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Festival do Rio 2007

Terça-feira, 2 de Outubro de 2007

Sobre a Sessão Curtas Retratos da Prémiere Brasil


Por Estevão Garcia

Transferir a imagem de um personagem da vida real com todas as suas peculiaridades: expressões faciais/corporais, tons de fala e empostações, postura, gestos e articulações, para o cinema não é assim uma tarefa tão fácil como parece. A razão da complexidade dessa operação aparentemente simples é justamente que ela não se resume em ser apenas uma transferência. Não basta escolher um personagem carismático, que fale bem, ligar a câmera e captar a sua imagem. Compor o retrato de uma pessoa real através do cinema pressupõe a absorção do próprio conceito de "retrato", ou seja, algo como uma moldura, um quadro delimitado, um recorte. Escolher o recorte para a composição de um personagem é o primeiro desafio que caberá ao cineasta enfrentar.

A escolha do personagem a ser filmado já se baseia em uma série de motivos, agora o passo seguinte é o de selecionar quais deles deverão ocupar um maior relevo e quais assumirão papéis secundários. "Maria Lenk" (Dir: Sônia Nercessiam, 2006) por exemplo, ao prestar homenagem a histórica nadadora de 90 anos, escolheu associá-la exclusivamente à sua profissão. Não vemos em nenhum momento Maria Lenk fora do ambiente de um clube de natação. As suas falas lentas e pausadas são entremeadas com imagens de Lenk nadando. Não houve aqui um uso criativo de personagem/ambiente e sim apenas uma solução fácil e montagem paralela alternando falas e braçadas. Ora Maria Lenk fala, ora Maria Lenk nada. Essa construção simplista confere ao curta somente sua qualidade como registro. O mérito do filme é o de registrar, documentar Maria Lenk antes de sua morte. O curta embalsamou Maria Lenk, a transformou em fotogramas para a eternidade. Fora esse feito, "Maria Lenk" é nulo como cinema.

"Elke" (Dir: Julia Resende, 2007) optou por se aproximar da retratada não em eu local de trabalho, mas no lugar onde ela se sente mais à vontade: a sua casa. Aqui não se proura sublinhar a atividade profissional do personagem como em "Maria Lenk", e sim ressaltar as suas idiossincrasias. A fala de Elke também apresenta um papel importante, porém aqui o filme soube melhor modular a sua cadência com o ritmo da montagem. Ouve-se não só as declarações da protagonista como também a de mais um entrevistado, no caso, o seu marido. Além de Elke se auto-explicar, se autodefinir, o filme cedeu espaço á uma outra voz que também terá a função de definir e resumir as principais marcas do personagem. No entanto, a câmera de Julia Resende é um tanto distanciada e cerimoniosa ao temer entrar nos poros de Elke. As cores de seu apartamento, assim como os seus objetos, poderiam ser melhor trabalhados e pensados com a finalidade de não só reproduzirem a explosão estética transbordante do personagem, como também expandi-la para a forma do filme. "Elke", o filme, e Elke, personagem seriam então uma coisa só.

"O Homem-Livro" (Dir: Anna Azevedo, 2006) organiza a interação com o seu personagem a princípio não por sua profissão ou por sua personalidade extravagante fora do comum como "Elke", mas pela valorização de sua obra. E a obra, no caso, é uma biblioteca popular criada com muito esforço e recursos financeiros próprios. Ao longo da projeção, descobrimos por trás da obra, o homem que a planejou. E esse homem carismático, engraçado e falante chamado Evando dos Santos acaba por se tornar tão interessante e tão valorizado quanto a sua realização. Através de seu depoimento entrelaçado, agora sim, com uma elaboração criativa da relação personagem/espaço sublinha-se a importância dos livros e da busca pelo conhecimento. Os enquadramentos enfatizam o espaço ocupado pelos livros na casa de Evando. A montagem não cria um sentido de oposição: Evando contra e sufocado com as pilhas de livros e, sim, uma idéia de soma: Evando + os livros. Ao mesmo tempo em que os livros invadem a casa do personagem empurrando-o para um cantinho, o seu impulso não é opressor e, sim, libertador. A relação íntima de Evando com a disposição dos livros em sua residência se evidencia quando ele olha para a câmera e acusa alguém da equipe de ter tirado um livro de lugar. No meio daquela bagunça, daquela não catalogação, ele era capaz de localizar e de identificar qualquer peça.

Os dois últimos filmes que compõem a sessão Curta Retratos da Prémiere Brasil são "Quanto mais Manga melhor" (Dir: Michelle Lavalle, 2006) e "Lêda de arte Leda" (Dir: Daniela Gontijo, 2006). O primeiro faz saltar os olhos por seu desleixo técnico. A fotografia é feita de qualquer maneira, a montagem é burocrática e o seu andamento torna-se irregular. Os depoimentos de Carlos Manga são sentidos como o ponto central do filme e nada além dele flui por si só. O segundo apresenta um dado novo nesse conjunto de curtas. É o único em que o realizador é familiar do retratado. A diretora é neta de Lêda e esse laço transparece ao longo de todo o filme. Há aqui um outro afeto entre filme/personagem e se esse dado não o faz melhor do que os demais, sem dúvida, o faz ser diferente. Dona Lêda é uma figura e cativa de imediata a simpatia do espectador. Os melhores momentos do filme são quando ela está presente. As cenas de depoimentos dos amigos e familiares não são substanciais a ponto de ocuparem tanto tempo dentro do filme. No caso de Lêda, sua presença já seria mais do que suficiente.