16 de março de 2009
Fatalismo em arte
Por Arnaldo Branco
Li “A insustentável leveza do ser” nos anos 80, quando Milan Kundera era um hype tipo Saramago. Lembro de um personagem que dizia uma frase estúpida que, fora de contexto e contra seu último desejo, ia parar em sua sepultura, como epitáfio. Conclusão do Kundera: “quando morremos somos transformados em kitsch”.
Engraçado que Kundera agora é meio considerado cafona e pouco sobrou da moda por aqui além de paródias com o título “Insustentável Leveza…” em manchete de caderno de cultura. Pelo menos no Brasil o cara nem precisou morrer pra virar kitsch.
Esses dias li outro livro, de outro autor hypado, este brasileiro. Até onde sei, vendeu pouco, mas pela ausência crônica de um público leitor decente, os parâmetros de sucesso do nosso mercado editorial nunca se nortearam pelo reles materialismo: ganhou elogios da crítica e de outros autores e indicação para prêmios. E é horroroso.
Eu poderia gastar essa coluna para mostrar, com exemplos generosamente fornecidos pelo próprio autor, como é ruim, mas sei que é inútil. A coisa já está estabelecida como êxito literário, e qualquer disposição em contrário foi revogada.
Minha tarefa seria ainda mais impossível porque não queria apenas convencer os outros de que estavam enganados: gostaria de uma retratação pública de todo mundo que elogiou o livro. Portanto, deixa pra lá.
Se é difícil legislar sobre a nossa posteridade, como descobriu o herói kunderiano, é ainda mais complicado tentar frear a máquina de transformar bucha medíocre em sensação. Entrar pro cânon da literatura ocidental é fichinha em comparação.
10 comentários para “Fatalismo em arte”
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16 de março de 2009 às 22:05
Mas se teu Nelson Rodrigues já mandava desconfiar do que todo mundo gosta!…
Um professor me ensinou uma vez: só leia livros com mais de dez anos de idade. Você se afasta da opinião geral e, quem sabe, esse livro já estará coberto pela poeira do que já não funciona mais (desculpe a figura medíocre de linguagem).
Aliás, já dizia outro francês - que era modinha na sua época e detestava isso - “autor bom é autor morto” (ele não disse bem assim, mas aquele pessoal do “Conceição” redisse isso bem melhor).
19 de março de 2009 às 7:41
[...] Minha coluna Mal Necessário para a Zé Pereira: Fatalismo em arte. [...]
19 de março de 2009 às 11:23
eu me sinto assim em relacao aos livros do chico….
19 de março de 2009 às 14:46
Temos uma rastejante imprensa cultural. Basta ser filho de alguém para “virar escritor” (ou colunista de jornal também serve).
19 de março de 2009 às 17:03
cheguei a conclusão que pra ser publicado e elogiado nesse país o cara tem que ser professor de literatura numa universidade qualquer ou ser jornalista. acho que só o Galera, dessa nova geração dos anos 2000, que não é nem um nem outro. mas ele começou independente, virou sucesso no mundo ‘indie’, digamos assim e depois apareceu.
19 de março de 2009 às 18:34
Entrega aí que livro é esse ou eu posso acabar lendo desavisadamente…
19 de março de 2009 às 19:43
Pô, tem o Pellizzari, a Simone Campos, o Terron, a Cecília Giannetti… gosto muito deles. Até onde sei só a Ciça é jornalista, mas já escrevia antes de exercer (percebam como falei que jornalismo e escrita são coisas excludentes, mas na sutileza).
19 de março de 2009 às 19:44
Batendo na testa. Porra! Soares Silva.
19 de março de 2009 às 20:20
Sempre fui da teoria que gosto se discute, mas fica difícil quando você nega o nome do autor, do livro e dos seus problemas. É impossível concordar com você quando se está tão no escuro. Ora, que falam mal de caras bons e vice-versa é tão velho quanto andar a pé (que os digam os velhos neandertais que debocharam da invenção da roda). Mas daí a concluir que você está certo e todos que elogiaram o livro errados é um passo muito grande, que, sinceramente, prefiro não dar. Parece uma imposição de opinião, coisa que sempre acreditei que você fosse contra. Chato.
21 de março de 2009 às 14:37
Putz, cara, obrigado, nunca na história desse país eu fui tão levado a sério…