4 de janeiro de 2010
Eu só estava cumprindo ordens
Por Arnaldo Branco
Mais previsível que deslizamento de terra em área de risco, só o tipo de matéria que nossos jornalistas fazem com esse material: algumas considerações sobre o descaso das autoridades, estimativas do número de mortos e muitas imagens (ou aspas) de desabrigados e parentes de vítimas chorando a dor da perda.
OK, os noticiários não inventaram a curiosidade mórbida, que existe desde que o primeiro popular parou para olhar o cadáver do primeiro sujeito atropelado por uma biga. Mas eles não param de estimular a tal, com a desculpa questionável de que só estão dando ao povo o que ele quer.
(Lembro daquela cena de His Girl Friday em que Cary Grant, editor de um tablóide, manda deslocar um artigo sobre Hitler para a página de quadrinhos para abrir espaço na primeira página, mas mantém uma certa “história da galinha” por causa do interesse humano)
A miséria dos outros é uma tentação grande demais para quem precisa cativar a audiência e garantir receita. Natural que editores estimulem esse tipo de abordagem, e daí a incidência de repórteres perguntando para gente que acabou de perder sua casa e familiares como estão se sentindo. Afinal, ordens são ordens.
O que descobri recentemente é que alguns desses repórteres acreditam que procurar personagens entre vítimas de uma tragédia é um serviço de utilidade pública, e não sensacionalismo. Que dão uma grande oportunidade ao flagelado quando exibem seu desespero para milhões de leitores e espectadores, para que o coitado possa mitigá-lo, em uma catarse ao vivo.
Sei que o couro de jacaré que o profissional da área é obrigado a desenvolver para selecionar que má notícia merece mais destaque às vezes anestesia suas sensibilidades. Mas não achava que alguns trabalhavam convencidos que estão a serviço de algo mais do que o voyeurismo e o ibope. Deve ser aquilo que chamam de imersão.
17 comentários para “Eu só estava cumprindo ordens”
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4 de janeiro de 2010 às 15:01
[...] A gente ia escrever sobre o assunto, mas o Arnaldo Branco se antecipou e o fez com mais competência e elegância em sua coluna desta semana. Leia aqui. [...]
4 de janeiro de 2010 às 15:11
[...] Revista Zé Pereira» Arquivo do Blog » Eu só estava cumprindo ordens http://www.revistazepereira.com.br/eu-so-estava-cumprindo-ordens – view page – cached Mais previsível que deslizamento de terra em área de risco, só o tipo de matéria que nossos jornalistas fazem com esse material: algumas considerações sobre o descaso das autoridades, estimativas do número de mortos e muitas imagens (ou aspas) de desabrigados e parentes de vítimas chorando a dor da perda. [...]
4 de janeiro de 2010 às 15:18
Estava em Ilha Grande, mas do outro lado onde não aconteceu nada. Acordei dia primeiro, sem a menor noção do caso já que praticamente não há sinal de celulares por lá, e fui para a praia curar minha ressaca feliz da vida com o retorno do sol.
Ainda pela manhã, recebemos a informação da tragédia e ficamos aguardando novos detalhes. Lá pelas 15h o pessoal do camping pede desesperado que todos dêem um jeito de ligar para suas casas, já que as notícias estavam criando pânico geral. Nessa um colega descobriu que a mãe estava trancada no quarto rezando, outro que o parente X já estava a caminho de Angra para obter notícias e por ai vai…
Apenas alguns reflexos dessa irresponsabilidade. Dizer que “Houve um deslizamento e tudo está soterrado em Ilha Grande” é como dizer que “Houve um deslizamento na Pompéia e a Zona Oeste inteira de SP está soterrada!” (não sei fazer uma analogia carioca para o caso). Mas, o que importa? Antes de apurar a proporção da ilha, as possíveis causas ou qqer coisa, por que perder a manchete mais trágica?
4 de janeiro de 2010 às 15:32
É inacreditável essa irresponsabilidade. Liguei preocupada para uma amiga que estava lá e ela disse que a TV estava fazendo sensacionalismo. Que parecia muito mais do que realmente tinha acontecido. E se vc ficar assistindo essas reportagens, fica mal e chora na mesma hora.
Filipe, farei a anlogia carioca. Deslizamento em Ipanema e todos em Campo Grande ficaram soterrados.
Abraços.
4 de janeiro de 2010 às 17:52
CARALHO, PERFEITO
pior é quando vc chega na redação de alguma pauta nesse estilo e vira o editor: “pq vc nao falou com os familiares?” tomar no cu, neh?
mas o pior é realmente a pergunta: “como vc tá se sentindo (agora q seus parentes morreram de forma trágica?)” é muita sem-noçãozice
4 de janeiro de 2010 às 18:21
O próximo passo será botar o Tadeu Smidt e a Glenda Koslowski pra noticiarem as tragédias. Mais emoção ainda! Imagina o Galvão: “dramáááaááaatico!”
5 de janeiro de 2010 às 11:05
Essa argumentação foi meio stand-up hein.. concordo que é sem noção explorar a tristeza das pessoas (me lembro da modelo catarinense que perdeu toda a familia nas enchentes no ano retrasado em SC e levaram ela no programa da Luciana Gimenez praticamente pronta prum ensaio sensual).
Por outro lado é a menos pior opção pois dá uma face à tragédia. Assim pelo menos podemos fingir que nos importamos, senão nem isso faríamos, e ficaríamos impacientes pra poder ver os gols da rodada.
A Nívea, pelo jeito depois que ligou pra amiga, deve ter ficado zoando as reportagens e falando “ah morreu 50, pouquinha coisa”. Caguei pro exagero da imprensa. Que queriam que dissessem? “Caiu um meteoro no Brasil, mas ufa- só no Nordeste.”
5 de janeiro de 2010 às 13:36
[...] Minha coluna Mal Necessário da semana: Eu só estava cumprindo ordens. [...]
5 de janeiro de 2010 às 14:24
Existem vários tons que podem ser dados à cobertura. Há a possibilidade de dar um tom contido, fugindo do sensacionalismo, mas mostrando sim, os rostos dos atingidos, pois vai ser com eles que o espectador vai se identificar e se indignar com o descaso das autoridades.
Sua argumentação parece muito voltada às intenções comerciais dos meios de comunicação. Faltou uma visão mais abrangente, sobre o papel deles numa situação dessas.
O repórter não precisa perguntar “o que a pessoa está sentindo”. Pode perguntar há quanto tempo as vítimas viviam na situação precária. Se sabiam que estavam em risco. Se havia algum apoio para deixarem a situação. Isso é serviço público.
5 de janeiro de 2010 às 21:16
Caralho. Até hoje eu não acredito que esse vídeo aí seja de verdade. Isso aí era ao vivo mesmo ou é só dramaturgia?
6 de janeiro de 2010 às 9:50
Logo quando comecei a estudar os mecanismos de produção de tv, rádio e demais veículos de massa,fui me apercebendo que sempre estivemos cercados desse sensacionalismo, dessa espetacularização.
Fait divers, o fato como diversão.
Basta lembrar da voz empostada no Repórter Esso, como que teatralizando a notícia e os acontecimentos.
E é assim com tudo: desde telecursos (que deveriam se preocupar mais em ensinar que com entreter), passando por programas de evangelização (com toda aquela pantomima e choradeira) e propagandas até os telejornais.
Essa é a sociedade do espetáculo. E não me surpreende que motoristas parem perto de um acidente, esperando ver sangue. Só há espetáculo porque há público.
6 de janeiro de 2010 às 10:36
Paulo: Somos seres de emoção e precisamos que fiquemos envolvidos emocionalmente pra podermos nos interessar. Ninguém nos “fez” assim, não é uma doença do ser humano, e nem é uma conspiração pra comprarmos mais. O que vc está dizendo é reclamação de velho, corneteiro de torcida. Se tudo fosse do jeito ao contrário do que vc diz, sexo seria só penetração.
6 de janeiro de 2010 às 13:01
Cabron, respeito sua opinião. Mas, reclamação de velho? Discordo categoricamente.
Pra mim, o conformismo que você prega é que é coisa de velho, cansado de lutar contra o que um dia já achou inaceitável ou, ao menos , incômodo (se é que isso se deu algum dia).
Claro que não é conspiração, é apenas sinal de que a mediocridade está onde sempre quis.
Ah, e se o jornalismo que vislumbramos fosse mais ético talvez o mundo fosse mais parecido com sexo.
6 de janeiro de 2010 às 13:54
Sou aqui de SC e sofri um bocado com esse ‘turismo de desgraça’ em novembro de 2008… é incrível como pode pessoas terem tanta curiosidade pelo sofrimento alheio.
Anteontem estava na praia e uma criança de 13 anos morreu afogada, foi um empenho de uns 20 minutos pros bombeiros conseguirem passar pela multidão com um jet ski, as pessoas largaram guarda-sóis, cadeiras, cervejas… esvaziaram parte da praia pra ir ver o que aconteceu… no fim nem dá pra culpar os jornalistazinhos por essa necessidade de mostrar, só realmente é absurdo o fato de alguns acreditarem ser de ‘utilidade pública’.
6 de janeiro de 2010 às 14:37
Acho q vc está confundindo as coisas. Vc pode até pedir que o jornalismo seja menos sensacionalista, mas daí a pedir que o resto todo da programação não tenha entretenimento, já achei forcação. Telecurso não tem que ser uma aula chata - se isso fosse tão ruim nenhum professor faria piadinhas em aula, por exemplo.
Agora, jornalismo e ética. Rs. Muita gente faz piada de advogado, só pq não pode fazer piada de jornalista (senão invocam a lei da liberdade de imprensa…)
6 de janeiro de 2010 às 15:59
Você foi quem fez uma leitura equivocada do que eu comentei. Só disse que alguns desses programas se utilizam de recursos dramáticos, em detrimento do principal, não que deveriam prescindir deles. Aliás, adorava a fase do Telecurso em que Tonny Ramos ou Paulo Autran recitavam boa poesia (talvez você nem fosse nascido ainda). TV também é emoção pra mim.
Aliás, gosto bastante de televisão.O que não me impede de ter senso crítico. Ainda mais tendo contato direto com as idéias dos profissionais que a produzem e reconhecem os “ganchos” para alavancar audiência.
Ou você achou bonito o que a produção do Gugu fez na história do PCC?
23 de janeiro de 2010 às 22:32
Arnaldo, uma indagação. Você acha que se a imprensa deixava de fazer isso, ela não seria tratada de insensível aos dramas humanos.
Aonde eu quero chegar é o seguinte. Se faz de uma jeito, é criticada. Se fizer de outro, será. Então só resta à ela solução menos ruim: parece sensível aos dramas humanos.
Agora se veículos sérios caem no sensacionalismo é coisa a se pensar. E sem confundir com o programas da tarde, que não são jornalisticos, apesar de tentarem. Ali, realmente, há apelação.