorcia na poltrona do Estação Botafogo 1 pedindo para que o filme acabasse o mais rapidamente possível. Que diabos de filme é "Fay Grim"? É para ser levado a sério ou, justamente por sua "aparente" falta de seriedade, é para ser encarado como uma brincadeira, coisa de criança levada? Até agora estou sem saber.
Diz um amigo meu que não gostei do filme porque não vi "As confissões de Henry Fool". Ora, bolas. Se fosse assim, deveriam ter usado isso como mote de divulgação: "não veja se não assistiu ao filme anterior". É incrível a cara de pau ou a falsa modéstia do Sr. Hartley. Que papelão. Faz um filme de merda, com uma fotografia falsamente estetizada, lavada e com enquadramentos estrategicamente oblíquos, atores pessimamente fingindo ser canastrões e nós, os babacas ali na platéia, como testemunhas desse crime de lesa-cinema.
Pretendendo demonstrar o domínio de um código cinematográfico e sua superioridade sobre os reles mortais do cinema de gênero, o pedante Hartley presume que pode brincar na criação de uma história que mistura espionagem à la Guerra Fria nos tempos do terrorismo islâmico anti-americano a partir das agruras de uma mãe pretensamente viúva do Queens. Jeff Goldblum cai de pára-quedas nessa canoa furada e ainda consegue angariar da platéia um mínimo de simpatia. Parker Posey vale apenas pela tez de balzaquiana enxuta. Suas caras e bocas dão ânsia de vômito.
O filme ainda consegue a proeza de rasgar os céus do mundo, indo filmar em não sei quantos países, gastando rios de dinheiro, para... para nada. Toda essa insanidade travestida de filme é um nada. Zero.
Não achei a menor graça, não ri uma vez sequer e só não saí da sala porque, infelizmente, tenho o péssimo hábito de nunca sair da sala. Penso agora ao escrever que se não saí da sala ao ver "Celeste e Estrela", não será com "Fay Grim" que isso acontecerá. Se alguém der início a uma campanha para queimar os negativos, eu assino embaixo. Ao menos o título de Cavaleiro das Artes e Letras da República Francesa que a biografia do diretor enverga deveria ser cancelado. Se bem que, em termos de pedantismo, ninguém bate os gauleses.

Capitão Nascimento FACTS

Piada nerd da internet. O psicopata é pop

1. Deus disse que iria fazer o mundo em 7 dias Capitão Nascimento disse bem alto: "Faça em 6, sr. 01!"
2. Capitão Nascimento dorme com a luz acesa, não porque ele tem medo do escuro, mas o escuro teme ele!
3. Capitão Nascimento joga roleta russa com uma arma inteiramente carregada, e ganha.
4. A farda do Capitão Nascimento é preta porque nenhuma outra cor quis ficar perto dele.
5. Capitão Nascimento dorme com um travesseiro debaixo de uma arma.
6. Principais causas de morte no Brasil:
7. 1º Ataque do coração
8. 2º Capitão Nascimento
9. 3º Câncer
10. A opção 1 é a maior porque a maioria dos bandidos morrem do coração quando vêem o Capitão Nascimento.
11. O Capeta queria entrar no BOPE, mas o Capitão Nascimento fez ele desistir apenas dizendo: "666, Você é o novo xerife!"
12. Capitão Nascimento é a razão de Bin Laden ainda estar se escondendo.
13. Capitão Nascimento não sai de lugar nenhum devendo ninguém, sempre põe na conta do Papa.
14. Capitão Nascimento não tem medo da morte, a morte tem medo dele.
15. Quando Deus disse "Que se faça a luz!". Capitão Nascimento falou "Tá de sacanagem, Sr. 01? Tá com medinho do escuro, Sr. 01?"
16. Getúlio Vargas não cometeu suicídio, ele só pediu pro Capitão Nascimento: "Na cara não, pra não estragar o velório."
17. Quando Deus resolveu criar o Universo foi pedir permissão ao Capitão Nascimento e ele respondeu: "Senta o dedo nessa porra!"
18. A roupa do Super-Homem era preta até o Capitão Nascimento dizer: "Tira essa roupa preta porque você é moleque!"
19. Capitão Nascimento trabalhou como negociador da polícia. Seu trabalho era ligar para os seqüestradores e dizer: "Pede pra sair!"
20. Quantos Capitão Nascimento são necessários para trocar uma lâmpada? Nenhum, Capitão Nascimento também mata no escuro.

Terça-feira, 25 de Setembro de 2007

Maldade


Qual foi essa de deixar o Estação Paissandu de fora do festival? Onde as velhinhas do Flamengo vão ver o filme do Carlos Saura?

P.S.: "Fados" passa no sábado, às 21:30h, no Odeon, no domingo, às 15:15h e às 19:45h, no Estação Ipanema 2, e na quarta-feira que vem, às 16:45h, no Estação Barra Point 2.

Uma eterna contradição do festival

Por Gustavo Acioli

Fui dar uma espiada nos seminários do RioMarket, programação de painéis e rodadas de negócios que constitui o braço business do Festival do Rio. Acabei de assistir a apresentações dos executivos de algumas das principais empresas americanas: Fox, Paramount, Buena Vista etc.
Faço isso, quase todo ano, por uma mistura de curiosidade pelo mundo dos negócios, por necessidade de entender o que está acontecendo no mundo real e por certo masoquismo de artista. Digo isto porque, todo ano, o papo é sempre igual: cinema de arte, cinema de autor, filme independente, cinema alternativo são expressões usadas num tom pejorativo, como se fossem pragas que existem apenas para atrapalhar o que eles chamam de mercado. E todos são unânimes em apontar como um sério problema do cinema brasileiro o fato de não nos preocuparmos em elaborar projetos que tenham verdadeiro potencial comercial.
Mas o que é o Festival do Rio? Não seria um megaevento que mobiliza milhares de espectadores para assistir a filmes de arte, filmes de autor, filmes alternativos e independentes? E não teve como berço a experiência do Grupo Estação que é hoje uma bem-sucedida rede de cinemas voltada para a exibição deste tipo de filmes? Não poderíamos dizer que tanto o Festival de Rio quanto o Grupo Estação são um sucesso comercial?
Nunca consegui entender essa contradição. Também nunca consegui entender exatamente o que eles esperam de um projeto para considerá-lo comercial. Só sei que a maioria dos filmes fracassa comercialmente, tanto aqui quanto lá.
Deixo apenas, como manifesto, um testemunho pessoal: eu preciso da Arte. Preciso ver, ler, ouvir, consumir Arte. Sempre estou disposto a gastar o pouco que tenho suprindo esta minha necessidade e acho que não sou o único, nem que sejamos tão poucos.

A Viúva Punheteira

(Irina Palm, Dir:Sam Garbarski; Bélgica/Alemanha/Luxemburgo/Reino Unido/França 2007)

Por Flu

Eu tava na mesma sessão que meu colega Arnaldo e não nos batemos.
Cheguei atrasado é verdade. Fui salvo pelo curta metragem que veio antes chamado "Vida Maria".
Animação 3D feito por Márcio Ramos de 8 minutos.
Devo ter pego uns 4 minutos e pareceram 20 minutos.
COmo é que conseguem ainda fazer um trabalho tão careta quanto esse!
Praticamente um portifólio pra trabalhar com publicidade.
Argh!
O otimista tá malvado hoje!
Como meu colega já fez a resenha, vou me ater aos pensamentos que passavam na minha cabeça durante a projeção. Falando em projeção, alguém sabe me dizer se todos os filmes do festival são digitais? Ficou nítido nesse filme, pois houveram pequenas trancadas como ocorre em DVDs. Meio chato.
Pois durante o filme fiquei pensando que os homens envelhecem e ainda pegam umas gatinhas, enquanto as mulheres tem que se contentar com a falta de sexo ou conquistar por suas façanhas sexuais. Por aí que a Irina Palm ou Maggie (Marianne Faithfull) se deu bem. Ela tinha uma mão macia e fazia bem o serviço punhetário. Tanto que até teve cotovelo de punhetista. Mas cá entre nós, ela tá uma baranga. A personagem ajuda na baranguice. Comparando ela com seus companheiros de loucura de anos 60 se nota uma diferença de sex appeal muito grande. Ela realmente tem cara de avó, enquanto Mick Jagger e cia ainda estão fazendo filhos.
Achei a maneira como foi contatada essa história da viúva punheteira muito melodramática. Talvez o povo do Hemisfério Norte ria de coisas que não achei graça. Mas no geral parecia uma novela com um roteiro bizarro.
Só ficava pensando no Mick e sua namorada (provavelmente uma modelo gostosa) dando risada de sua antiga namorada agora gorda e sem graça. Triste.

A Terra completa 27 anos de idade

Por Estevão Garcia

Como a grande maioria dos frequentadores do Festival do Rio fazem o seu roteiro de filmes e se programam com muita antecedência, é bom dar a dica desde já. Nesse próximo domingo, dia 30 de setembro, às 21h30 no Odeon, será projetada a cópia restaurada de "A Idade da Terra" (Dir: Glauber Rocha, Brasil, 1980). A sessão é em homenagem aos 27 anos da realização do filme e por falar em homenagem à "Idade da Terra", quem frequenta o site da Zé Pereira deve saber: "Urubucamelô" filme do mês em nossa cinemateca também faz o seu tributo ao filme de Glauber. De maneira cômica e brilhantemente paródica o super herói do lixo se converte em Tarcísio Meira e avisa que "todas as estruturas, estão destruídas!"

Sicko

Por Arnaldo Branco

Quando escreveu sobre "Cidade de Deus" na época do lançamento, o Arnaldo Jabor afirmou que aquele filme tinha tornado impossível a pizza depois do cineminha. É caso de perguntar aos donos de restaurante, mas me pareceu exagerado. Agora leio que o Arnaldo Bloch teve vontade de vomitar o pastel de cordeiro depois de assistir "Tropa de elite" e meu camarada JP Cuenca, dificuldade em digerir um de carne moída depois da mesma sessão. Ou a inspeção sanitária precisa dar uma batida na cozinha do Odeon ou está provado que o cinema-denúncia tem efeito deletério sobre a atividade estomacal.

A China não é aqui

Por Estevão Garcia


Ontem fui ver o meu primeiro filme do Foco China, o seu título era “Meng ying tong nian” que em português quer dizer “Sombras Elétricas”. O filme não era muito bom, mas o curioso dessa sessão não estava na sua projeção e sim em sua apresentação. Estava presente uma das atrizes do filme, tinha entendido na hora que o nome dela era Yang Liu, mas confesso que tenho uma certa dificuldade para compreender nomes chineses que não sejam “rolinho primavera”, “chop suey” e “frango ao molho acre-doce”. O interessante nos nomes próprios chineses é que eles parecem servir tanto para homem quanto para mulher, todos, sem exceção. É como se todos na China se chamasse Darcy, Elimar ou Wandecy.

Mas aí chegou a hora da linda chinesinha falar. Ela falou e falou mas só deu para entender alguma coisa depois que uma outra chinesa transferiu tudo para a língua de Camões. Aí ficamos sabendo que a atriz tinha gostado mesmo do Brasil e especialmente do Rio de Janeiro, única cidade que ela visitou. Disse que nunca tinha conhecido um lugar tão bonito onde as pessoas são alegres, vivem sorrindo e praticando esporte. Aqui todo mundo é atleta e artista, podendo viver dessas funções sem ter que trabalhar. O Rio é o paraíso na terra onde reina a mais singela paz. Seu maior desejo era estrear o biquíni que tinha comprado, ainda nas praias do Rio, antes de voltar para o seu país.

Antes de a chinesinha pegar o microfone para fazer a sua ode ao Rio, ficamos sabendo que a delegação chinesa trazida pelo Festival é composta por 10 chineses, entre eles atores, técnicos cinematográficos, diretores e produtores importantes para o atual contexto da indústria cinematográfica chinesa. Acho fundamental que o Festival traga convidados e ainda convidados que vieram de tão longe, mas não pude deixar de rir quando um amigo que estava do meu lado fez uma observação. Segundo esse meu cumpadre, (que não revelo o nome porque não sei se posso) o Festival teria contratado chineses de pastelaria, dado neles um banho de loja e os colocado para falar dos filmes. Como chinês é tudo igual mesmo, ninguém ia notar a diferença. Seguindo essa mesma estratégia, no ano que vem o Festival poderia fazer o Foco Coréia com uma delegação ainda maior. O que não falta no Rio é pastelaria de donos coreanos e ainda bem, porque eu sou um freguês assíduo.
Por falar nisso, o coreano da Voluntários tem um pastel chinês muito bom.

Cinema escrito


Hoje, às 18:30h, no Centro Cultural da Justiça Federal tem o lançamento do livro "Cinco mais cinco, os melhores filmes brasileiros em bilheteria e crítica", de Rodrigo Fonseca, Luiz Carlos Merten e Cacá Diegues. A obra seleciona e discute os dez melhores filmes brasileiros a partir da retomada (1995), sob o ponto de vista da crítica e do público: "Carandiru", "Cidade de Deus", "Edifício Master", "Lavoura arcaica", "Lisbela e o prisioneiro", "O invasor", "Se eu fosse você", "Terra estrangeira" e "2 filhos de Francisco". Os autores convidam o público para debater a lista. A entrada é franca.

"O estado do mundo"


A Iaiá Filmes fechou contrato com a Três Mundos Produções para distribuir no Brasil o filme em episódios dirigido por Vicente Ferraz, Apichatpong Weerasethakul, Pedro Costa, Ayisha Abraham, Chantal Akerman e Bing Wang. É o primeiro filme internacional da Iaiá, de Daniela Ribeiro. "O estado do mundo" será lançado aqui no dia 4 de novembro.

Tenhamos juízo

Por Eduardo Souza Lima

Fosse a nossa sociedade um pouco mais adulta, estaríamos discuntido "Juízo" e não "Tropa de elite". Sem nenhuma pirotecnia - muito pelo contrário, o filme é feito de quadros parados - a diretora Maria Augusta Ramos, a documentarista brasileira mais premiada no exterior, constrói um retrato muito mais pungente e cinematográfico da tragédia brasileira. Apesar de não fazer julgamentos, também não abre espaço para perigosas ambigüidades que criaram tantos malentendidos em relação à fita de José Padilha. Pela primera vez em sua carreira, Maria Augusta teve que lançar mão de encenações, pois, como não poderia por lei mostrar menores infratores na tela, usou de atores não profissionais para interpretá-los. O resto é a vida real, sem maquiagem. E dela o filme extrai um personagem que tem muito mais a dizer sobre o estado de coisas atual do país do que o fictício Capitão Nascimento: a juíza Luciana Fiala. A primeira audiência presidida por ela mostrada no documentário é absolutamente desconcertante. É uma pena que o filme não vá passar mais no festival.

Tocante

Por Arnaldo Branco

Irina Palm
(Sam Garbarski; Bélgica/Alemanha/Luxemburgo/Reino Unido/França 2007)

A prostituição pode ser a mais antiga profissão do mundo, mas a atividade não-remunerada é a punheta. Nesse "Irina Palm" (produção germofrancobelgoluxobretã) o sexo solitário transformado em negócio é válvula de escape da solidão real de uma viúva (Marianne Faithfull, 61, fazendo uma "mulher de meia-idade" - baixaram o gabarito?).

Marianne (deixando crescer uma terceira papada) é cantora e atriz e foi famosa namorada de vários Rolling Stones (comentário dela: "eles detonaram a minha vagina"). Aparece nesse interessante filminho com o excesso de bagagem de todos seus bem-vividos anos. "What a drag is getting old", cantaria Mick Jagger.

A trama: a pobre e desinteressante inglesa Maggie tem um neto sofrendo de doença rara. Existe tratamento, e gratuito, mas é na cara e distante Austrália. O filme não explica como o sistema de saúde de um país pode beneficiar um paciente de outro, talvez por algum sistema de convênio maluco com a ex-colônia que me escapa o conhecimento.

De qualquer forma, ingênua que só, procura emprego de atendente em uma boate suspeita e ouve, no sotaque do leste europeu do proprietário Miki (Miki Manojlovic): "atendente é um eufemismo. Sabe o que é eufemismo? Eu também não sabia, mas meu advogado me explicou..."

As atendentes masturbam clientes através do buraco de uma cabine por até 800 libras por semana (indies brasileiros fascinados pelo Reino Unido, taí a dica), mesmo sob o risco de desenvolver dores por esforço de repetição. Com o pseudônimo de Irina (Miki:"é o nome de muitas mulheres bonitas de onde venho") Palm ("palma"), Maggie vira uma lenda no meio, atraindo grande clientela a fim de se esvaziar.

A idéia do filme é divertir pelo inusitado, e consegue, mas perde por precisar do auxílio dramático do piegas (a doença do neto, o medo de ser flagrada pelo filho, as cenas que servem para reforçar a idéia de sua inadimplência). A Inglaterra já nos deu um filme simpático como esse sem o mesmo apelo ao dramalhão,"Ou tudo ou nada" (The full monty, 1997), também sobre gente flácida e barriguda obrigada pelas circunstâncias a se virar na indústria do entretenimento adulto.

A força está na relação afetivo-comercial de Miki e Maggie, grande desempenho dos atores, e nas passagens engraçadinhas. Como na masturbação, vale pelo alívio, nesse caso cômico.

Porto Alegre universal


Ainda Orangotangos
(Gustavo Spolidoro, Brasil, 2007)

Por Flu


Primeiro longa em plano sequência produzido no Brasil. Feito pelo meu amigo colorado Gustavo Spolidoro. Baseado no livro de contos Ainda Orangotangos de meu outro amigo Paulo Scott.
Tô remando pra conseguir escrever algo sobre um trabalho de amigo. Eu vi o filme no sábado. Hoje é terça e ainda não vieram as palavras nos meus dedos...
O filme é bacana. Tem algumas boas idéias. Esse lance de não ter cortes tem um quê de montanha russa e tal. Depois de embarcar tem que esperar a câmera parar. Talvez esteja aí o problema. Existir regras e restrições para a criação. Plano sequência é bacana, mas coloca as fragilidades desse método muito à mostra. O que chama a atenção mesmo é a logística da produção. Dá pra ver que é um filme de equipe. Todos em prol de não desligar a câmera. De fazer um take que funcione como um filme pronto.
O mérito de Spolidoro é mostrar uma cidade como Porto Alegre de um jeito bem universal. Bizarrices que podem acontecer em qualquer lugar do mundo. Personagens extraído de contos com pitadas de exageros, pesadelos, violência, sexualidade conseguem manter a curiosidade do próximo passo a ser tomado pela câmera louca.
A analogia entre a desgraça do inter e a visita do Papa até sua morte é bem sacada.
Como ainda estou procurando palavras, deixo dito que vale a pena a conferida. No mínimo o público vai saber porque o gaúcho fala tanto "tri".

Segunda-feira, 24 de Setembro de 2007

O sertão visto por uma criança


(Mutum, Dir: Sandra Kogut, Brasil,França, 2006)

Por Estevão Garcia


Entramos no universo ficcional proposto por "Mutum" através do olhar de seu pequeno protagonista Thiago (Thiago da Silva Marins). Tudo o que vemos, vemos pelo intermédio de seus olhos. Tudo o que compreendemos daquele contexto familiar e daquela ambiência, compreendemos através da percepção que o menino tem do mundo dos adultos. Aqui, a percepção do protagonista infantil se confunde com a do espectador. O que está nebuloso e pouco explicado para ele, também está para nós. Se o menino não consegue entender com precisão porque o seu querido tio teve sair de casa ou porque ele não se dá com o seu pai, igualmente não entendemos. E qual seria a relação de seu tio com a sua mãe, seriam eles amantes? Compartilhamos com Thiago a sua ignorância.

A câmera o capta com imenso carinho e ternura. Cabe ressaltar que, tanto Thiago da Silva Marins quanto os demais não-atores mirins, estão excelentes. Dirigidos pela preparadora de elenco Fátima Toledo, principal profissional da área no cinema brasileiro recente, as crianças são a grande força do filme. O carisma de Thiago somado ao direcionamento realizado pelo seu corpo e expressões é um dos elementos centrais de “Mutum”. O uso de seu olhar e de sua fisicalidade foram coordenados cuidadosamente. A sua colocação no foco principal da narrativa não sufoca e deixa espaço para o desenvolvimento sutil de outros olhares, principalmente os de seus irmãos.

Cuidado é a palavra-chave para definirmos a direção de Sandra Kogut em seu primeiro longa de ficção.Cuidado é um procedimento racional e nele estão embutidos pitadas de contenção, preocupação e cautela. A realizadora é extremamente preocupada na construção psicológica de seus personagens, não os quer fechados ou tipificados por conta de seu receio em cair no maniqueísmo. O sertão que Sandra quer retratar, inspirado em Guimarães Rosa, não flerta com o típico e com o catalogado. Não acaricia o exotismo, mas também não exagera em tintas naturalistas. A tragédia, ou melhor, o melodrama, é cautelosamente evitado. A morte de Felipe (Wallison Felipe Leal Barroso), situação melodramática por natureza, é arquitetada de maneira econômica. A emoção que "Mutum" constrói é sem grandes arroubos, não visa em fazer o espectador soluçar ou assoar o nariz. A estratégia de apertar o freio no melodrama não faz de "Mutum" um filme melhor ou pior, apenas se configura como mais um de uma série de receios da diretora. Esses receios sim limitam um filme que é feito mais a partir do que "não quer" do que "quer" ser. Podam o andamento, a fruição e interferem em seu resultado final.

Fotos do fim de semana


Júlio Pecly, Paulo Silva e Cavi Borges apresentam, no domingo, "Sete minutos".


Beth Formaniggi e a equipe de "Memória para uso diário", no domingo à tarde.


Gustavo Spolidoro fala, no sábado, sobre o seu curta "Pequenos tormentos da vida"


Marco Altberg e a equipe de "Panair do Brasil", no sábado.


Murilo Salles apresenta "Nome próprio", na sexta-feira.

A polêmica em torno de "Tropa de elite" continua

Ontem, depois da sessão de "Memória para uso diário", tinha gente dizendo que o documentário de Beth Formaggini sobre a atuação do grupo Tortura Nunca Mais seria um contraponto a "Tropa de elite". Pois é, a galera realmente está confundindo criador com criatura e achando que José Padilha defende a tortura. Mas lembrem-se: o cara fez "Ônibus 174".

A volta do néon noir


Por Eduardo Souza Lima

É bem menos anacrônico do que se poderia esperar assistir a um filme de Guilherme Almeida Prado em pleno século XXI. Essa sensação de anacronismo não é culpa do diretor, mas das circunstâncias que o levaram a tomar um chá de sumiço das telas - quase ninguém viu seu último filme, "A hora mágica" - e transformaram seu cinema num fóssil dos anos 80. Guilherme, porém, soube adaptar o seu estilo aos novos tempos e "Onde andará Dulce Veiga?", o filme mais assumidamente gay do diretor, acabou sendo uma grata surpresa. Principlamente porque ele soube usar muito bem das novas tecnologias - o uso da computação gráfica, que não raro vira pura cafonice em filmes brasileiros, é exemplar. É claro que primeiro foi preciso vencer uma certa resistência ao pouco carisma e a peruca ridícula do ator Eriberto Leão, que interpreta o protagonista Caio, e aos exageros da atriz Carolina Dieckmann (o diretor deveria ter amarrado seus braços), mas depois que se embarca na onda do filme, do seu artificialismo apoteótico, na inefabilidade de sua musa (Maitê Proença) a coisa flui. Principalmente porque ninguém duvida que Guilherme entenda de cinema e saiba usar de seus recursos a favor da narrativa. Seus filmes sempre são belos espetáculos estéticos, sempre há um cuidado redobrado com fotografia, cenários, figurinos, trilha sonora. Invariavelmente parecem ser mais caros que que realmente são - e esse tem até seqüência na Amazônia. O que nos leva a pensar no quanto sairia um "Onde andará Dulce Veiga?" nas mãos de um diretor mais perdulário.

Top 5 Filmes com nomes típicos de Festival

Por Arnaldo Branco

- Papel não embrulha brasas - "Le papier ne peut pas envelopper la braise", de Rithy Panh (França 2006)

Esses franceses são imbatíveis. Papel não embrulha brasas, tesoura corta papel, papel embrulha pedra etc

- Debaixo do gelo a água é quente - "Jin tian de yu ze me yang?", de Fuo Xiaolu (China / Reino Unido 2006)

Notem que o tradutor eliminou a pergunta

- Oxalá Cresçam Pitangas - idem, de KiOndjaki Kiluanje Liberdade (Angola/Portugal 2006)

Aqui o tradutor não pode levar a culpa

- Se o vento levanta a areia - "Si le vent soulève les sables", de Marion Hänsel (Bélgica/França 2006)

Esse "Se" Italocalvinista entrega o jogo. Deve ser uma produção co-irmã (uma bilogia?) de "Papel não embrulha brasas"

- 5 Frações de uma quase história - idem, de vários (Brasil, 2007)

Título fracionário para uma possível crítica: "1/2 boca"

Domingo, 23 de Setembro de 2007

Um novo mundo


Por Eduardo Souza Lima

O cineasta carioca Vicente Ferraz viveu muito anos na Costa Rica, onde iniciou sua carreira cinematográfica. O longa-metragem "Soy Cuba, o mamute siberiano" lhe deu projeção internacional, e acabou lhe rendendo o convite para participar do filme em episódios "O estado do mundo". Além dele, participam do projeto mais cinco diretores de diferentes países: Pedro Costa (Portugal), Apichatpong Weerasethakul (Tailândia), Chantal Akerman (Bélgica), Ayisha Abraham (Índia) e Bing Wang (China). Vicente (na foto acima, de Isabel Martinez, o terceiro da esquerda para a direita, com outros diretores em Cannes) conversou com a Zé Pereira sobre o filme e seus novos projetos. "O estado do mundo" será exibido terça-feira, às 14:30h e às 19h, no Espaço de Cinema 1, e na quarta-feira, às 17:45h e 22:15h, no Estação Ipanema 1.

Do que consiste o projeto "O estado do mundo"?
Este ano a fundação Galouste Goubeinkian de Portugal comemorou seu 50º aniversário, e como parte das comemorações eles promoveram um fórum interdisciplinar chamado O Estado do Mundo. Além de exposições, shows, teatro e palestras eles convidaram seis diretores de distintos pontos do planeta para realizarem um filme de episódios sobre cultura nacional, globalização, meio ambiente e etc.

Como surgiu o convite para você participar do filme?
O convite partiu do Luis Correa, da LX Filmes, produtor de Pedro Costa, e de Antonio Pinto, da Fundação Galouste Goubeikan, que queriam incluir um diretor latino-americano. Como eles conheciam meus filmes, fui convidado.

O filme foi todo financiado por Portugal?
Parte foi financiada com recursos da LX Filmes, mas a Isabel Martinez, da Três Mundos, é a co-produtora e a responsável por viabilizar o episódio brasileiro. A Três Mundos tem os direitos do "Estado do mundo" aqui no Brasil, ele será lançado e distribuído ainda este ano.

Você chegou a conversar com outros cineastas sobre o projeto? Houve uma troca de idéias entre os diretores dos episódios?
Não. Eles deram total liberdade para a realização de cada um dos episódios. A idéia era criar seis olhares totalmente independentes. Eu apenas os encontrei no Festival de Cannes deste ano onde vi o filme completo pela primeira vez.

O que você acha que o seu trabalho tem em comum com os dos demais diretores?
Os seis trabalhos são radicalmente diferentes. E acho que isso é uma força para um filme multicultural. O legal desse projeto foi a total liberdade dada para a realização de cada um dos episódios. "O estado do mundo" é uma reflexão sobre diversas culturas e realidades nacionais através do olhar de cada um dos seis realizadores.

Do que se trata o seu episódio?
É uma ficção sobre pescadores da Baía da Guanabara. Há muito tempo tinha vontade de filmar dentro de um barco, e em particular dentro de uma dessas traineiras que pescam em frente das praias do Rio. E pensando em buscar outra dimensão da nossa cidade, ou seja, de quem a vê desde dentro d'água. Como estava nas bases do projeto os temas da globalização e meio ambiente, foi fácil pensar numa história singela sobre o encontro de três pescadores com um petroleiro russo.

Quais são os seus próximos projetos?
Eu acabei de filmar na Costa Rica "O Rey Del Cha, cha, chá" uma crônica bem humorada sobre a Revolução Sandinista, que co-dirigi com a Isabel Martinez e é protagonizada pelo mexicano Damián Alcazar. Nesse momento estamos finalizando este filme. Em "A Montanha", filme que se passa na Itália durante a Segunda Guerra Mundial, contamos com a participação da Petrobras, do BNDES e da Primo Filmes, além de co-produtores estrangeiros. Estamos em pré-produção e em breve viajaremos para buscar locações na Itália. Ele tem data de filmagem prevista para janeiro ou fevereiro de 2009.

Bone machine


Por Eduardo Souza Lima

Acabei de ver "Síndromes e um século", do tailandês Apichatpong Weerasethakul. Não me atrevo a escrever nada sobre o filme agora - Luiz Carlos Oliveira Jr. fez uma crítica muito boa na Contracampo -, só digo que nunca vi nada parecido. Foi a mesma sensação de estranhamento que tive quando ouvi "Bone machine", dos Pixies, pela primeira vez.

Cinefilia é crime, denuncie


Woody, cadê você, eu vim aqui só pra te ver

Por Arnaldo Branco

Esta tarde, enquanto tentava me concentrar no meu roteiro de filmes (já garanti 8 ingressos, muitos deles por critério de eliminação, como o de hoje, "Entrevista" do Steve Buscemi, não faço idéia do que se trata) era constantemente atrapalhado no Espaço Botafogo pelas conversas paralelas dessa raça do meu particular desagrado, o cinéfilo.

Acho que o cinema, embora seja minha arte predileta (com o pompoarismo em segundo), atrai o tipo de imbecil que acredita em alguma espécie de osmose cognitiva, onde o acúmulo de filmes assistidos valeriam pontos em um sistema de milhagem de QI. Às vezes serve como um atestado de inteligência para pessoas não muito familiarizadas com o esforço intelectual (e com o físico tambem, o cinema poupa até o trabalho de virar a página). Não é a toa que o proverbial comentário atribuído a pessoas superficiais é "não li o livro, mas vi o filme".

Daí o monte de merda que você é obrigado a ouvir enquanto escolhe o que assistir - da boca de alguém com uma pose de autoridade mais marrenta que a do Capitão Nascimento em Tropa de Elite. Sei que tem um círculo no Inferno só pra esses caras, e se o Diabo é justo, um abaixo de outro círculo em obras.

Alice ainda mora aqui

A casa de Alice
(Dir: Chico Teixeira, Brasil, 2007)

Por Estevão Garcia

Primeiro longa-metragem do documentarista Chico Teixeira, A casa de Alice inicia-se exalando um nítido desejo de ser uma crônica ou apenas um recorte no cotidiano de uma comum mulher de classe média. O sentido de recorte é evidente porque o filme até a sua primeira metade está mais interessado em esboçar um específico painel cujo eixo central recai em Alice do que propriamente desenvolver uma trama ou estabelecer uma intriga. O que vemos é a captação do dia a dia de uma simples família de classe média paulistana, a descrição das relações entre os seus componentes e os sentimentos, rancores e frustrações que dali aflora. Como já nos foi sugerido pelo seu sintético e direto título, A casa de Alice constrói sua narrativa a partir desses dois elementos inseparáveis: Alice e seu lar. A casa, apesar de ser habitada por mais cinco pessoas (a sua mãe, o marido e três filhos) é sobretudo de Alice. Tal afirmação não se baseia apenas na informação de que a protagonista é de fato a provedora do lar, a única que "coloca dinheiro em casa". O motivo que a designa como a autêntica detentora da posse daquela residência é a sua posição ocupada no interior do corpo familiar. Posse, dizemos aqui, mais no sentido simbólico do que material.

Simbolicamente, tudo o que acontece naquele determinado espaço apresenta Alice, a figura da Mãe, como centro organizador. A câmera de Chico Texeira é colada em seu corpo e procura captar cada expressão, cada sorriso e cada gestual. A aparência solta e livre de simplesmente registrar um trecho da vida da protagonista sem a obrigação de se contar uma estória logo se dissolve. Ao acabar a introdução e de já deixar bem construídos o palco e os agentes da narrativa o filme ainda permanece com esse ar documental, fruto da formação do realizador, por alguns momentos. Porém, logo Casa de Alice se vê obrigado em compensar o que antes foi descrito com liberdade. Por exemplo: a insinuação feita na primeira parte que Lindomar tinha uma amante adolescente e que ela era justamente a menina confidente de Alice se resolve de maneira frouxa e jogada na segunda. Tudo começa com o diálogo entre Lucas e Júnior sobre a veracidade da escapada de cerca do pai. Na sequência seguinte Alice descobre isso sozinha ao comparar o cheiro da roupa do marido com a Marca do perfume que tinha dado à garota. Corta, Alice está na cozinha com a mãe e aparece a ninfeta para mais uma visita. A mulher traída abre a porta e a recebe a base de bolachas e xingamentos. Relações de causa e efeito como essas são mal trabalhadas, são dispostas sem respiro e ritmo. A explosão de fúria de Alice no momento em que assiste uma briga em casa e a repentina morte de sua cliente / esposa de seu amante também seriam mais alguns exemplos dessa deficiente distribuição de informações.

Casa de Alice aparenta ser menos dois filmes em um do que duas propostas agrupadas em um único filme. Essas duas propostas se chocam, são conflitantes. Elementos chave do contexto familiar como a relação incestuosa de Alice com Júnior é apenas sugerida sem que essa sugestão tivesse alguma importância ou relevância. Não seria estritamente necessário o desenvolvimento dessa relação, ela poderia permanecer no ar, em aberto, sem problema algum se o filme continuasse com a sua textura inicial. Porém, em sua segunda parte, Casa de Alice quer mais contar do que mostrar. E em sua conclusão ele aparenta desejar operar um retorno à estratégia do começo. Não há conclusão ou finais fechados, a armação volta a ser "frouxa" e não encadeada. Dona Jacira caminha pelo asilo lentamente ouvindo um rádio de pilha. Alice está segurando a mala de sua falsa viagem, tentando ligar para o amante que não quer atender ao telefone. Tudo volta a ser um recorte, uma moldura específica de um processo maior.

Palmas de Ouro no Odeon


O sueco Bille August pode tirar uma onda que só Emir Kusturica também pode: ganhou Cannes duas vezes. O diretor de "Pelle, o conquistador" (1987) e "As melhores intenções" (1992) subiu ontem ao palco do Odeon para apresentar seu novo filme, "Goodbye bafana" (foto).
- Em primeiro lugar eu gostaria de dizer que estou muito feliz em estar no Brasil, um país que tem uma releção muito forte com o cinema - disse o cineasta. - Levanto-se em conta tudo o que acontece no mundo hoje, para nós foi muito importante fazer este filme, que é um filme que fala de reconciliação e de perdão.
"Goodbye bafana" fala da relação de Nelson Mandela (Denis Haysbert), quando preso político, com seu carcereiro (Joseph Fiennes). O filme passa hoje às 17:45h, no Estação Ipanema 2.

A Classe Média vai ao Orgasmo

Por Arnaldo Branco

Na época do referendo do desarmamento, quando alguém defendia o direito do Cidadão De Bem (entidade em que - no meu sincretismo religioso - até acredito mas nunca vi) portar armas, lembrava daquela cena de Love and Death com o Woody Allen tentando levantar uma pistola com o dobro de seu tamanho.

Voltei a pensar na Classe Média nessa representação fracote e desajeitada depois de ler que ao fim da sessão especial de Tropa de Elite muitos gritaram em apoio ao Bope ("Caveira!") e outro dia toda a praia aplaudiu o cooper de uma unidade do batalhão. Fica meio explicíto o subtexto homossexual da admiração do Cidadadão De Bem pelo trabalho da polícia, desde que feito bem longe da Zona Sul. É uma admiração de donzela em perigo, de irmão mais novo que apanhou na escola e conta com o apoio do mais velho para a vingança.

Tenho a nítida impressão que se o Bope baixar as calças, a Classe Média chupa.

Shut the fuck up Donny


Entrevista (Dir: Steve Buscemi, Eua, Holanda, 2007)

Por Arnaldo Branco

Essa é a frase que Steve Buscemi (na pele de Dony, óbvio) ouve em intervalos de 5 minutos em O Grande Lebowski (irmãos Coen) - e que me ocorreu durante toda a projeção desse Entrevista, remake de um filme holandês dirigido por Steve. Um grande problema, já que só tem dois personagens que falam o tempo todo.

A história: o jornalista de política Pierre Peter (Buscemi) é obrigado a entrevistar Katya (Siena Miller), uma atriz de novelas e filmes B, e eles se dão mal de cara. Mas o destino, ou o Grande Deus Roteiro, resolve dar uma forcinha e uma segunda chance para os dois e junta o casal no loft de Katya para continuar a entrevista - na real uma sessão de teatro filmado de baixo orçamento.

O principal problema está nos personagens - Steve Buscemi pode fazer o público eventualmente acreditar no mau-caratismo ou nas boas intenções de seu Pierre, mas o sujeito é invariavelmente mala. A Katya de Siena Miller também, mas ela é a dona do apartamento e não se entende porque aceita a presença de um sujeito que manda tantas invertidas grosseiras mesmo quando parece que os dois vão chegar a um acordo.

Fica um jogo de gata e fuinha que já foi melhor filmado, e com reviravoltas de enredo mais críveis, em Oleanna (de David Mamet, William Macy como o feioso da vez). Rola até um beijo, embora qualquer celebridade com o condicionamento físico de Siena provavelmente chamasse a polícia diante da visão da arcada dentária de Buscemi.

Entrevista abusa do recurso da reversão de expectativa (às vezes ela parece má, ele bom, depois inverte, aí parece que ela vai sair por cima, depois ele etc). Comigo aconteceu algo parecido: escolhi o filme por eliminação e não tinha a menor idéia da sinopse, comecei gostando e depois me aborrecendo. Como um Robinho, Buscemi tentou uma firula a mais e acabou desarmado.

Shortbus, falso como uma maquete

Por Estevão Garcia

Shortbus (Dir: John Cameron, Estados Unidos, 2006) nos conta três estórias encenadas em uma grande metrópole representada por uma tosca maquete. A maquete com os seus frágeis prédios de papelão nos conecta às janelas de cada personagem. São eles uma terapeuta sexual que não consegue chegar ao orgasmo, um casal gay em crise e uma dominatrix profissional com problemas de sociabilidade. A partir da apresentação desses tipos e de seus banais problemas existenciais vemos se amontoar uma pilha de clichês. A terapeuta enxerga no alcance de seu orgasmo a principal razão de sua patética vida, o gay não consegue se "dar" para ninguém e a sádica não sabe se relacionar. A intercalação dos três blocos narrativos é realizada de maneira extremamente convencional. A montagem paralela pouco criativa logo é substituída pelo cruzamento das três estórias em um mesmo espaço: o local onde o sexo é praticado sem limites. Ali os corpos se misturam, se perdem e não sabemos reconhecer onde começa um braço e de onde se termina uma perna.

A terapeuta então passa a freqüentar assiduamente a Casa de Sexo a fim de terminar com a sua angustia. Porém, ela não pratica, apenas observa os freqüentadores se exercitarem em loucas e longas orgias. A consultora sexual frustrada sente inveja de uma linda mulher tatuada que sempre se satisfaz com diferentes homens. A sua obsessão por ela se resolve na seqüência final. Formando com a jovem e mais um homem um triângulo amoroso , a médica finalmente chega ao orgasmo, clímax conjunto de personagem e filme, e as luzes da cidade se acendem. Imagem mais cafona que essa não há. Shortbus não passa de um grande engodo de festival. Típico filme "independente" americano com ares de apresentar algo novo quando na verdade não é mais que uma série de repetições e vícios de uma fórmula há muito tempo gasta: sexo explícito, música alternativa, diversidade sexual, humor ágil e "espertinho", cenários despojados. Seria melhor que aquelas luzes de Shortbus continuassem apagadas.

O Cinema é a Música da Silenciosa Luz

Por Estevão Garcia

Japão, primeiro longa-metragem do diretor mexicano Carlos Reygadas, foi exibido pela primeira vez no Festival do Rio de 2002 e causou grande comoção. Explodia ali, em cada fotograma, um desejo inesgotável de cinema. Sem dúvida, Japão foi um dos grandes filmes projetados nas telas do Festival daquele ano. Três anos depois, em 2005, o Festival faz chegar até os nossos olhos o ansiosamente esperado segundo filme de Reygadas: Batalha no Céu. Decepção. Toda a força, a energia e a vitalidade presentes em Japão pareciam ter se evaporado em Batalha no Céu. O que antes era fúria e pulsão tinha se convertido em maneirismos e construções estéticas vazias. Batalha no Céu parecia ter estragado tudo o que Reygadas tinha construído em Japão. Depois de ver Batalha no Céu tive várias vezes o impulso de voltar à Japão só para averiguar se eu tinha de fato sido ludibriado. Mas, não tive coragem. Não queria correr o risco de desmontar o encanto que Japão tinha me causado.
Eis então que surge esse belo Silenciosa Luz (Dir: Carlos Reygadas, México, 2007). O melhor filme visto no Festival do Rio 2007 até agora. Sugiro ao leitor que não perca a oportunidade de assisti-lo. O filme ainda será exibido nessa próxima segunda-feira, dia 24, em dois horários (13:30 e 21:40) no Estação Laura Alvim. O cinema de Ipanema infelizmente pode não oferecer as condições ideais de projeção e som, necessárias para assistir um filme como esse, da mesma forma que o Espaço de Cinema 2. Mas, mesmo assim vale a pena. O ato de assistir esse filme é uma experiência que devemos ter o cuidado de não deixar escapar. Silenciosa Luz mas que redimir Carlos Reygadas, redime o próprio cinema.

Tropa de Elite Pega Um, Pega Geral

Por Estevão Garcia
Na ocasião do estouro de Cidade de Deus (Dir: Fernando Meireles, 2002), muito se falou que a partir de então iriam pipocar filmes que seguiriam o seu rastro. Cogitou-se a inauguração de um filão no cinema brasileiro contemporâneo que se basearia sobretudo na conjugação entre cinema de gênero (no caso o cinema de ação) e a chamada narcocultura. Filmes com a estrutura narrativa, dramática e estilística do cinema de ação norte-americano, portanto possuidores de uma linguagem familiar ao grande público, inseridos em um recorte nacional: a ambiência da favela e a problemática do tráfico de drogas. O espectador comum então se identificaria com esse produto audiovisual de duas maneiras, a primeira por seu “mimetismo” de um cinema tido como universal e a segunda por sua similaridade com o cotidiano que o envolve. Essa fórmula é certeira e possui retorno garantido, porém entre Cidade de Deus e Tropa de Elite houve um intervalo de cinco anos. Ao mesmo tempo em que entre 2002 e 2006 não existiu um seguidor do modelo de Cidade de Deus, o filme de Fernando Meireles se converteu em uma espécie de paradigma ou selo de qualidade de como deve ser feito no Brasil um filme de ação com a cultura do tráfico. Qualquer filme que pretendesse seguir essa receita carregaria a sua sombra e seria alvo de uma inevitável comparação. No caso de Tropa de Elite ainda temos mais um elemento que o liga ao filme de Meireles: o nome de Bráulio Mantovani na equipe de roteiro e o de Daniel Rezende na montagem.

Esse dado não é superficial e ao compararmos a estrutura dos dois filmes ele nos diz muito sobre um específico projeto de cinema popular para o Brasil nos anos 2000. A estratégia de seduzir o espectador, como em todo cinema de gênero, é primordial, porém aqui é extremamente evidente como ela não é negligenciada em nenhum minuto. O espectador é envolvido desde o momento em que senta na poltrona e uma das grandes preocupações do roteiro se constituí em minimizar a incontornável perda de ritmo e dinamismo ao término da primeira parte. Depois que o filme retorna ao ponto de onde começou (o tiroteio no baile funk) e vai para as seqüências do treinamento dos aspirantes ao Bope, o fluxo como já era esperado, diminui. A direção então, através do tratamento de decupagem soluciona esse problema calculadamente. O humor negro oriundo da perversidade e do sadismo dos oficiais também é um ingrediente que supre o abrandamento da agilidade anterior. Portanto, o que encontramos aqui é uma estrutura astutamente construída, precisa e funcional. As suas limitações são percebidas e controladas pelos realizadores.

Talvez a mais perceptível delas seja a utilização do personagem-narrador. Se em Cidade de Deus a distribuição da narração em off de Buscapé e a sua relação com os acontecimentos narrados foram bem sucedidas, já não podemos afirmar o mesmo de Tropa de Elite. Os problemas ocasionados pela saturação e onipresença da narração de Nascimento surgem desde a própria criação do personagem e da trama. Podemos afirmar que Buscapé era um personagem neutro, talvez um falso protagonista. Seu papel era claramente ser um elo, um elemento de ligação, ele estava dentro, mas também estava fora daquele contexto. Nascimento não. Tudo o que ele narra está intimamente entranhado, cravado, tatuado em sua pele. Sua vida pessoal e profissional é uma só. A sua descrição de seu entorno precisava ser ainda mais didática, detalhada e expositiva que a de Buscapé. Nascimento adota um ar professoral, assume um revestimento científico ou acadêmico em seu discurso. Ele quer ensinar o espectador e o chama repetidas vezes de “parceiro”. Se Buscapé queria levar o espectador para dentro do universo da Cidade de Deus, Nascimento quer doutriná-lo e abrir os seus olhos para fazer ele enxergar o “verdadeiro” funcionamento do sistema. Observamos: Nascimento apresenta essa postura, não necessariamente o filme. O sistema que Nascimento alega tão profundamente conhecer e que deseja apresentar ao espectador é comprado pelo filme até um certo ponto. Determinadas questões como a necessidade da existência ou não de um órgão com o Bope no Rio de Janeiro é defendida pelo protagonista e ao mesmo tempo posta em aberta pelo universo ficcional. Tropa de Elite termina com um grande ponto de interrogação na cena em que Matias estoura a cara de Baiano, deixando propositalmente no ar problemas que agora caberá ao espectador se preocupar, pensar e discutir.

Sábado, 22 de Setembro de 2007

Dica do tio Flu


Em Ainda orangotangos, longa-metragem de estréia de Gustavo Spolidoro, rodado num único plano-seqüência, o espectador descobrirá a origem da gíria-prefixo "tri", tão querida pelos gaúchos. Nosso amigo Colorado nos dá uma pista: ela teria a ver com o seu amado Internacional. O filme passa hoje, à meia-noite, no Odeon.

Mais festival na rede

Pessoal, a Re-vista! e a Críticos.Com.Br também estão fazendo cobertura diária do evento.

Apartheid Cultural

Por Gustavo Acioli

Estudando a programação do Festival do Rio, reparei que foram programados para as lonas culturais (Anchieta, Bangu, Campo Grande, Guadalupe, Maré, Realengo, Santa Cruz e Vista Alegre), os seguintes filmes: "A grande família", "Antônia" e "Uma noite no museu".
A que se deve isso? Por que a grande festa da diversidade cinematográfica, que contempla os mais diversos recortes, na hora de voltar os olhos pro chamado "povão", oferece o de sempre, o trivial simples? Por que servem, requentados, enlatados da Globo e de Hollywood?
Chego a me perguntar se isso seria preconceito com as pessoas ou preconceito com os filmes do festival.
Meu esquerdismo juvenil, que caninamente me persegue, por mais que eu o chute e não mais o alimente, fica latindo num canto do escritório: - É consciente ou inconsciente? É consciente ou inconsciente? – Que foi, cão?! Pergunto irritado. – Quem programa esses filmes nas lonas tem razões objetivas ou apenas reproduz, apesar das boas intenções, uma visão estigmatizada sobre as camadas mais pobres da população? – Não vou responder. – Au au! Insiste ele. – Olha, cão, essa sua pergunta não leva ninguém a lugar nenhum. Se eu conhecesse alguém do PSTU, eu te dava de presente. – Caim caim!
O material sobre a programação das lonas, disponibilizado pelo festival à imprensa internacional (está apenas em inglês), diz o seguinte: Os filmes foram escolhidos por sua popularidade e apelo para todas as gerações... Esperamos que essas exibições, como parte do trabalho que é desenvolvido ao longo do ano nas lonas culturais, sejam mais um passo no sentido de estimular o gosto do público dessas áreas suburbanas pelo engajamento cultural.
Tento elaborar um raciocínio mais complexo que o do meu cachorro. Vem à minha mente a exigência de black tie para a noite de abertura do festival. Que tremenda carga simbólica! A alta roda toda engalanada para assistir, que ironia, “Tropa de elite”. Depois foram comentar (ou não) sobre o filme e sobre a brutal realidade que ele retrata fartando-se numa festa financiada pela renúncia fiscal. Lembro, então, que a exigência do black tie é uma das coisas mais descaradamente desrespeitadas que já vi. Começo a rir. Procuro pelo totó, mas ele foi fazer alguma outra coisa. Tento prosseguir o raciocínio, mas perdi o fio da meada.
Dia desses, Leda, a faxineira que trabalha na minha casa, levou pra mim uma cópia pirata de "Ó paí, ó". Disse que já tinha visto umas vinte vezes. Não consegui chegar ao final do filme. Dias depois, ela comentou comigo que seu filho adolescente, que assiste ao filme quase todo dia, perguntou: - Mãe, por que será que o Seu Gustavo não gostou desse filme? Todo mundo gosta!!! Suspirei fundo, enquanto ela se divertia com meu sofrimento. Então, eu disse: - É, Leda... Só me resta o exílio, mesmo... Ela riu, concordando e varrendo. Senti em seu sorriso um ar de triunfo. Depois, vi que era mais do que isto: sorrindo, ela me dizia que eu já sou um exilado. E ela tem razão.
- Leda. Você não quer levar esse cachorro pra você, não? – Eu não, seu Gustavo! Ele é muito chato!
- É, totó... É nóis.

Querido diário Colorado (21/9/2007)


Por Flu

Depois de uma extensa troca de e-mails entre meus colegas de revista, me encaminhei para a tenda do festival em Copa para finalmente me tornar um jornalista credenciado. Tive sorte, pois não peguei fila. Tava lá com meu nomezinho escrito. Aproveitei pra fazer um tour pela tenda. Bem bacaninha, com direito a cadeiras de praia na areia. Quando tiver uma beberragem liberada lá estarei!!
Peguei o 592 pra voltar à Botafogo. Já tinha uma prévia seleção feita pela Carô, o que me ajudou na decisão final dos filmes. Anotei os códigos e fui feliz pegar os ingressos. Gosto mesmo é não saber porque peguei tal filme, de não saber nem do que se trata.
Escolhi ver um filme as 17. Daí tive que ficar fazendo hora pelo bairro. Acabei sentando num dos muitos pé-sujos da área e pedindo uma cerva. Coloquei em ordem dias e horários os ingressos que peguei. Incrivelmente não bateu nenhum horário.
Primeiro filme - Fabricando Discórdia
Documentário Canadense que mostra o lado maniqueísta de Michael Moore.
Fiz questão de ver esse filme. Sempre achei ele um gordo fanfarrão. E acho que estava certo!
O filme em si parece de TV. Com aquela liguagem narrativa em off e cenas do sujeito em várias situações.
É um filme pra se ver quando se está em casa trocando canais. Daí dá uma parada pra ver se é legal.
O único valor dele é relatar que o homem da pretensa esquerda americana é um gordo mais preocupado com a imagem de popstar que ele criou do que com a veracidade do que relata nos seus documentários.
Confesso que fiquei arrependido de não ter ido no Tarantino às 16h.
Depois, voltei pra casa caminhando na Voluntários da Pátria. Comprei umas salsichas e fui pra casa comer cachorro quente com a Carô.
Depois do banho, pegamos o ônibus integração para o metrô e nos encaminhamos para o Odeon na Cinelândia.
Segundo filme - Nome Próprio
Filme de Murilo Salles baseado em textos de Clarah Averbuck.
Depois de uma apresentação da equipe deveras demorada (foto acima), começa a sessão com mal enquadramento da projeção.
O projecionista interrompe para ajeitar o quadro. Parecia comando de DVD. Incrível essas novas tecnologias!!
O filme é bonito e querido. Tem alma feminina. Sendo de uma jovem escritora e interpretado por uma jovem atriz (Leandra Leal - excelente), o experiente Murilo Salles captou o espírito poético ríspido e teve muito bom gosto no movimento de câmeras, iluminação, e tudo que se vê na tela.
Dá pra se fazer uma comparação entre esse filme e "Cão sem dono", de Beto Brandt (que Daniel Galera escreveu o livro). Ambos são baseados em textos de blogueiros que viraram escritores. Falam de solidão e paixão. Só que um é masculino e o outro é feminino.
"Nome próprio" é feminino e sem pudor. A pretensa escritora na história está sempre a procura de um personagem. Escreve sobre seus muitos relacionamentos e a falta de outros muitos. O que se vê é a ânsia do muito a todo custo. Retrato da geração e-mail, blog, orkut, msn e afins. Sempre procurando e querendo ser procurado.
É um filme universal, que pode passar em qualquer lugar do mundo. Importante pra um país que precisa mostrar que pode viver sem folclorismos e regionalismos. Fiquei feliz!

Flamengo até morrer de cirrose



Por Arnaldo Branco

Queria ter visto ontem "Irina Palm", o filme sobre uma velhinha (Cristo, a Marianne Faithfull) que masturba homens e mulheres por dinheiro, só porque já tinha um título pronto para a crítica: "Tocante" - mas o editor Zé José me convenceu a ver "O Engenho de Zé Lins" com um argumento definitivo: "toca o Hino do Flamengo três vezes". Mesmo sabendo que corria o risco de arrumar briga por me sentir tentado a levantar na poltrona com a mão espalmada no peito durante as execuções, fui assistir.
Apesar da enviada especial da Globo ao tapete vermelho do Festival afirmar categoricamente que documentário não é cinema (o que me fez pensar: pornô sem história é realmente pornô?), abri os trabalhos com essa sensacional produção de Vladimir Carvalho sobre José Lins do Rego, escritor associado aos canaviais, ao Flamengo e a questões de vestibular - maneira que nossos pedagogos inventaram para matar qualquer curiosidade dos jovens a respeito de autores de interesse.
Vladimir vai ao Engenho de Itapuá mostrar que o cenário fundamental do corpo da obra do escritor - que descrevia um mundo em decadência - já está em estágio de fossilização. Seu encontro com o ator Sávio Rolim, que fez o papel título em "Menino de engenho" de Walter Lima Jr. e agora em estado de demência, ajuda a sublinhar a idéia. O depoimento de Ariano Suassuna (que tem um momento de digressão genial sobre um cachorro que invadiu o palco de uma encenação de "Antígona") faz um paralelo entre o esquecimento do Engenho e a subvalorização da obra de Zé Lins pela crítica.
Os depoimentos, aliás, dão grande força ao documentário - além de Suassuna, familiares, Carlos Heitor Cony, Rachel de Queiróz - o poeta Thiago de Melo dá um testemunho extenso e detalhado sobre a agonia dos últimos dias de seu amigo; mas o que poderia ser um relato digno de uma tia velha em uma festa familiar entediante é temperado com espisódios de pura graça, como o do trote que o escritor o obrigou a passar em uma senhora.
Aliás, o tom do filme reflete o que dizem os entrevistados sobre a personalidade de José Lins do Rego - ora melancólico, ora esfuziante, como a parte sobre o fanatismo pelo Flamengo com cenas de arquivo do time em ação embaladas pelo Hino Sagrado. Resisti a levantar, mas cantei junto.
A sessão seguinte no Odeon seria a do filme "Nome próprio", baseado em livro de Clarah Averbuck, menina de nenhum engenho. Me fale sobre um mundo em decadência...

Macbeth Nascimento



Por Eduardo Souza Lima

Galera, alto lá: protagonista não é sinônimo de mocinho. Macbeth era um grandessíssimo canalha covarde. A peça de Shakespeare tem fundo moral e o bardo inglês quis fazer do personagem-título não um herói, mas um exemplo a não ser seguido. Lamentavelmente, a se julgar pelo quer se tem falado de "Tropa de elite", José Padilha errou feio em alguma coisa: as pessoas estão acreditando que o discurso do criminoso - sim, minha gente, porque, mesmo que alguns não queiram, tortura é crime, e hediondo - Nascimento é defendido pelo diretor. Se por um lado tem gente tachando o filme de fascista, por outro ele fez aumentar em seis vezes as inscrições para o Bope desde que a cópia pirata vazou - a excelente crítica de Eduardo Valente para a Cinética dá as pistas do porquê. E ainda tem gente que duvida do poder de fogo de uma obra de arte. O bicho tá pegando, ainda não dá pra fazer bangue-bangue com a nossa realidade - pelo menos não dá para fazer isso e achar que vai sair incólume da história. Apesar de ter sido um fenômeno de bilheteria, "Cidade de Deus" causou bem menos comoção. Arrisco um palpite: a classe média passava ao largo e em segurança pelo filme de Fernando Meirelles, como numa passeata na Vieira Souto. Ter uma arma apontada para a cara traz, no mínimo, desconforto.

Sexta-feira, 21 de Setembro de 2007

RSVP

Por Alexandre Sivolella Barreiro

Convite para a abertura do Festival do Rio 2007. Sessão do aguardado e mais que pirateado "Tropa de Elite", no Odeon, seguida de festa no Centro Cultural Ação da Cidadania. Lê-se no convite: RSVP Liège Monteiro. Vislumbro narizes empinados, flashes e muito botox.
O filme não pôde ser visto. A imensa fila na Cinelândia inibiu qualquer pretensão de se sentar em uma das 610 poltronas do último palácio de cinema da cidade. Mesmo sabendo depois que o filme também passou no Palácio, ali ao lado, não tem problema. Esse é um daqueles que a gente põe no grupo "não preciso ver no festival porque já tem distribuição garantida". Que se divirtam os mais ansiosos.
Quanto à festa... Corrida ao guarda-roupa para tentar encontrar um figurino que se enquadre no conceito "black tie". Alguns certamente assinaram seus cheques em nome da Só a Rigor, ali no encontro da Nossa Senhora de Copacabana com a Princesa Isabel. Em meu armário encontrei um terno preto básico da época em que meu corpo estava em forma. Em forma menos redonda. Aperta daqui, aperta dali e seguimos, eu e a patroa, para o bairro da Saúde.
Uma primeira surpresa: nada de flanelinhas. O festival teve o bom sendo de chamar a CET Rio para organizar o entorno. A festa ainda estava vazia. O enorme armazém que segundo consta foi o primeiro a ser construído naquela área e agora serve à ONG criada pelo Betinho agora é o local de festas preferido da cidade. O aluguel deve estar nas alturas. As cestas básicas que aguardem.
Leio agora que a decoração da festa se inspirou na China, que comparece em peso ao festival deste ano com uma mostra própria. Não fossem os enormes vasos chineses junto à entrada, eu não teria percebido. Ao fundo do enorme armazém destaca-se um mega banner do "Tropa de Elite". Divulgação pesada. Só esse cartaz deve pagar o custo de um curta-metragem brasileiro. Eu e meus parâmetros...
A música é do tipo "lounge estamos num festival de cinema". Só trilhas sonoras de filmes. Chaaaato. Só vai empolgar mesmo dali a 2 horas, quando o público, vestido predominantemente de preto, ocupar o grande vão. Não chega a lotar. Poderiam ter liberado mais penetras.
A grande descoberta da noite: caipirinha de jaboticaba, fruta que só tem no Brasil, assim como o Festival do Rio e o BOPE.

Falando em canalhice...

Essa do prefeito retirar o apoio financeiro da prefeitura ao evento depois de todo o material de divulgação estar pronto é de uma sordidez sem tamanho.

Enquanto isso, no tapete vermelho...

Ontem, na festa de abertura do festival, José Wilker disse que quem vê DVD pirata é canalha. Imaginem o que o ator pensa sobre quem tem cargo público e não trabalha?

O Festival do Rio na Globo

Sempre que tem é obrigada a tratar de cultura, a Globo, como não pode sacar a arma, saca o cheque. Ontem, no "Jornal da Globo", a repórter destacada para cobrir a cerimônia de abertura decretou: "'Tropa de elite' é o primeiro longa-metragem de José Padilha, diretor do documentário 'Ônibus 174'". É sério, segundo a jornalista da emissora - que, não, não era a Glória Maria - documentário não é filme. E olha que é ela quem apresenta a agenda cultural do "RJTV". Para dar fecho de ouro à reportagem, a dita terminou com um depoimento do intelectual Luciano Huck: "O festival é importante porque democratiza o cinema".

Serviço de utilidade pública

O blog dos filmes escondidos do Festival


A Coordenação Internacional do Festival do Rio criou o blog NOTÍCIAS DO FRONT, espaço dentro do site oficial do evento, dedicado exclusivamente àqueles "tesouros escondidos" que o grande público ainda precisa descobrir. Filmes aparentemente pequenos, mas que constituem a própria essência de todo o Festival, que o colocam numa posição conceituada entre os maiores eventos de cinema no mundo.

No Notícias do Front o público encontra informações detalhadas sobre os filmes internacionais e destaques particulares dentro da vasta programação do Festival, incluindo debates, entrevistas e oficinas.

Você também pode participar, enviando dicas de filmes e sugestões para os próximos anos. Manifeste-se: a sessão já vai começar!

http://festivaldorio2007noticiasdofront.blogspot.com/

Discurso sobre o método

Por Arnaldo Branco

Chamado a escrever sobre cinema na Zé Pereira, decidi tomar o cuidado de alertar o leitor sobre meu modus operandi. Basicamente utilizo o método que batizei Deixe Seus Preconceitos Correrem Livremente.

Um exemplo prático: posso assistir sem muita dor um filme que tenha uma estação do ano no título, como em "Primavera para Hitler" ou "De repente, no Último Verão". E não vejo tanto problema em filmes com alguma referência a estilos ou movimentos de música clássica ("Requiém para um Sonho", "Ópera do Malandro", sei lá) no nome. Mas definitivamente não consigo suportar a idéia de uma estação do ano associada a referências à música clássica no mesmo título: Requiém para uma Primavera, Sonata de Inverno etc. Aí não.

Portanto sou apenas um pobre quadrinhista sem credenciais - minto, ganhei uma para cobrir o festival - para escrever sobre a sétima arte. Aliás, quadrinhos são considerados a nona arte, o que sempre me fez especular qual seria a oitava, pintura em porcelana? De qualquer forma, se esse lance de arte fosse campeonato, estaria ali pela zona de rebaixamento.

Enfim, entendam que diferente desses carinhas de quem se diz "o que ele fala não se escreve", o que eu escrevo não se escreve. Tipo o FHC, saca?

Cineasta na sessão de imprensa pega críticos de surpresa

Por Gustavo Acioli

Ontem, realizei minha primeira missão para a revista Zé Pereira. Compareci à sessão para a imprensa do filme Tropa de Elite.
Terminada a projeção, ainda atordoado pelo filme e meio zonzo com o frenesi dos jornalistas que cercavam o Caio Junqueira, vejo-me, sem perceber, participando de uma rodinha de críticos. Rodinha grande. Eram bem uns oito deles. Nunca havia estado em contato com tantos de uma só vez. Foi divertido. Quase equivalente a uma visita ao zoológico.
Primeiro, resolvi apenas observar. Constatei o óbvio: críticos criticam. Alguns saem da sala procurando pedras pelo chão. Outros já as trazem nas mochilas. Digerir o filme? Refletir? Esperar os ânimos se acalmarem, a poeira baixar? Que nada. O que vale é ser o mais rápido no gatilho. Fez um filme? Perdeu, irmão. Vai levar pedrada. Todos, absolutamente todos, sabiam alguma coisa a mais do que o diretor, os atores, o fotógrafo e os roteiristas. Era um tal de não gostei disso, não gostei daquilo, o filme é isso, o filme não é aquilo. Saiu mais tiro que na cena do baile funk. E sempre com grande criatividade. Cada um escolhia um alvo só seu. Tudo muito bem coordenado. Quase teatral.
Conversa vai, conversa vem, começaram a discutir sobre as questões levantadas pelo filme. Era a minha hora. Resolvi partir pro ataque. Acabei de ficar quatro dias em casa vendo judô das nove da manhã até a meia-noite. Comigo, agora, é no ippon, malandro. Escolhi o mais magrinho. Covardia. Mas foi o que vacilou primeiro.
- É reducionista você simplesmente classificar o capitão como um psicopata.
- É... Eu sei... Não é bem isso... Mas...
Ippon, né? Aposto que não sabe nem a definição de psicopata.
Logo aproveito a deixa de um outro:
- Em que termos você diz que o filme é moralista?
- Não. Não é bem moralista. É que tem o narrador e a história é contada por ele e...
Que beleza! Ouço, então, alguém afirmar que tudo é problema exclusivamente do Estado. Pergunto:
- E o que você me diz diante do fato de que o Estado não dá conta e nem dará conta dessa situação?
Esse me deixou falando sozinho. Ainda olhando pra mim, pegou um gancho numa conversa paralela, atrapalhou a conversa dos outros, diga-se, e não mais mencionou o Estado.
Quase todos foram embora sem se despedir de mim. Mas são bem educados, despediram-se entre si. Como sou um cineasta anônimo, não tenho certeza se sabiam que pertenço à turma da vidraça. Também não sei seus nomes, de onde vêm e pra onde vão. Melhor assim.
Esse encontro me levou a uma reflexão sobre o papel da Crítica. Ficara patente que uma parte dos meus companheiros de rodinha não tinha preparo intelectual para discutir a situação social do Rio de Janeiro. Sabiam o que dizer sobre o filme, mas não sabiam o que dizer sobre o assunto do filme. Esta observação me levou ao seguinte raciocínio: Quais são as questões fundamentais? Não são a existência, o eu, o outro, a sociedade, a política, o amor etc.? Não é disso que se trata? Não é isso o que interessa? Não é disso que tratam os filmes? Concluo: O bom crítico é aquele que tem o que dizer sobre a vida. Aquele que usa os filmes apenas como um delicioso pretexto. Assim como, o bom cineasta é aquele que sabe que os filmes são apenas deliciosos pretextos para refletir sobre a vida. Há que se ter grandeza!

Quinta-feira, 20 de Setembro de 2007

Uma baita filme de ação ou Parem de fumar maconha, maconheiros

Por Flu

Baita filme de ação (já falaria o gaúcho farroupilha). Uma ação que se passa perto de nossas casas.
Não é cheio de firulas high tech como os gringos, mas prende a atenção o tempo inteiro da projeção. Tanto que achei curto. E o filme tem quase 2 horas. Isso é bom!
Digamos que já é o filme do ano. Mesmo se não for bem de bilheteria, já tem lugar marcado como um fenômeno de tititi.
Pirataria, processos, matérias de jornais. Mostra o poder de fogo que um filme de ação brasileiro pode ter.
A história é basicamente a procura de um substituto para a vaga de comandante do BOPE (uma polícia que trabalha com estratégia de ataque, tipo SWAT americana). Em off, o comandante em exercício (Wagner Moura), conta a árdua tarefa de colocar alguém tão competente no seu lugar. E dá pra ver que não é fácil o treinamento pra essa posição. O cara tem se fuder muito, ser humilhado, comer merda pra conseguir a vaga. Imagino que tenha um bom salário, pois é proibido ser corrupto. Digo isso, pois eles são os bonzinhos do filme. Os do mal são os traficantes e policiais.
E os bonzinhos do filme também torturam por informações e podem ser bem brutos com quem eles não gostam.
Uma coisa que pensei é que seria mais legal se treinassem todos os policiais pra serem do BOPE, e acabassem com os fanfarrões de delegacia (o otimista). Até no filme, o comandante fala que os corruptos em treinamento para o BOPE , são os primeiros a desistir. São fracos.
Outra coisa que pensei: e se todos os consumidores de drogas do morro ficassem uns 2 meses sem comprar nada. Será que não quebraria as bocas de fumo? Divagações...
Uma cena que gostei foi quando um "aspira" do BOPE enche um playboy de porrada. O cara tava numa manifestação por menos violência e tal. Com fotos do amigo morto por traficantes. Só que na real, ele e a grande maioria dessa pessoas que reclamam, fazem parte da engrenagem da violência. Se for omisso ou consumidor, tá dando corda pra tudo continuar maravilhoso como está.
Dá pra ver que é um filme de ação com mais conteúdo que os gringos. Eu pelo menos fiquei pensando no filme bastante.
Não que seja uma revolução no cinema brasileiro. Mas é um filme sincero e sem papas na língua. Fala de um assunto muito presente no nosso dia-a-dia. Bateu! E isso pra mim é bom!

"Tropa de elite": primeiras impressões

Pirataria, não! Esperamos pacientemente, como cidadãos tementes a Deus, a Lei e, principalmente, a Marcos Prado, a primeira sessão para a imprensa de "Tropa de elite" para ver o filme. Flu, O Otimista, teve sua fé na Humanidade renovada depois de assistir ao longa-metragem; já o cineasta Gustavo Acioli conheceu de perto o selvagem mundo da crítica.

Quarta-feira, 19 de Setembro de 2007

Vamos às apresentações:

a partir de amanhã a gente começa a cobertura online do Festival do Rio 2007 para a Zé Pereira. Não será uma cobertura profundamente crítica porque a Contracampo e a Cinética já fazem isso muito bem. O que a gente quer é dar os nossos palpites - todo mundo aqui gosta um bocado de cinema e tembém de conversar sobre o assunto - e tentar dar conta do que a grande imprensa não dá - não por interesses escusos, não sejamos levianos, mas por falta de espaço mesmo. Além de nossas digressões, vamos publicar aqui também entrevistas e reportagens sobre o evento. Nossa equipe está aí embaixo, mas convidamos os leitores para participarem de nossa cobertura, mandando textos, ensaios, pitacos, críticas, sugestões e o escambau para online@revistazepereira.com.br. Bem-vindos.

Eduardo Souza Lima: editor da Zé Pereira, cineasta diletante e ex-crítico de cinema — largou a profissão quando descobriu que teria que levar M. Night Shyamalan a sério —, cobre o Festival do Rio desde que era uma mostra patrocinada por um banco que foi à falência. Promete não dizer que "Tropa de elite" é "Cidade de Deus 2", mas confessa, sem saco plástico na cara, que "Tropa de elite 3" mudou sua vida.

Anna Azevedo: editora da Zé Pereira, jornalista e documentarista premiada nos festivais de Berlim, Brasília e Recife.

Estevão Garcia: cineasta, crítico e pesquisador de cinema. Formado em Cinema pela Universidade Federal Fluminense, diretor dos curtas "O latido do cachorro altera o percurso das nuvens" e "Que cavação é essa?". Descobriu o cinema quando fez uma viagem a Cataguazes, interior de Minas, observou o fluxo, os fluídos e a sutileza de uma pequena cachoeira e pensou "não é que Humberto Mauro estava certo?".

Alexandre Sivolella Barreiro: é pseudo-intelectual, tricolor e não trabalha por diletantismo. Aspira ser diretor e produtor de cinema no Brasil, embora tenha receio de acordar no meio de um pesadelo. Sua maior conquista até hoje foi o campeonato de futebol de salão do Colégio Zaccaria com a camisa do Bangu em 1984.

Arnaldo Branco: Jean Luc Reichenbach de Von Sternberg Arnaldo Branco-Bresson teve que adotar como nome artístico simplesmente Arnaldo Branco por questões de humildade e também processuais. Cartunista de formação, se sente desobrigado a repetir os cacoetes da crítica viciada, como escrever “derivativo” ou ter que efetivamente assistir aos filmes. Mediante pagamento, fará uma cobertura isenta do Festival, pelo menos das festas.

Flu: colorado, 42 anos de gauchismo e 3 anos de carioquismo. Ex-atual baixista do DeFalla, compositor de trilhas sonoras. Acreditava que a música traria fama e dinheiro... Agora acredita que o jornalismo vai trazer fama e fortuna! É um otimista por natureza!

Gustavo Acioli: cineasta e bacharel em Cinema.