Festival do Rio 2007 | Revista Zé Pereira
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Festival do Rio 2007

Sexta-feira, 12 de Outubro de 2007

Corneano

(Na estrada com o amante da minha mulher; Dir. Kim Tai-Sik; Coréia do Sul; 2006)

Por Alexandre Sivolella Barreiro


Muito se fala do cinema indiano, que ocupa 95% das milhares de salas na Índia, mas quase nunca se menciona que existem outros exemplos menos radicais, mas não menos importantes. Em lugares como Japão, China e Coréia do Sul os filmes nacionais ocupam algo em torno de 60% das salas de cinema.

A produção recente desse país dividido que chega até nossas salas de cinema geralmente se resume a alguns nomes de grande impacto: Park Chan-Wook, Kim-Ki-Duk e por aí vai. Este Kim Tai-Sik é um cineasta ainda desconhecido e “Na estrada com o amante da minha mulher” é justamente seu filme de estréia em longas-metragens.

A idéia é razoavelmente simples: um sujeito descobre que sua mulher o trai com um motorista de táxi meio malandrão e decide viajar com o Don Juan das quatro rodas de uma cidade a outra para testar a sua reação diante do sujeito. Acabam por viver algumas aventuras, chegam a viver cenas surreais como as das melancias que rolam pela rodovia e ainda dividem algumas cenas numa cachoeira que beiram o homoerotismo.

É num porre que o corneano (corno+coreano) decide revelar sua verdade e desata o nó que apertava a garganta. Pega a mulher em flagrante e faz a sua vingança meio torta. “Na estrada...” chega a ser interessante em alguns momentos e até cativa pelo estilo, mas tangencia o fetichismo pela estranheza e não chega a lugar algum. Justamente como muitos cornos, que não têm a coragem de explodir e buscam subterfúgios para dar uma de avestruz e fingir que nada acontece.

As kalangas preparadas

(Histórias de Luanda: Oxalá, cresçam as pitangas!; Dir. Ondjaki e Kiluanje Liberdade; Angola; 2006)

Por Alexandre Sivolella Barreiro


Uma cidade de 4 milhões de habitantes com uma infra-estrutura precária mesmo para os 400 mil originalmente previstos. Um país com 30 anos de independência e 27 de guerra civil. Realmente muita história para contar. O problema é o olhar de seus diretores. Ondjaki e Kiluanje são dois angolanos no amadurecer dos 30 anos, um escritor com projetos audiovisuais e o outro um produtor cultural que já realizou um documentário premiado em Portugal sobre o rap angolano.

A Luanda que passamos a conhecer, ou pelo menos a sua face mais popular, através dos dois sujeitos quase mimetiza os guetos americanos, com seus sujeitos vestidos com roupas largas e cultuando o basquete e suas “bitches” (ou cachorras), no caso, “kalangas” exalando erotismo. A música reinante, não por acaso, é o próprio rap. Não fosse a influência da cultura lusitana, que nos torna próximos não somente pela linguagem, mas principalmente pelo jeito de encarar as dificuldades da vida, os amigos, a relação colônia-metrópole, ainda que adaptada à realidade da geopolítica atual.

“Oxalá, cresçam as pitangas” acaba nos ensinando mais sobre a força da cultura negra americana do que a resistência cultural angolana, que se dilui nos fluxos globalizantes.

Sábado, 6 de Outubro de 2007

Top 5 por dinheiro

Por Arnaldo Branco

Assisti a poucos filmes, e os que mais gostei (Death Proof, Tarantino, e Before the Devil knows you're dead, Sidney Lumet) na verdade não vi. Então vou fazer uma lista de 5 melhores coisas relativas ou vagamente relacionadas ao Festival. Taí:

1 - Melhor comentário babaca: "Quem assistiu Tropa de Elite pirata é um canalha", José Wilker - Palmatória do Mundo de Ouro para o cara. Xingou todos os brasileiros, incluindo o Ministro da Cultura e o Governador do Estado do Rio, que costumam dar emprego pra ele, muito corajoso o Wilker.

2 - Melhor maquiagem: Deus, pela transformação da Marianne Faithfull ("Irina Palm") em uma bruaca horrosa , tarefa que parecia impossível. God Did it again.

3 - Melhor sessão vazia: JC Chávez, com cinco espectadores - sendo um deles uma senhora que parecia perdida e minutos antes do filme começar perguntou "esse não é sobre o Hugo Chávez?"

4 - Melhor trilha sonora: "I'm not there", pena que os atores mal-educados do filme falavam alto durante a execução dos clássicos do Dylan.

5 - Melhor cinéfilo: é o cinéfilo morto.

Quem cala, consente


Por Anna Azevedo

O Festival do Rio poderia ter encerrado sem essa: a lamentável subida ao palco do Odeon do dublê de ator e Presidente da Riofilme, senhor José Wilker.
Minutos antes, José de Abreu assumira o mesmo púlpito para, com graça, anunciar que os bravos soldados rubro-negros haviam barrado o avanço das tropas sãopaulinas. Placar final: Flamengo 1 x 0 São Paulo. O Odeon foi ao delírio. Pura peraltice carioca. A cara do delicioso Festival do Rio.
Mas toda a magia da catarse carioca deu lugar ao espanto ao tomar o microfone o Presidente da Riofilme.
Como todos sabem, o Prefeito do Rio de Janeiro não cumpriu a promessa de patrocinar o maior festival de cinema da América Latina. Em cima da hora, depois de
a logomarca cor de abóbora madura do município estar impressa no material de divulgação do evento, diz o dirigente ser inconstitucional o patrocínio. Justifica, ele: um dos membros da diretoria do festival integra, agora, a cúpula do Governo do Estado. No caso, a secretária de Cultura, sra. Adriana Rattes.
Imerso neste quadro de disparate político, o Presidente da Riofilme sobe ao palco para, com palavras enigmáticas, sem citar nem o santo nem o milagre, pedir "perdão" e emendar, com frases curtas e pausas dramáticas, coisas do tipo o cargo que agora exerce o obriga a se calar (leia-se diante do milagre acima relatado). Que não concorda, mas que é assim. E que o calar-se é uma forma de deixar claro que ele não está de acordo com a postura do Prefeito César Maia. "Me calo" – encerrou, lacônico, profético, apocalíptico. Atuando, como convém a um ator. No papel de: o taciturno presidente da Riofilme.
Bem, o senhor José Wilker é, de longe, o mais controverso presidente que a Riofilme já teve. Ou melhor: como o trabalho dele pouco aparece, não dá nem para criticar as suas ações. Ele é controverso mais por ESTAR no cargo do que por SER o dirigente.
Não entra na cabeça de ninguém que ser ator principal de novela das oito é compatível com cargo de responsabilidade e que exige dedicação como o de Presidente de uma Fundação Pública responsável por um dos negócios mais complexos da cadeia cultural: o cinema.
Seguindo a linha de raciocínio do Prefeito em relação ao Festival do Rio, a Municipalidade não deveria anunciar na TV Globo porque o Presidente da Riofilme é funcionário da emissora. Olho por olho, dente por dente.
Senhor José Wilker: quem cala, consente. E disto nós, brasileiros, de passado recente de repressão política, sabemos de cor. Muitos, o sabem na pele e na alma. Bastava o senhor ter visto, se é que não viu, Memória para uso diário, de Beth Formaggini, melhor documentário do Festival do Rio 2007.
Que Secretário é esse que tem as suas convicções pisoteadas pelo Prefeito (que não está nem aí para a Riofilme, mesmo) e, ainda assim, se mantém no cargo?
A quebra do compromisso de patrocínio é grave. O problema não foi falta de dinheiro. Foi malcriação política. Faz-se política aqui no Rio como criança emburrada que faz beicinho: "Você é feio!". "E você é bobo!".
Porque cargas d'água o senhor José Wilker, um ator classe AA, amado pelo público e sem aparentes problemas financeiros, com certamente mais do que fazer do que não ser ouvido pelo Prefeito, ao ponto de, pateticamente, subir no palco do Odeon para pedir "perdão", continua como Presidente da Riofilme, uma fundação praticamente sem verba, sem força política, esvaziada, a míngua? O que é lamentável. Basta lembrar que a retomada da produção nacional deve-se muito à existência da Riofilme, que segurou as pontas do Brasil inteiro com o fim da Embrafilme.
Mas pior, muito pior do que o senhor José Wilker declarar em tom solene que quem cala não está, necessariamente, consentindo, foi a platéia do Odeon que aplaudiu o silêncio do Presidente-ator.
Como uma classe cinematográfica insatisfeita com os rumos da Riofilme, como a classe cinematográfica do Rio de Janeiro, estado e cidade sem um edital sequer de apoio à produção (os da Riofilme são de quando em quando, e só de curta), aplaude a (não) palavra do senhor José Wilker? Aplaudiria, eu, se ele tivesse pedido exoneração diante de mais esta arbitrariedade do Prefeito em relação à Riofilme – só para não sair das Casas Casadas.
Como aquela platéia, teoricamente educada politicamente – inclusive os documentários vencedores são sobre política - louva estas desastrosas declaração e atuação do senhor José Wilker a frente da Riofilme? Por que hoje em dia ninguém mais vaia nada nem ninguém?
Por que quem se manifesta desta forma é chamado de sem educação?
Por que a vaia deixou de ser uma atitude de protesto para virar uma ação que a classe média tradicionalmente em cima do muro reage meneando a cabeça, oh, mas que horror?
Caro Presidente da Riofilme, já que não concorda com o Prefeito que não dá a mínima para as suas convicções, o que o senhor ainda faz na fundação municipal de apoio ao cinema? Ou será que convicção é motivo pequeno demais para pedir afastamento do cargo?
Eu esperei para que a platéia do Odeon respondesse: "Pede exoneração!".
Mas as pessoas ouviram o Presidente da Riofilme dizer que quem cala, não consente (reinventando o óbvio, ou seja: calar é consentir, omitir-se, sim!) e ninguém reagiu. O Presidente da Riofilme tem seus salários pagos por nós, contribuintes. E teoricamente está ali para zelar pela cultura cinematográfica da cidade. Se suas idéias não são ouvidas, bem, de que adianta estar lá com tanta novela das oito a ser gravada?
Eu, sentada ali no gargarejo direito, ainda comentei comigo mesma, numa reação espontânea ao que ouvira: "ué, pede exoneração, então". Ao meu lado estava Christiane Torloni e apenas ela deve ter ouvido. Mas minha voz, infelizmente, é baixa demais, e ela era a mesma atriz que, meses atrás, foi ao programa do Jô Soares clamar pela volta aos currículos escolares da Organização Social e Política Brasileira, o velho e nada-bom OSPB. A matéria, defendeu Torloni, nos ensinava noções de cidadania. Faz falta. Hoje, não sabemos mais o que é ser cidadão, arrematou.
OSPB, para os que não pegaram este tempo, foi uma cadeira implantada pelo Governo Militar para re-educar o brasileiro sob nova direção.
Realmente, Christiane, você tem razão: se tivéssemos em mãos o domínio do ser cidadão o senhor José Wilker receberia uma resposta pronta à sua lógica do quem cala, não consente. E não poderia exercer jornada dupla com horários convergentes, como acontece ao ser ator e Presidente da Riofilme.
Um cargo municipal é um cargo político, queiram ou não. Política se faz com convicções (pelo menos quando o Verbo era Verbo). E políticos que calam diante de descalabros de superiores repetem a postura dos militares que obedecem a ordens como as de torturar sem esboçar reação, desligando o juízo e o coração. Apenas cumpro ordens! É esta a lógica que o senhor José Wilker diz ser a lógica de seu cargo.
Eu gostaria de uma atitude mais corajosa de um Presidente da Riofilme.
A apatia daquela platéia do Odeon é preocupante. Ali estavam pessoas que, teoricamente, pensam o país nas telas.
E elas se calaram, tal qual o Presidente da Riofilme.

Sexta-feira, 5 de Outubro de 2007

Lista de Melhores

Por Flu

Vou dizer os que gostei (em ordem de preferência):
Tropa de elite, Os Mal-Criados, Rita Cadillac (por ser uma figura querida),
O banheiro do Papa, Nome Próprio (porque esperava um filme muito ruim),
Páprika, Ainda Orangotangos (por mostrar alternativas e por ser grande
amigo) e Controle, a história de Ian Curtis (por me mostrar momentos importantes da minha criação
musical).

The End


Por Flu

Acabou. Confesso que fiz algumas más escolhas. Fui muito atrás mais de resenhas dos filmes do que indicações ou nomes conhecidos. Entrava na sessão totalmente sem saber o que ia acontecer. Cheguei a pegar duas animações achando que eram filmes de ação. Por sinal o filme animação Paprika (Satoshi Kon, Japão, 2006) é bem interessante. Sobre uma máquina que lê e grava sonhos. Em certo momento sonho e realidade se confundem e fica tudo muito louco. Fora a geladeira que estava o cinema, foi um filme que surpreendeu. Cinema tem muito disso mesmo. Cada ser que está sentado naquela poltrona, olhando a tela, escutando o som, tem sensações diferentes. O frio que estava passando no cinema poderia ser agradável pra o sujeito do meu lado. A loucura que vi no filme pode ter sido caretice pra menina do outro lado da sala. O importante é mexer com a massa cinzenta que tá na nossa cachola. Temos que ter sensações boas ou ruins pra fazer parte da nossa história pessoal. Dali saem as opiniões. E esse festival vai ficar marcado pelas opiniões geradas pelo Tropa de Elite. Com certeza foi histórico. Vocês leram os e-mails que mandaram para o João Paulo Cuenca refutando a crítica dele ao filme? Nossa. Parece até que estamos prestes a um golpe militar. O povo que escreveu aqueles e-mails querem muito a execução de todos bandidos do planeta. E gostariam de assistir de camarote. Será que o José Padilha, diretor do filme, defende esse público que adorou o filme dele? Só a História mostrará...

Minha lista de melhores

Por Estevão Garcia

Perdi muita coisa que eu queria ver, mas dos filmes do Festival que eu vi, os que eu mais gostei foram:

- Síndromes e um Século (Dir: Apichatpong Weerasethakul, Tailândia, França, Áustria, 2007)
- Silenciosa Luz (Dir: Carlos Reygadas, México, França, Holanda, 2007)
- Sempre Bela (Dir: Manoel de Oliveira, Portugal, França, 2006)
- Terra Sonâmbula (Dir: Teresa Prata, Portugal, Moçambique, França, Alemanha, 2006)
- Eu Não Quero Dormir Sozinho (Dir: Tsai Ming-Liang, Taiwan, França, Áustria, 2006)
- Nascido e Criado (Dir: Pablo Trapero, Argentina, Itália, 2006)
- Floresta dos Lamentos (Dir: Naomi Kawase, Japão, França, 2007)
- I'm Not There (Dir: Todd Haynes, Estados Unidos, 2007)
- Caixas (Dir: Jane Birkin, França, 2007)

Os Números do Festival


Por Estevão Garcia

Estimativa de público do Festival: 300 mil espectadores aproximadamente

OS DEZ FILMES MAIS VISTOS:

1. Hairspray 2.306
2. A prova de morte 2.001
3. Piaf - um hino de amor 1.919
4. A Maldição da Flor Dourada 1.741
5. O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford 1.586
6. I'm not there 1.435
7. 4 meses, 3 semanas e 2 dias 1.412
8. Maré, nossa história de amor 1.359
9. Shortbus 1.275
10. Planeta terror 1.160

Prêmio Mico Leão Dourado


Por Estevão Garcia

Assim devia se chamar o prêmio Ação de Product Placement, o prêmio é tão constrangedor, tão pagador de mico, tão sorvete na testa que praticamente não aparece na imprensa. Mesmo sendo anunciado ontem no Odeon junto com os demais prêmios, hoje ele foi ignorado pela lista de premiações enviada para a imprensa. Será que os próprios criadores do prêmio, sabendo de seu despropósito, preferem não expor a sua existência?

Pra quem não sabe o prêmio Ação de Product Placement é conferido ao melhor merchandising cinematográfico. O filme que souber melhor inserir uma mercadoria em sua narrativa e em seu conceito visual leva o troféu. Só não foi explicado o que é compreendido como "melhor" inserção de produtos em um filme. O melhor merchandising no cinema seria aquele em que o produto "entra" no contexto apresentado pelo filme e que não é percebido/notado como tal? Melhor dizendo: o melhor merchandising seria aquele que esconde ou disfarça a sua função, ou seja, um merchandising culpado?
Ou o melhor seria o merchandising bem resolvido, aquele que faz análise uma vez por semana? Sem conflitos existenciais, sem culpa ou ressentimento o merchandising não enrustido mostra a sua cara sem vergonha e sem pudor.

É evidente que qualquer anunciante tem como prioridade a maior visibilidade de seu produto. Ele não está interessado em saber como o artista arquitetou colocá-lo em seu filme de modo que o seu caráter "artístico" não seja eclipsado pelo mercadológico. O anunciante está necessariamente focado no filme como mercadoria, como produto vendável gerador de lucros. O anunciante não coloca seus anuncios em qualquer filme. E não é por acaso que todos os concorrentes do prêmio Ação de Product Placement apresentavam alguma relação com a Globo Filmes.

o vencedor foi a atuação da Skol em "Ó paí, ó" (Dir: Monique Gardenberg, Brasil, 2007). Também concorreram a cidade de Porto Seguro através de "O Primo Basílio" (Dir: Daniel Filho, Brasil, 2007) e a Texaco por "Muito gelo e dois dedos dágua" (Dir: daniel Filho, 2007).

Mais Prêmios

Por Estevão Garcia

Outros prêmios foram dados pelo Festival, aqui estão eles:

Melhores curtas pelo Porta-Curtas:
Primeiro lugar- "Esconde-esconde" (Dir: Álvaro Furloni, Brasil, 2007)
Segundo lugar - "Sete minutos" (Dir: Cavi Borges, Júlio Pecly e Paulo Silva, Brasil, 2007)

Premiados da ABD&C; (Associação Brasileira de Documentaristas e Curta-metragistas do Rio de Janeiro:
Melhor documentário - "Memória para uso diário" (Dir: Beth Formaggini, Brasil, 2007)
Melhor curta - "Cabaceiras" (Dir: Ana Bárbara Ramos, Brasil, 2007)
Menção honrosa - "Alphaville 2007 D.C." (Dir: Paulinho Caruso, Brasil, 2007)

Prêmio Fipresci - Júri da Federação Internacional da Imprensa.
Júri composto por João Luiz Vieira e Marcelo Janot (Brasil), Rui Tendinha (Portugal), Chiara Arroyo (Espanha) e Claudio Cordero (Peru).
Melhor filme latino-americano - "Silenciosa Luz" (Dir: Carlos Reygadas, México, 2007)

Prêmio melhor filme da Mostra Geração, eleito pelo público:
"Valo" (Dir: Kaija Juurikkala, Finlândia, 2005)

Premiados do Festival do Rio


Babu Santana em "Maré, nossa história de amor"


Por Estevão Garcia

Acabei de chegar da cerimônia de premiação do Festival do Rio no Cine Odeon. Na cerimônia, apresentanda por Marília Gabriela e Milton Gonçalves, foram anunciados os seguintes prêmios:

Melhor curta-metragem
Júri Oficial: "Sete minutos" (Dir: Cavi Borges, Júlio Pecly e Paulo Silva, Bra, 2007)
Júri Popular: "A Maldita" (Dir: Tetê Mattos, Brasil, 2007)

Documentário
Melhor Diretor: Cão Guimarães - "Andarilho"
Melhor Documentário Júri Oficial: "Memória para uso diário" (Dir: Beth Formaggini, Brasil, 2007)
Melhor Documentário Júri Popular: "Condor" (Dir: Roberto Mader, Brasil, 2007)

Ficção
Melhor Atriz: Carla Ribas - "A Casa de Alice"
Melhor Ator: João Miguel - "Estomâgo"
Melhor Diretor: Marcos Jorge - "Estomâgo"
Melhor Filme Júri Oficial: "Mutum" (Dir: Sandra Kogut, Brasil, França, 2007)
Melhor Filme Júri Popular: "Estomâgo" (Dir: Marcos Jorge, Brasil, 2007)
Prêmio Especial do Júri: Babu Santana - "Estomâgo" e "Maré, nossa história de amor" (Dir: Lúcia Murat, Brasil, 2007)

Quinta-feira, 4 de Outubro de 2007

Cinco filmes

Por Eduardo Souza Lima

É claro que não deu pra ver tudo - perdi coisas importantes da Première Brasil, inclusive - mas segue aí uma listinha dos filmes que mais gostei:
"Síndromes e um século"
"Controle, a história de Ian Curtis"
"Juízo"
"O estado do mundo"
"Estômago"

O empate é um bom resultado

Por Arnaldo Branco

(O Acompanhante, Paul Schrader, Reino Unido/EUA, 2007)

Me identifico com o Lula. Ele é um presidente diletante, sou um crítico de cinema idem. Além do mais fazemos nosso trabalho ao mesmo tempo em que mandamos metáforas futebolísticas ridículas.

Em quase todas as - cof - resenhas que postei aqui usei alguma comparação com o esporte ou alguma expressão associada a ele para comentar os filmes. Esta não é uma exceção.

Sendo Paul Schrader um dos meus heróis, passei o tempo todo de projeção torcendo para que seu filme fosse bom, e terminei a sessão espiritualmente rouco de tanto emanar incentivos. Porque é um jogador consistente, não fez feio mas também não brilhou.

"O Acompanhante" do título é Woody Harrelson, um prognata natural que nesse filme parace ter feito como o Brando de "O Poderoso Chefão" e enchido de papel higiênico o maxilar inferior para realçar. Ele é o fofoqueiro oficial de um grupo de senhoras (entre elas Lauren Bacall, obrigada a ouvir em uma cena que testemunhou o crack da Bolsa de 29) casadas com o Poder na forma de vários tipos de maridos ausentes.

Um deles, um político liberal (Willem Dafoe, uma ceninha e meia de participação) é chifrado pela mulher (Kristin Scott Thomas) com um lobista que aparece morto. Woody, fiel camareiro, tenta protegê-la de uma investigação de fachada sem outro objetivo que não cobrir de lama o personagem de Dafoe. Para isso conta com a ajuda do namorado papparazzi - e só com ele, porque cai em desgraça com a roda de bridge de coroas que o ajudam a sustentar a fachada de sua eminência parda.

A despeito da inverossimilhança (o casal gay sozinho no mundo põe de joelhos caras superpoderosos que lidam com petrodólares), é sempre bom ouvir o diálogo inteligente de Schrader e sua direção do tipo "cut the crap". A câmera pode até passear, mas as coisas continuam acontecendo nem que seja em off, alívio nesses dias em que a síndrome de déficit de atenção de certos diretores ganha status de arte.

Não compromete.

Quarta-feira, 3 de Outubro de 2007

Gugu Dadá Maravilha


Por Arnaldo Branco

Instado a escrever mais pelo editor interino Estevão (o Zé José, qual um Jacques Custeau, saiu em missão exploradora para descobrir em que rincões ermos, quiçá abissais do Brasil também existe festival de cinema), mando um texto sobre um assunto batido e apenas vagamente relacionado ao Festival do Rio porque envolve produção cinematógrafica e comentários idiotas do José Wilker: a escolha de "O ano em que meus pais saíram de férias" para representar o Brasil no Oscar.

Não sei quanto às chances de "O ano...", embora Emir Kusturica tenha perdido em 1985 com um filme com o mesmo tema (a ditadura era a iugoslava) e de nome parecido "Quando papai saiu em viagem de negócios", mas posso afirmar que ajudou a reforçar a minha fé no método de escolha Deixe Seus Preconceitos Correrem Livremente que manda desconfiar de filmes 1) brasileiros 2) com criança 3) e velhinho 4) e o governo Médici por pano de fundo. Como esse é o primeiro de que tomo conhecimento, prontamente deixei de assistir, mas devido a situação de insegurança no país, fui atingido em pleno lar, via DVD.

Essa mistura de Menino Maluquinho com Pra Frente Brasil pode enganar esses críticos que acham que a supressão de diálogos inteligentes faz bem à naturalidade das atuações, mas não a mim. No filme, todo mundo fala que nem criança, até os adultos, e mesmo que estejam discutindo futebol em um boteco - ninguém fala um "caralho!" e olha que o técnico era o Zagalo. Aposto que se o delegado Fleury fizesse uma aparição ia dizer que a subversão é uma coisa muito feia e botar o Caio Blat de castigo.

Mas enfim, é aquela corrente pra frente, no Oscar meu palpite é Brasil e Índia na final.

Ainda nas Coberturas

Por Estevão Garcia

Quem está acompanhando as ótimas coberturas do Festival do Rio realizadas pelos sites especializados, sem sombra de dúvida, já deve ter passado pela cobertura do Almanaque Virtual. O site colocou no ar até agora nada mais, nada menos que 128 críticas, o maior volume de textos dos sites que estão cobrindo o Festival, além de reportagens e entrevistas (entre elas, uma com David Lynch). Vale muito a pena a conferida.

Dicas da Repescagem


Por Estevão Garcia


Aqui vai algumas dicas dos filmes escolhidos para a repescagem do Festival do Rio que merecem uma conferida. Nessa sexta durante a Maratona do Odeon vai passar o último Abel Ferrara, "Go go tales" às 23:00h. Mesmo para os que não tem saco de ficar até de manhã pra comer um pedaço de bolo de laranja com nescau, vale apena chegar lá só pra ver esse filme e ir embora. No sábado será exibido "Hana" do grande diretor japonês Hirokazu Kore-Eda às 13:15h. Às 17:30h passa "Uma Velha Amante" da polêmica diretora francesa Catherine Breilat. Apesar de não ser um dos melhores filmes da realizadora, o filme ao longo de sua projeção consegue atingir momentos bem reveladores. No domingo temos "Antes que o diabo saiba que você está morto" do veterano Sidney Lumet e "Não toque no machado" do sempre bom Jacques Rivette às 21:30h. Segunda passa o belo e emocionante "Caixas" da francesa Jane Birkin. Na quarta o prato principal sem dúvida é "Cristovão Colombo, o enigma" do grande Manoel de Oliveira às 17:30h. Na quinta, o filme de grande interesse é o "Papel não embrulha brazas", do cambojano Rith Pann, e a grande curiosidade está em "A cada um seu cinema" filme em episódios encomendado pelo Festival de Cannes.

Festival do Rio Última Chance

Por Estevão Garcia

O Festival do Rio acaba amanhã e muita gente já está com lágrimas nos olhos e com nostalgia dos dias de intensiva maratona cinematográfica. E aí que surge a Zé Pereira para fazer mais um serviço de utilildade avisando à cinefilia carioca que o desespero ainda não é pra tanto.
A partir dessa sexta 5/10 até o dia 13/10 o Festival ainda exibirá 37 filmes no Cine Odeon. Para quem quiser rever algum filme que gostou ou para quem quiser assistir os filmes que perdeu, a oportunidade é essa.
Abaixo, segue a lista de filmes da repescagem do Festival

FESTIVAL DO RIO - ÚLTIMA CHANCE
de 5 a 13 de outubro

Odeon BR

PROGRAMAÇÃO

Sexta 5-outubro
13:45 Opera Jawa Opera Jawa, de Garin Nugroho 120
16:00 Eu e você Women Liang, de Ma Liwen 85
17:45 Na estrada com o amante da minha mulher Ane-eui aein-eul mannada, de Kim Tai-sik 92
19:45 Fraulein Das Fraulein, de Andrea Staka 81
21:30 Floresta dos lamentos Mogari no mori, de Naomi Kawase 97

MARATONA: a partir das 23h
23h20: Go Go Tales, de Abel Ferrara
2h: Like a Virgin, de Lee Hae-Young Lee Hae-Jun
4h40: Mundo imundo de John Waters, de Jeff Garkin

Nos intervalos, lounge com o DJ jorge luiz, e bolo e café após a última sessão
(ingresso: R$20,00)


Sábado 6-outubro
13:15 Hana (Hana yori mo naho), de Hirokazu Kore-Eda 127
15:45 Antiga alegria Old Joy, de Kelly Reichardt 76
17:30 Uma velha amante Une vieille maitresse de Catherine Breillat 114
19:45 O outro El otro de Ariel Rotter 83
21:30 Lust, Caution Se, Jie de Ang Lee 156

Domingo 7-outubro
13:45 As rosas do deserto Le rose del deserto, de Mario Monicelli 102
15:45 O bom de chorar Lo bueno de llorar, de Matias Bize 80
17:30 Antes que o Diabo saiba que você está morto Before the Devil Knows You?re Dead, de Sidney Lumet 117
19:45 Entrevista Interview, de Steve Buscemi 81
21:30 Não toque no machado Ne touchez pas la hâche, de Jacques Rivette 137

Segunda 8-outubro
13:00 O Antigo Jardim Orae doin jung won, de Im Sang-soo 112
15:15 A vida pós-moderna da minha tia Yi ma de hou xian dai sheng huo, de Ann Hui 111
17:30 O casamento de Tuya Tuya de hun shi, de Wang Quan?an 92
19:30 Morrer em hebreu Morirse está en hebreo, de Alejandro Springall 98
21:30 Caixas Boxes, de Jane Birkin 95

Terça 9-outubro
13:30 Ezra, o menino soldado Ezra, de Newton I. Aduaka 102
15:30 A felicidade de Sakai Sakai-ke no shiawase, de Mipa Oh 90
17:45 Sonhos de deserto Hyazgar, de Zhang Lu 123
19:45 Um táxi para a escuridão Taxi to the Dark Side, de Alex Gibney 105
21:30 O caminho de San Diego El Camino de San Diego, de Carlos Sorin 98

Quarta 10-outubro
13:15 Os encantos de Paloma Délice Paloma, de Nadir Moknèche 134
15:30 Argentina latente Argentina latente, de Fernando Solanas 100
17:30 Cristóvão Colombo ? O enigma Cristóvão Colombo ? O Enigma, de Manoel de Oliveira 70
19:00 Feche... apenas seus olhos Faghat Cheshmato Beband, de Ali Reza Amini

Quinta 11-outubro
13:45 Adeus, cidade do sul Goodbye, Southern City, de Oleg Safaraliyev
15:45 Eichmann Eichmann, de Robert Young 100
17:45 Elvis Pelvis Elvis Pelvis, de Kevin Aduaka 95
19:45 Papel não embrulha brasas Le papier ne peut pas envelopper la braise, de Rithy Panh 90
21:30 A cada um seu cinema Chacun son cinema, de Vários 119

Terça-feira, 2 de Outubro de 2007

Sobre a Sessão Curtas Retratos da Prémiere Brasil


Por Estevão Garcia

Transferir a imagem de um personagem da vida real com todas as suas peculiaridades: expressões faciais/corporais, tons de fala e empostações, postura, gestos e articulações, para o cinema não é assim uma tarefa tão fácil como parece. A razão da complexidade dessa operação aparentemente simples é justamente que ela não se resume em ser apenas uma transferência. Não basta escolher um personagem carismático, que fale bem, ligar a câmera e captar a sua imagem. Compor o retrato de uma pessoa real através do cinema pressupõe a absorção do próprio conceito de "retrato", ou seja, algo como uma moldura, um quadro delimitado, um recorte. Escolher o recorte para a composição de um personagem é o primeiro desafio que caberá ao cineasta enfrentar.

A escolha do personagem a ser filmado já se baseia em uma série de motivos, agora o passo seguinte é o de selecionar quais deles deverão ocupar um maior relevo e quais assumirão papéis secundários. "Maria Lenk" (Dir: Sônia Nercessiam, 2006) por exemplo, ao prestar homenagem a histórica nadadora de 90 anos, escolheu associá-la exclusivamente à sua profissão. Não vemos em nenhum momento Maria Lenk fora do ambiente de um clube de natação. As suas falas lentas e pausadas são entremeadas com imagens de Lenk nadando. Não houve aqui um uso criativo de personagem/ambiente e sim apenas uma solução fácil e montagem paralela alternando falas e braçadas. Ora Maria Lenk fala, ora Maria Lenk nada. Essa construção simplista confere ao curta somente sua qualidade como registro. O mérito do filme é o de registrar, documentar Maria Lenk antes de sua morte. O curta embalsamou Maria Lenk, a transformou em fotogramas para a eternidade. Fora esse feito, "Maria Lenk" é nulo como cinema.

"Elke" (Dir: Julia Resende, 2007) optou por se aproximar da retratada não em eu local de trabalho, mas no lugar onde ela se sente mais à vontade: a sua casa. Aqui não se proura sublinhar a atividade profissional do personagem como em "Maria Lenk", e sim ressaltar as suas idiossincrasias. A fala de Elke também apresenta um papel importante, porém aqui o filme soube melhor modular a sua cadência com o ritmo da montagem. Ouve-se não só as declarações da protagonista como também a de mais um entrevistado, no caso, o seu marido. Além de Elke se auto-explicar, se autodefinir, o filme cedeu espaço á uma outra voz que também terá a função de definir e resumir as principais marcas do personagem. No entanto, a câmera de Julia Resende é um tanto distanciada e cerimoniosa ao temer entrar nos poros de Elke. As cores de seu apartamento, assim como os seus objetos, poderiam ser melhor trabalhados e pensados com a finalidade de não só reproduzirem a explosão estética transbordante do personagem, como também expandi-la para a forma do filme. "Elke", o filme, e Elke, personagem seriam então uma coisa só.

"O Homem-Livro" (Dir: Anna Azevedo, 2006) organiza a interação com o seu personagem a princípio não por sua profissão ou por sua personalidade extravagante fora do comum como "Elke", mas pela valorização de sua obra. E a obra, no caso, é uma biblioteca popular criada com muito esforço e recursos financeiros próprios. Ao longo da projeção, descobrimos por trás da obra, o homem que a planejou. E esse homem carismático, engraçado e falante chamado Evando dos Santos acaba por se tornar tão interessante e tão valorizado quanto a sua realização. Através de seu depoimento entrelaçado, agora sim, com uma elaboração criativa da relação personagem/espaço sublinha-se a importância dos livros e da busca pelo conhecimento. Os enquadramentos enfatizam o espaço ocupado pelos livros na casa de Evando. A montagem não cria um sentido de oposição: Evando contra e sufocado com as pilhas de livros e, sim, uma idéia de soma: Evando + os livros. Ao mesmo tempo em que os livros invadem a casa do personagem empurrando-o para um cantinho, o seu impulso não é opressor e, sim, libertador. A relação íntima de Evando com a disposição dos livros em sua residência se evidencia quando ele olha para a câmera e acusa alguém da equipe de ter tirado um livro de lugar. No meio daquela bagunça, daquela não catalogação, ele era capaz de localizar e de identificar qualquer peça.

Os dois últimos filmes que compõem a sessão Curta Retratos da Prémiere Brasil são "Quanto mais Manga melhor" (Dir: Michelle Lavalle, 2006) e "Lêda de arte Leda" (Dir: Daniela Gontijo, 2006). O primeiro faz saltar os olhos por seu desleixo técnico. A fotografia é feita de qualquer maneira, a montagem é burocrática e o seu andamento torna-se irregular. Os depoimentos de Carlos Manga são sentidos como o ponto central do filme e nada além dele flui por si só. O segundo apresenta um dado novo nesse conjunto de curtas. É o único em que o realizador é familiar do retratado. A diretora é neta de Lêda e esse laço transparece ao longo de todo o filme. Há aqui um outro afeto entre filme/personagem e se esse dado não o faz melhor do que os demais, sem dúvida, o faz ser diferente. Dona Lêda é uma figura e cativa de imediata a simpatia do espectador. Os melhores momentos do filme são quando ela está presente. As cenas de depoimentos dos amigos e familiares não são substanciais a ponto de ocuparem tanto tempo dentro do filme. No caso de Lêda, sua presença já seria mais do que suficiente.

It was you, Chávez

Por Arnaldo Branco



Charlie: Look, kid, I - how much you weigh, son? When you weighed one hundred and sixty-eight pounds you were beautiful. You coulda been another Billy Conn, and that skunk we got you for a manager, he brought you along too fast.

Terry: It wasn't him, Charley, it was you. Remember that night in the Garden you came down to my dressing room and you said, "Kid, this ain't your night. We're going for the price on Wilson." You remember that? "This ain't your night"! My night! I coulda taken Wilson apart! So what happens? He gets the title shot outdoors on the ballpark and what do I get? A one-way ticket to Palookaville! You was my brother, Charley, you shoulda looked out for me a little bit. You shoulda taken care of me just a little bit so I wouldn't have to take them dives for the short-end money.

Charlie: Oh I had some bets down for you. You saw some money.

Terry: You don't understand. I coulda had class. I coulda been a contender. I coulda been somebody, instead of a bum, which is what I am, let's face it. It was you, Charley.


Essa cena clássica, um show de Marlon Brando em "Sindicato de Ladrões", homenageado por Scorsese e De Niro em "Touro Indomável" é a favorita de 10 em 10 sujeitos - não só boxeadores - que acreditam que sua vida não deu certo por influência alheia, alguma força exterior.

Lembrei dela assistindo JC Chávez, documentário correto porém superado pela magnitude do homem em estudo. Julio César Chávez é o boxeador mexicano, dono do recorde de defesas de título (dos superpenas, 37 vezes) e de um cartel impressionante: 107 lutas, 1 empate e 6 derrotas - a última delas encerra o filme.

Quando perdi de vista um dos meus ídolos do esporte, em meados dos anos 90, ele estava atingindo resultados inéditos na carreira: estava perdendo. Mas antes sua invencibilidade tinha durado quase 100 lutas, e devido a sua popularidade e pelo número de vezes que pôs o cinturão em jogo em combates milionários, tinha certeza que hoje Chávez estaria curtindo uma aposentadoria de sonho.

Não: segue, aos quarenta anos, fazendo lutas de "despedida" por ter perdido fortunas com divórcios, se defendendo em tribunais de ligações com o narcotráfico e confiando em Don King, mafioso com status de promoter.

Diego Luna, o ator-garotão de "E tu mama también", consegue várias cenas pungentes, menos por seu mérito de diretor e mais porque o velho boxeador se expõe mais do que seria aconselhável para preservar sua dignidade.

"Palooka" é o termo usado para boxeador fracassado e bastante usado pela equipe de Chávez para se referir a seus adversários, e é triste ver um desses perdedores escolhidos a dedo ganhar facilmente do ex-melhor do mundo. No fim de uma carreira perfeita, Chávez ganhou um bilhete só de ida para Palookaville.

Stanley Nelson e o Cinema Black Power


Por Estevão Garcia

A retrospectiva Stanley Nelson do Festival do Rio é composta por 5 dos 9 títulos do diretor, que em sua maioria foram produzidos para a televisão. Sócio com a sua co-roteirista Marcia Smith da empresa sem fins lucrativos Firelight Media, Nelson desde 1998 dedica-se a dirigir documentários onde os seres mais marginalizados pela sociedade norte-americana se convertem em protagonistas. Assim em "O assasinato de Emmett Till" (2003) o diretor traz à tona o brutal espancamento de um adolescente negro de 14 anos, morto por ter assobiado para uma mulher branca em 1955. Tal acontecimento teve na época repercursão mundial e até foi tema de uma poesia de Vinicius de Moraes. No entanto, com o passar dos anos e com a absolvisão dos criminosos, o incidente foi esquecido pela grande mídia. O filme de Nelson não só serviu para lembrar a sociedade americana do crime que tinha deixado impune há mais de 50 anos, como também por motivar a reabertura do processo.

Nelson não esconde o orgulho por ter conseguido, através de seu filme, um efeito concreto na vida real. Seu cinema, por ter esse objetivo definido e entre outros fatores por se preocupar em ter uma linguagem clara, didática e transparente, pode ser tranquilamente classificado de militante. Nelson faz um cinema militante em prol da causa negra e para o público habitual de um festival de cinema o termo "cinema militante" é muitas vezes compreendido como um palavrão. Os cinéfilos em sua grande maioria privilegiam o cinema como expressão, como construção formal/estética e justamente por isso rechaçam qualquer cinema que aparentemente os colocariam em segundo plano.

Primeiramente, posicionar a estética em um degrau abaixo do conteúdo que se pretende transmitir não quer dizer que ela seja considerada inferior e sim que ela é apreendida não como a razão da obra mas como o seu meio. A mensagem política é, no cinema militante, o principal. A forma seria então o veículo, o instrumento para a sua propagação. Uma forma expressiva mal trabalhada ou desleixada seria ,portanto, fatal para a veiculação da mensagem. Afirmar que o cinema militante por excelência rechaça a construção artística em exclusivo bebefício do conteúdo é um equívoco. Existem nele sim, objetivos diferentes e um filme a principio deve ser analisado pelo o que se propõe a ser. Não é oportuno considerar negativos aspectos próprios desse tipo de cinema, como o seu caréter informativo e direto. Eles são a chave para a concretização do dialógo entre a obra e uma figura central: o espectador.

O espectador é aqui um agente privilegiado. Como em todo cinema militante, os filmes de Stanley Nelson possuem um espectador-alvo. Diferentemente do cinema clássico hollywoodiano caracterizado por almejar uma homogenização do público, desejando abranger todas as idades, classes sociais e raças, o cinema militante procura atingir um grupo específico. Apresentar um público-alvo não quer dizer que outros tipos de espectadores serão rejeitados e sim que o filme em primeiro lugar busca interagir com um receptor bem delimitado cuja meta é sua conscientização e mobilização. No caso dos filmes de Nelson, o primeiro público que se quer alcançar é a comunidade negra. Mais do que mostrar aos brancos a força e a incansável trajetória de lutas dos negros nos EUA, seus documentários pretendem convidar os afro-americanos a iniciar uma viagem ao redor de sua própria História.

História é aqui uma palavra importante. A filmografia do diretor prima por uma cuidadosa e longa pesquisa tanto em relação ao manuseio de fontes primárias como documentos históricos e jornais de época quanto a utilização de preciosas imagens de arquivo. Assim desde um detalhado painel da imprensa negra norte-americana, todo ele fundamentado a partir de vasta documentação ("A Imprensa negra americana: um combate sem tréguas, 1998) à reconstrução de um conhecido suicidío em massa ("Jonestown: vida e morte no templo do povo", 2007), Stanley Nelson demonstra rigor histórico, faro investigativo e persistência na procura de evidências concretas. Seu cinema não opera juízos de valor na direção de destacar a potência de uma raça em detrimento de outras. A principal preocupação de Nelson recai no projeto de se construir uma sociedade onde exista igualdade de direitos. A força e o poder da cultura negra segundo o realizador, reside extamente aí, não em uma suposta "superioridade" que os termos poderiam sugerir, mas em sua capacidade de se rebelar, nadar contra a corrente, vencer as barreiras e de lutar pela conquista de seus direitos em uma sociedade que sempre a desprezou.

I'm not there - Tô nem aííííí



Por Arnaldo Branco

Dias D da música popular como o do encontro de Lennon e McCartney em uma quermesse, o do concerto desastroso dos Stones em Altamont ou o da entrevista dos Sex Pistols no programa de Bill Grundy são marcos na Linha do Tempo particular do fã de rock, episódios que têm mais importância que o Concílio de Trento ou a Tomada da Bastilha para o nerd heavy user de cultura pop. Se eles podem render bem cinematograficamente é Outra História.

Esse "I'm not there" reproduz a vida de Bob Dylan em mitos (sempre confundiu a imprensa com suas mentiras) e acontecimentos (imagens captadas em vídeo reencenadas trejeito a trejeito, embora algumas com a ambientação trocada). Para isso usa vários atores (e uma atriz, Cate Blanchett) representando Dylans de várias fases de sua carreira (o iniciante de música folk, o anfetaminado convertido ao rock, o trintão fazendo discos sobre divórcio), todos com heteronômio para deixar mais clara a distinção.

Os eventos marcantes de sua trajetória são filmados com solenidade, e mesmo sofismas e platitudes de um artista eternamente sem saco para entrevistas, discussões sobre sua "mensagem" e fãs seriais são tratados com reverência que só fazem sentido para iniciados em Rockologia com a disposição de um cultuador de Star Trek. Não ajuda muito que a narração não seja linear e o todo tenha uma cara de colagem experimental, embora com a fotografia lavada de uma grande produção. Cada fotograma parece ser a pose para uma capa de disco e uma brincadeira de "onde está wally" referencial.

O diretor Todd Haynes evidentemente acredita na mitologia do rock e acha que a tour por esse armazém de memorabília tem interesse para mais alguém que não Dylanmaníacos - ou, pelo contrário, conta só com eles para fechar o borderô. Haynes também terá que responder diante dos Portões Perolados por "Velvet Goldmine", outra cinebio rock'n'roll de mentirinha sobre o período glam (início da década de 70), em que advoga a tese de que a música da época era tão poderosa que as letras com insinuações andróginas podiam levar você efetivamente a dar a bunda.

Perdeu, Haynes: esse clip recente com o remix de Mark Ronson para "Most likely you will go your way (and I´ll go mine)" parte da mesma premissa e chega mais longe - com uma economia de 130 minutos. Não perca a oportunidade.

Momento coluna social


A equipe do curta "Esconde-esconde", destaque da Première Brasil



Roberto Berliner, Léo Crivellare e Lula Queiroga apresentam "Pindorama"

Segunda-feira, 1 de Outubro de 2007

Adolescente querida

Por Flu

"Os mal-criados" (Pia Marais, Alemanha, 2007)

O grande aval da arte é nos mostrar as diferenças de olhar sobre um mesmo assunto. A vida é absurdamente cheia de variáveis. A língua, a temperatura, a história político-social de cada parte do mundo faz com que os seres pensem muito diferente sobre a mesma situação. O cinema alemão sempre teve uma personalidade muito forte. A maneira como eles alinhavam o roteiro e colocam na tela é bem estranho. Parece difícil, mas é tão longe da nossa realidade tropical-terceiro-mundista, que vira um objeto de observação. Essa adolescente alemã do filme é muito querida. Ela quer uma família unida e normal. Só que os pais são traficantes e drogrados. Moram numa casa com mais dois vagabundos e levam uma vida doidona e sem futuro. De qualquer forma a menina se esforça pra manter puro e confiante os pensamentos num futuro mais bonito. O interessante é que o filme não fica mostrando o porquê de tudo. Não tem importância. A função maior é ver até onde vai a tolerância de uma menina querida num mundo podre e mal-criado.

O jovem Werther


Por Eduardo Souza Lima

Ian Curtis tinha morrido há dois anos quando ouvi "Disorder" pela primeira vez. O vocalista do Joy Division e Bruce Lee são os primeiros fenômenos de vida após a morte criados pela comunicação de massa. Curtis, porém, é mais emblemático, pois decidiu ele mesmo dar cabo da vida própria vida. Não foi um suicídio anunciado como o de Curt Cobain, do Nirvana. Cobain estava na mira dos holofotes quando se matou. E existem várias explicações para o seu ato. No caso de Curtis, pouco se sabe dos motivos e poucos souberam quando aconteceu, já que ele era apenas um aspirante a fama quando morreu - assim como Lee. O maior mérito de "Controle, a história de Ian Curtis" (que passa hoje, às 16:30h e 21:30h, no Palácio 2, e na quinta-feira, às 19:30h, no Estação Barra Point), de Anton Corbijn, é justamente não fantasiar os fatos. Curtis era um garoto comum de Manchester que trabalhava numa agência de empregos, era fã de David Bowie e queria ser cantor de rock. Casou-se muito cedo e precipitadamente. Precipitadamente também decidiu ser pai. Matou-se quando sua filha ainda era um bebê. Pego no meio do furacão punk, como vários garotos de sua época, viu a possibilidade de se tornar um astro. Curtis, porém, é um fenômeno anterior à era das celebridades em que vivemos hoje, que cria monstros como a filha da Xuxa. Não era um Ronaldinho Gaúcho, cujos dribles de criança podemos ver hoje graças à popularização das câmeras de vídeo. Mesmo fotos dele parecem raras. Curtis não tinha a ambição da eternidade - ou da eternidade dos 15 minutos de hoje -, não montou um museu para si mesmo. Daí tantas lacunas a serem preenchidas em sua vida. Daí a sensação de desconcerto que sua morte legou. Porque ele parece ter se matado por um motivo banal. O cantor havia se apaixonado por outra e não queria magoar a mãe de sua filha, a mulher que jurou amar para sempre. É uma decisão difícil, mas ninguém se mata por isso. Também era epilético e sofreu com o tratamento contra a doença, mas epiléticos não costumam se suicidar toda hora. Teve medo das mudanças que a fama poderia ter trazido à sua vida, mas uma mera fuga poderia ter resolvido o problema. Corbijn, diretor de videoclipes dos anos 80 conhece bem a época a as motivações dos jovens de então. Na abertura do filme ele sugere que a perda do controle da própria pode ter levado alguém tão jovem a tomar decisão tão desesperada. Mas são nas depressivas letras do Joy Division que estão as melhores pistas. Curtis era um romântico à moda antiga que se precipitou pela última vez na vida no dia 18 de maio de 1980, aos 23 anos.

Gelekas e gelatina de morango


"Planeta Terror"(Robert Rodriguez, EUA, 2007)

Por Flu

Pegar filme pirata de terror trash em locadoras do início dos anos 80 era um clássico. Muitas descobertas de filmes malucos e sem noção. Bem diferente dos poucos filmes selados que rolavam nas prateleiras. Nessa leva de início de VHS, rolaram muitos George Romero, John Carpenter, muitos diretores que não lembro o nome, mostrando o lado negro da força. Eram filmes de mortos vivos ou alienígenas que queriam simplesmente comer tudo que vinha pela frente. Dando preferência à um coração bem quentinho. Logo em seguida surgiram Sam Raimi e Peter Jackson. Eles foram a nova frente da nojeira descarada. Vieram com novas idéias e técnicas de geleka mais elaboradas. "Morte do Demônio" e "Fome animal" são retratos clássicos dessa fase.
Como tudo na Humanidade é cíclico, a renovação do gênero chegou a o século 21. Robert Rodrigues fez um filme homenagem com todos os elementos que não podem faltar no terror ketchup. Mortos vivos, conspiração para acabar com o mundo, mutação genética, com muito sangue e pus escorrendo da tela. Sensacional! Boas sacadas, humor e efeitos analógicos mas com uma pitada de tecnologia. O roteiro nem precisa dar bola. O lance é ir se divertindo com um monte de bobagem e gelatina de morango saltando na cara. O trailler fake que rola antes é maravilhoso!

Visão de jogo

Por Arnaldo Branco

Enrolado com matérias para várias revistas e pornografia online, não vi nenhum filme este fim de semana. Mas bati ponto no Maracanã para Flamengo x Atlético, onde a torcida, enfrentando mais uma vez a fraca concorrência do time, roubou o espetáculo.

O Flamengo é muito parecido com o cinema nacional: tem grande público consumidor potencial, mas é deficitário. Um dos motivos é o material humano disponível e a falta de peças de reposição - sai Cacá Diegues e entra Moacyr Góes? Jeez. E outra: por que filmamos pouco o futebol? O Canal 100 deve ter deixado mais fotogramas na memória do público do que qualquer filme da retomada com a possível exceção de Olga, difícil de esquecer como qualquer experiência traumática.

Nelson dizia que nossos escritores não sabiam bater um escanteio, mas aliviou para os cineastas. É impressionante que o número de filmes de ficção sobre o assunto seja residual e inacreditável que alguns tenham sido estrelados por pernas de pau do naipe de Edson Celulari e André Gonçalves. O futebol é o óbvio ululante.

O Cinema no Poder

Por Estevão Garcia

Ontem fui ver "Argentina Latente", terceiro documentário de uma série de cinco que o cineasta Fernando Solanas está fazendo sobre a Argentina contemporânea. Os dois primeiros foram "Memória do saqueio"(2004) e "A Dignidade dos ninguéns" (2005), ambos exibidos em edições anteriores do Festival do Rio.
Solanas estava presente para apresentar a sessão e agora em outubro de 2007 ele não é só um cineasta político engajado remanescente da geração dos anos 60, fundador do grupo Cine Liberación , autor do manifesto Hacia un tercer cine, Apuntes y experiencias para el desarrollo de un cine de liberación en el Tercer Mundo , diretor do clássico "La Hora de los Hornos" e um dos principais nomes do chamado Nuevo Cine Latinoamericano, mas também candidato a presidência da Argentina.

Discordando ou não do passado político e cinematográfico do diretor não deixa de ser curioso ver a sua trajetória se completar com essa campanha para presidente. Seria mais ou menos equivalente se Glauber tivesse vivo e se candidatasse em 2010 ou se Jorge Sanjinés tivesse se candidatado no lugar de Evo Morales. A aproximação dos cineastas políticos latino-americanos com o poder estava até o presente momento restrito aos cargos oficiais assumidos por Julio García Espinosa ao longo do governo de Fidel Castro.

Se Solanas conseguir morar os próximos anos na Casa Rosada, ele não será apenas o primeiro cineasta político latino-americano dos anos 60 a alcançar o poder mas também o primeiro cineasta a se tornar presidente da república. Certo ator dedo-duro hollywoodiano já conseguiu realizar tal feito (Ronald Reagan) e certo halterofilista bombado já assumuiu o governo da Califórnia e está caminhando para fazer o mesmo(Arnoldão, o Exterminador). Se ator pode, porque cineasta não?

E se agora virou moda registrar bastidores de campanhas eleitorais, vide "Entreatos" (Dir: João Moreira Sales, Brasil, 2004) e "Cocalero" (Dir: Alejandro Landes, Argentina, Bolívia, 2006) que filmaram as campanhas de Lula e Evo Morales respectivamente, agora Solanas fará um filme da própria campanha. Será uma espécie de autobiografia eleitoral, um diário pessoal de campanha, mais um novo gênero cinematográfico que estará surgindo?
vamos aguardar.