Festival do Rio 2007 | Revista Zé Pereira
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Festival do Rio 2007

Terça-feira, 2 de Outubro de 2007

Stanley Nelson e o Cinema Black Power


Por Estevão Garcia

A retrospectiva Stanley Nelson do Festival do Rio é composta por 5 dos 9 títulos do diretor, que em sua maioria foram produzidos para a televisão. Sócio com a sua co-roteirista Marcia Smith da empresa sem fins lucrativos Firelight Media, Nelson desde 1998 dedica-se a dirigir documentários onde os seres mais marginalizados pela sociedade norte-americana se convertem em protagonistas. Assim em "O assasinato de Emmett Till" (2003) o diretor traz à tona o brutal espancamento de um adolescente negro de 14 anos, morto por ter assobiado para uma mulher branca em 1955. Tal acontecimento teve na época repercursão mundial e até foi tema de uma poesia de Vinicius de Moraes. No entanto, com o passar dos anos e com a absolvisão dos criminosos, o incidente foi esquecido pela grande mídia. O filme de Nelson não só serviu para lembrar a sociedade americana do crime que tinha deixado impune há mais de 50 anos, como também por motivar a reabertura do processo.

Nelson não esconde o orgulho por ter conseguido, através de seu filme, um efeito concreto na vida real. Seu cinema, por ter esse objetivo definido e entre outros fatores por se preocupar em ter uma linguagem clara, didática e transparente, pode ser tranquilamente classificado de militante. Nelson faz um cinema militante em prol da causa negra e para o público habitual de um festival de cinema o termo "cinema militante" é muitas vezes compreendido como um palavrão. Os cinéfilos em sua grande maioria privilegiam o cinema como expressão, como construção formal/estética e justamente por isso rechaçam qualquer cinema que aparentemente os colocariam em segundo plano.

Primeiramente, posicionar a estética em um degrau abaixo do conteúdo que se pretende transmitir não quer dizer que ela seja considerada inferior e sim que ela é apreendida não como a razão da obra mas como o seu meio. A mensagem política é, no cinema militante, o principal. A forma seria então o veículo, o instrumento para a sua propagação. Uma forma expressiva mal trabalhada ou desleixada seria ,portanto, fatal para a veiculação da mensagem. Afirmar que o cinema militante por excelência rechaça a construção artística em exclusivo bebefício do conteúdo é um equívoco. Existem nele sim, objetivos diferentes e um filme a principio deve ser analisado pelo o que se propõe a ser. Não é oportuno considerar negativos aspectos próprios desse tipo de cinema, como o seu caréter informativo e direto. Eles são a chave para a concretização do dialógo entre a obra e uma figura central: o espectador.

O espectador é aqui um agente privilegiado. Como em todo cinema militante, os filmes de Stanley Nelson possuem um espectador-alvo. Diferentemente do cinema clássico hollywoodiano caracterizado por almejar uma homogenização do público, desejando abranger todas as idades, classes sociais e raças, o cinema militante procura atingir um grupo específico. Apresentar um público-alvo não quer dizer que outros tipos de espectadores serão rejeitados e sim que o filme em primeiro lugar busca interagir com um receptor bem delimitado cuja meta é sua conscientização e mobilização. No caso dos filmes de Nelson, o primeiro público que se quer alcançar é a comunidade negra. Mais do que mostrar aos brancos a força e a incansável trajetória de lutas dos negros nos EUA, seus documentários pretendem convidar os afro-americanos a iniciar uma viagem ao redor de sua própria História.

História é aqui uma palavra importante. A filmografia do diretor prima por uma cuidadosa e longa pesquisa tanto em relação ao manuseio de fontes primárias como documentos históricos e jornais de época quanto a utilização de preciosas imagens de arquivo. Assim desde um detalhado painel da imprensa negra norte-americana, todo ele fundamentado a partir de vasta documentação ("A Imprensa negra americana: um combate sem tréguas, 1998) à reconstrução de um conhecido suicidío em massa ("Jonestown: vida e morte no templo do povo", 2007), Stanley Nelson demonstra rigor histórico, faro investigativo e persistência na procura de evidências concretas. Seu cinema não opera juízos de valor na direção de destacar a potência de uma raça em detrimento de outras. A principal preocupação de Nelson recai no projeto de se construir uma sociedade onde exista igualdade de direitos. A força e o poder da cultura negra segundo o realizador, reside extamente aí, não em uma suposta "superioridade" que os termos poderiam sugerir, mas em sua capacidade de se rebelar, nadar contra a corrente, vencer as barreiras e de lutar pela conquista de seus direitos em uma sociedade que sempre a desprezou.