2 de fevereiro de 2009
Fase de crescimento
Por Arnaldo Branco
Tem aquela campanha que diz que o melhor do Brasil são os brasileiros, o que não é exatamente uma unanimidade. Por exemplo, para os assaltantes o melhor do Brasil são os turistas escandinavos.
Essa admiração induzida pelo produto nacional nos leva a delírios como o truísmo que reza termos a melhor publicidade do mundo, ou um dos mercados de consumo mais promissores. No meio dessas patriotadas disfarçadas de dado científico, a noção inventada de que praticamos o bom jornalismo. Para ilustrar, um estudo de caso: a “Veja”.
Sei que virou clichê de esquerda falar mal da revista, mas em favor de uma investigação isenta vamos pegar a última matéria de capa a respeito da conduta errática de jogadores de futebol, portanto sobre comportamento e sem coloração ideológica definida. A chamada é “Porque eles não amadurecem”, com uma foto do Robinho comemorando um gol chupando o dedão.
Enquanto cartunista, sou a favor da generalização para fins humorísticos, mas em jornalismo, especialmente para corroborar psicologia de boteco sobre determinismo social, fica esquisito. Os outros vários jogadores multimilionários de quem nunca ouvimos uma história escabrosa podem se sentir tentados a pedir uma retratação pública - ou, se a revista realmente acertou no diagnóstico de imaturidade, ficar de mal.
E usar o Robinho na capa traz dois problemas: 1) ainda não se sabe se ele tentou mesmo estuprar uma garota e 2) se tentou, não é leviano afirmar que foi por não ser um sujeito maduro? Quer dizer, estupro é crime, não uma travessura.
Mas isso de uma revista que esculacha adversário político em obituário. A “Veja” não está na posição de cobrar maturidade de ninguém.
11 comentários para “Fase de crescimento”
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2 de fevereiro de 2009 às 20:24
[...] a lenda que se faz bom jornalismo no Brasil. Veja aqui o que tem a dizer o Arnaldo Branco em sua coluna desta semana. E amanhã, faça sol ou faça chuva, [...]
2 de fevereiro de 2009 às 22:52
“Mas isso de uma revista que esculacha adversário político em obituário.”
Sem querer ofender, mas pode citar o nome?
2 de fevereiro de 2009 às 23:27
Sem querer ofender? Como assim?
É prática recorrente. Deixa morrer qualquer bastião da esquerda e vai lá conferir. Mas um exemplo, Baudrillard: http://rafaelfortes.files.wordpress.com/2007/03/obituario-veja.jpg
Repare que pegaram um pouco mais leve com D. Ivo Lorscheiter, mas também deram alfinetadas.
3 de fevereiro de 2009 às 1:56
Esse obtuário sobre o Baudrillard é hilariante, caralho, nao tinha visto isso. Parece que foi o Alf da comunidade da Bizz que escreveu essa merda. Psicologia e filosofia de boteco.
3 de fevereiro de 2009 às 9:19
Generalização, psicologia de boteco, determinismo social, maturidade. Matou.
Mas às vezes acho que essa discussão só faz sentido entre jornalistas e, pior, entre uns poucos que consideram ética algo a ser discutido.
Os 1.250.000 assinantes da Veja acham que o que sai escrito ali é a expressão da verdade, ou pelo menos fruto de alguma apuração séria.
Depois daquela capa do Fábio Assunção, seguida por Suzana, não dá mais para levar a sério isso aí. Ficou abaixo da crítica.
Eles tão apostando nas leitoras doninhas de salão. Descobriram que o tititi moralista e pseudo-informativo, em tempos de crise, pode ser uma boa.
Sobre os obituários canalhas, nenhum vai superar o de Brizola.
abraço
3 de fevereiro de 2009 às 9:59
O Mário Filho abre “O negro no futebol brasileiro” explicando que, sempre que ouvia alguém reclamando que os jogadores de então (anos 50) não tinham mais amor à camisa (papo velho, hein?) era sempre em referência a jogadores negros.
3 de fevereiro de 2009 às 11:54
também não tinha visto o obituário do baudrillard. os jogadores de futebol é que são imaturos, claro.
3 de fevereiro de 2009 às 20:55
meu deus! ridicularizando a teologia da libertaçao, também! varios coelhos abatidos numa cajadada so…
4 de fevereiro de 2009 às 10:02
[...] Minha coluna Mal Necessário, toda semana na Zé Pereira: Fase de crescimento. [...]
4 de fevereiro de 2009 às 15:02
Alfinetadas com sabre. Sei que também é clichê, mas me deu nojo de ler isso.
4 de fevereiro de 2009 às 15:05
E antes que role um mal-entendido, tava me referindo aos obituários, não à sua coluna.