Por Gustavo AcioliOntem, realizei minha primeira missão para a revista Zé Pereira. Compareci à sessão para a imprensa do filme Tropa de Elite.
Terminada a projeção, ainda atordoado pelo filme e meio zonzo com o frenesi dos jornalistas que cercavam o Caio Junqueira, vejo-me, sem perceber, participando de uma rodinha de críticos. Rodinha grande. Eram bem uns oito deles. Nunca havia estado em contato com tantos de uma só vez. Foi divertido. Quase equivalente a uma visita ao zoológico.
Primeiro, resolvi apenas observar. Constatei o óbvio: críticos criticam. Alguns saem da sala procurando pedras pelo chão. Outros já as trazem nas mochilas. Digerir o filme? Refletir? Esperar os ânimos se acalmarem, a poeira baixar? Que nada. O que vale é ser o mais rápido no gatilho. Fez um filme? Perdeu, irmão. Vai levar pedrada. Todos, absolutamente todos, sabiam alguma coisa a mais do que o diretor, os atores, o fotógrafo e os roteiristas. Era um tal de não gostei disso, não gostei daquilo, o filme é isso, o filme não é aquilo. Saiu mais tiro que na cena do baile funk. E sempre com grande criatividade. Cada um escolhia um alvo só seu. Tudo muito bem coordenado. Quase teatral.
Conversa vai, conversa vem, começaram a discutir sobre as questões levantadas pelo filme. Era a minha hora. Resolvi partir pro ataque. Acabei de ficar quatro dias em casa vendo judô das nove da manhã até a meia-noite. Comigo, agora, é no ippon, malandro. Escolhi o mais magrinho. Covardia. Mas foi o que vacilou primeiro.
- É reducionista você simplesmente classificar o capitão como um psicopata.
- É... Eu sei... Não é bem isso... Mas...
Ippon, né? Aposto que não sabe nem a definição de psicopata.
Logo aproveito a deixa de um outro:
- Em que termos você diz que o filme é moralista?
- Não. Não é bem moralista. É que tem o narrador e a história é contada por ele e...
Que beleza! Ouço, então, alguém afirmar que tudo é problema exclusivamente do Estado. Pergunto:
- E o que você me diz diante do fato de que o Estado não dá conta e nem dará conta dessa situação?
Esse me deixou falando sozinho. Ainda olhando pra mim, pegou um gancho numa conversa paralela, atrapalhou a conversa dos outros, diga-se, e não mais mencionou o Estado.
Quase todos foram embora sem se despedir de mim. Mas são bem educados, despediram-se entre si. Como sou um cineasta anônimo, não tenho certeza se sabiam que pertenço à turma da vidraça. Também não sei seus nomes, de onde vêm e pra onde vão. Melhor assim.
Esse encontro me levou a uma reflexão sobre o papel da Crítica. Ficara patente que uma parte dos meus companheiros de rodinha não tinha preparo intelectual para discutir a situação social do Rio de Janeiro. Sabiam o que dizer sobre o filme, mas não sabiam o que dizer sobre o assunto do filme. Esta observação me levou ao seguinte raciocínio: Quais são as questões fundamentais? Não são a existência, o eu, o outro, a sociedade, a política, o amor etc.? Não é disso que se trata? Não é isso o que interessa? Não é disso que tratam os filmes? Concluo: O bom crítico é aquele que tem o que dizer sobre a vida. Aquele que usa os filmes apenas como um delicioso pretexto. Assim como, o bom cineasta é aquele que sabe que os filmes são apenas deliciosos pretextos para refletir sobre a vida. Há que se ter grandeza!