Festival do Rio 2007 | Revista Zé Pereira
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Festival do Rio 2007

Segunda-feira, 1 de Outubro de 2007

O Cinema no Poder

Por Estevão Garcia

Ontem fui ver "Argentina Latente", terceiro documentário de uma série de cinco que o cineasta Fernando Solanas está fazendo sobre a Argentina contemporânea. Os dois primeiros foram "Memória do saqueio"(2004) e "A Dignidade dos ninguéns" (2005), ambos exibidos em edições anteriores do Festival do Rio.
Solanas estava presente para apresentar a sessão e agora em outubro de 2007 ele não é só um cineasta político engajado remanescente da geração dos anos 60, fundador do grupo Cine Liberación , autor do manifesto Hacia un tercer cine, Apuntes y experiencias para el desarrollo de un cine de liberación en el Tercer Mundo , diretor do clássico "La Hora de los Hornos" e um dos principais nomes do chamado Nuevo Cine Latinoamericano, mas também candidato a presidência da Argentina.

Discordando ou não do passado político e cinematográfico do diretor não deixa de ser curioso ver a sua trajetória se completar com essa campanha para presidente. Seria mais ou menos equivalente se Glauber tivesse vivo e se candidatasse em 2010 ou se Jorge Sanjinés tivesse se candidatado no lugar de Evo Morales. A aproximação dos cineastas políticos latino-americanos com o poder estava até o presente momento restrito aos cargos oficiais assumidos por Julio García Espinosa ao longo do governo de Fidel Castro.

Se Solanas conseguir morar os próximos anos na Casa Rosada, ele não será apenas o primeiro cineasta político latino-americano dos anos 60 a alcançar o poder mas também o primeiro cineasta a se tornar presidente da república. Certo ator dedo-duro hollywoodiano já conseguiu realizar tal feito (Ronald Reagan) e certo halterofilista bombado já assumuiu o governo da Califórnia e está caminhando para fazer o mesmo(Arnoldão, o Exterminador). Se ator pode, porque cineasta não?

E se agora virou moda registrar bastidores de campanhas eleitorais, vide "Entreatos" (Dir: João Moreira Sales, Brasil, 2004) e "Cocalero" (Dir: Alejandro Landes, Argentina, Bolívia, 2006) que filmaram as campanhas de Lula e Evo Morales respectivamente, agora Solanas fará um filme da própria campanha. Será uma espécie de autobiografia eleitoral, um diário pessoal de campanha, mais um novo gênero cinematográfico que estará surgindo?
vamos aguardar.