I'm not there - Tô nem aííííí
Por Arnaldo Branco
Dias D da música popular como o do encontro de Lennon e McCartney em uma quermesse, o do concerto desastroso dos Stones em Altamont ou o da entrevista dos Sex Pistols no programa de Bill Grundy são marcos na Linha do Tempo particular do fã de rock, episódios que têm mais importância que o Concílio de Trento ou a Tomada da Bastilha para o nerd heavy user de cultura pop. Se eles podem render bem cinematograficamente é Outra História.
Esse "I'm not there" reproduz a vida de Bob Dylan em mitos (sempre confundiu a imprensa com suas mentiras) e acontecimentos (imagens captadas em vídeo reencenadas trejeito a trejeito, embora algumas com a ambientação trocada). Para isso usa vários atores (e uma atriz, Cate Blanchett) representando Dylans de várias fases de sua carreira (o iniciante de música folk, o anfetaminado convertido ao rock, o trintão fazendo discos sobre divórcio), todos com heteronômio para deixar mais clara a distinção.
Os eventos marcantes de sua trajetória são filmados com solenidade, e mesmo sofismas e platitudes de um artista eternamente sem saco para entrevistas, discussões sobre sua "mensagem" e fãs seriais são tratados com reverência que só fazem sentido para iniciados em Rockologia com a disposição de um cultuador de Star Trek. Não ajuda muito que a narração não seja linear e o todo tenha uma cara de colagem experimental, embora com a fotografia lavada de uma grande produção. Cada fotograma parece ser a pose para uma capa de disco e uma brincadeira de "onde está wally" referencial.
O diretor Todd Haynes evidentemente acredita na mitologia do rock e acha que a tour por esse armazém de memorabília tem interesse para mais alguém que não Dylanmaníacos - ou, pelo contrário, conta só com eles para fechar o borderô. Haynes também terá que responder diante dos Portões Perolados por "Velvet Goldmine", outra cinebio rock'n'roll de mentirinha sobre o período glam (início da década de 70), em que advoga a tese de que a música da época era tão poderosa que as letras com insinuações andróginas podiam levar você efetivamente a dar a bunda.
Perdeu, Haynes: esse clip recente com o remix de Mark Ronson para "Most likely you will go your way (and I´ll go mine)" parte da mesma premissa e chega mais longe - com uma economia de 130 minutos. Não perca a oportunidade.











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